Não há como não gostar da música brasileira. Independente do gênero preferido, diga-se de passagem. A gente ouve, por exemplo, Dolores Duran, Lupicínio Rodrigues, Beth Carvalho, Nelson Cavaquinho e tem a sensação que aquele disco, aquela música acabou de ser lançada. É incrível! Apesar do tempo, não envelhecem. É assim como outros artistas, é claro. Apenas exemplificamos.
Acabamos de adquirir num sebo, aqui mesmo em Manaus (AM), o CD “As Flores em Vida – Nelson Cavaquinho”. São 11 músicas entre elas Folhas Secas e Quando Eu me Chamar Saudade, de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito. Os intérpretes são Chico Buarque, Paulinho da Viola, Christina Buarque, João Bosco, Beth Carvalho, Toquinho e Carlinhos Vergueiro.

No encarte do disco consta o seguinte texto de Paulo César Pinheiro: “Nelson Cavaquinho e eu já varamos muitas madrugadas juntos durante um tempo de minha vida. Por isso posso falar de cadeira desse compositor. Não como crítico, historiador ou repórter, mas como companheiro de boemia, aprendiz de sua linguagem e conhecedor de sua obra.
Como companheiro, acumulo estórias sobre essa figura singular do povo; não as folclóricas, já repetidas muitas vezes por quem ouviu falar essa ou aquela de pessoas longínquas, mas as com as quais convivi, vi acontecer, participei como personagem. Poucas vezes vi pessoas tão ternas no tratar com seus semelhantes, com a gente simples e humilde (prostitutas, mendigos, marginais, bêbados, trabalhadores) que povoa seu mundo cotidiano. Vi Nelson ganhar cachês e distribuí-los inteiros entre essa gente, num começo de manhã, ficando sem dinheiro pra voltar pra casa. Conheci e me espantei sempre com o Nelson filósofo de depois da décima dose de qualquer bebida. Passava a vida tão a limpo numa mesa de bar, que intelectuais se curvavam diante de sua lógica e visão de mundo. Senti o homem religioso que ele é a cada momento, com sua imensa fé e sua conversa infindável sobre o mistério da morte. Querendo, talvez, convencer-se a si próprio que conversará com seu Deus um dia. Vi o Nelson promíscuo em sua paixão inusitada pelo meretrício. Vi muitas faces desse homem. E a convivência pacífica e pura, dentro de seu coração, de seus santos e demônios, virtudes e pecados, ânsias e tranquilidades
Como aprendiz, suponho-me suspeito pra falar de seu talento. Considero Nelson o sambista popular que mais me arrebatou e emocionou, com seus temas extremamente originais, estranhos às vezes, mas belos e de fácil assimilação. Melodias vigorosas e inconfundíveis. Versos profundos de marcada vivência. Versos de filosofia. De poesia lírica. De malandragem. Versos moleques e de bom humor como ele próprio. Ele não fez senão o que ele é de verdade. Nunca fugiu de sua linha. Nunca saiu de seu caminho. É, com letras maiúsculas, o VERDADEIRO COMPOSITOR POPULAR.
E finalmente, como conhecedor de sua obra, só posso provar isso, qualquer dia desses, em alguma roda-de-samba de mesa de botequim onde ele esteja, cantando, de cor, o que ele puxar em seu violão. E com o mesmo timbre de voz. Porque foi do mesmo barro da sua que a minha voz foi feita. Nossas vozes vieram do fundo do poço da noite. Não é à toda que me chamam de filho de Nelson Cavaquinho quando canto” (1).
Aqui, portanto, as testemunháveis palavras do mestre César Pinheiro sobre o outro mestre, o Nelson Antônio da Silva, o cantor, compositor e instrumentista Nelson Cavaquinho (1911-1986), autor destes memoráveis versos: “Quando o tempo avisar/Que eu não posso mais cantar/Sei que vou sentir saudade/Ao lado do meu violão/E da minha mocidade”.
Notinha útil – O Facetas parabeniza a sua mascotinha Angeline Gomes, pela recente aprovação para mestrado na área de Farmacologia da UFPE, no Campus do Recife. Seus familiares e amigos estão na torcida pelo seu sucesso nessa nova empreitada acadêmica/profissional. Aliás, ela preenche bem esses requisitos, conforme observou o renomado médico brasileiro, o Doutor Daher Elias Cutait (1913-2001): “A mão do sucesso profissional tem cinco dedos: caráter, vocação, talento, esforço e disciplina” (www. facetasculturais. com.br).
Por Francisco Gomes e Winnie Barros
Fonte consultada: 1. CD “As Flores em Vida – Nelson Cavaquinho”, – SP: Gravadora Eldorado, 1996.