Bárbara de Alencar: uma líder política

O livro “Extraordinárias: mulheres que revolucionaram o Brasil“, é mesmo extraordinário. Nele, constam os registros dos grandes feitos de 45 mulheres que jamais se curvaram diante das adversidades que surgiram para ofuscar os seus ideais. Entre elas estão: Chiquinha Gonzaga, Ana Néri, Nise da Silveira, Bertha Lutz, Dorina Nowill, Bárbara de Alencar, Zuzu Angel, Dona Ivone Lara, Zilda Arns, Olga Benário, Lina Bo Bardi, Dandara.

“Você já ouviu falar no Livro de Aço? Ele é literalmente composto de páginas de aço e está guardado no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, na praça dos Três Poderes em Brasília. […] Para que um nome seja incluído no Livro, o Senado e a Câmara dos Deputados precisam aprovar uma lei. Menos de 10% dos nomes que figuram nele são de mulheres. Entre as heroínas homenageadas estão a enfermeira Ana Néri, a estilista Zuzu Angel e as revolucionárias Anita Garibaldi e Bárbara de Alencar” (1).

Hoje, portanto, apresentamos um pouco da história da líder política e social da pernambucana Bárbara de Alencar, nascida em Exu, no dia 11 de fevereiro de 1760, e falecida no dia 28 de agosto de 1832, aos 72 anos. “A história da matriarca da família Alencar, que liderou importantes movimentos políticos e sociais, é pouco conhecida mesmo no seu estado natal, Pernambuco. Aos 57 anos, já viúva, ela se tornou uma das primeiras prisioneiras políticas da História do Brasil, ao lutar contra o domínio da Coroa portuguesa. Mas essa não foi a sua única batalha. Após a Independência do país, continuou contestando o autoritarismo, opondo-se às políticas centralizadoras da primeira Constituição do Império” (1).

Estamos nos reportando às décadas de 1810, 1820, ou seja, há 200 anos. “Em uma época em que a inteligência da mulher era comparada à loucura e qualquer participação feminina na política era um escândalo, como ressaltou o sociólogo José Alfredo Montenegro, Bárbara deixou seu nome na História e gravou seu nome no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. Influenciados pelas ações, pelas opiniões e pelo espírito contestador da mãe, seus filhos também se tornaram importantes figuras na luta por ideais de liberdade e igualdade” (1).

Marta, Alexandre, João e Leonel, os irmãos portugueses que deram origem à família Alencar no Brasil, na chapada do Araripe, que divide os Estado do Ceará, Pernambuco e Piauí. Às margens do rio da Brigada, “Leonel fundou fazendas que deram origem ao Município de Exu, em Pernambuco, onde nasceu Bárbara. Quando adulta, ela passou a atuar como líder comunitária e política de uma maneira tão importante que seu legado registrou à falta de dados em documentos oficiais” (1).

Bárbara era casada com o comerciante português José Gonçalves dos Santos, e tiveram cinco filhos. “Dar uma educação de qualidade a eles sempre foi uma de suas maiores prioridades. Por isso, escolheu o Seminário Maior Nossa Senhora da Graça, em Olinda, que oferecia uma educação progressista. Era um espaço de muita discussão política e de conscientização sobre a realidade do país, que foi fundamental para a história da família” (1).

Em 1817, Bárbara participou ativamente da Revolução Pernambucana, cujo movimento almejava que o Brasil fosse emancipado e deixasse de ser colônia. Alguns dias depois, em 8 de março, foi proclamada a República em Recife. A repressão foi dura por parte de Portugal: tanto Bárbara quanto o seu filho José Martiniano (pai do futuro escritor José de Alencar), foram presos. Ela chegou a ser torturada no presídio. Porém, fora solta por ordem da Coroa, 4 anos depois, em 17 de novembro de 1821.

Apesar de uma época tenebrosa contra opositores, Bárbara participou do movimento pró independência de 1822; e da primeira Constituição, de 1844. Nesse mesmo ano, seu filho Tristão, liderou a insurreição no Nordeste, com a Confederação do Equador. Sua mãe e o irmão Martiniano, participara dessa revolta, que não teve um final feliz para a família Alencar: Tristão e o irmão Carlos José morreram durante os conflitos.

Após fugir de inúmeras perseguições políticas, Bárbara morreu na fazenda Alecrim, no Piauí. “Ela foi sepultada na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, no distrito de Itaguá, próximo da sede do Município de Campos Sales, no Ceará. Em reconhecimento à sua luta, o centro administrativo do Ceará recebeu seu nome. Na década de 1990, foi erguida uma estátua da heroína na praça da Medianeira, em Fortaleza. Em 2011, foi fundado na capital cearense um instituto que leva seu nome e se dedica à defesa dos direitos das minorias e das políticas públicas” (1).

Sobre a obra ora em análise, a jornalista, escritora e ativista mineira Maria Amélia de Almeida Teles (81 anos), Amelinha Teles, que foi vítima da ditadura e presa pelo DOI-CODI, diz: “Recuperar e registrar a história de mulheres que, no Brasil, deram contribuições pioneiras nos mais diversos campos da vida é motivo de celebração e esperança. A leitura de Extraordinárias confirma o compromisso de se rebelar com o sistema patriarcal e racista que ainda hoje nega direitos fundamentais e insiste em impor o silenciamento e a opressão mais da metade da população brasileira. Conhecer o protagonismo dessas mulheres, sem dúvida, e criar condições para avanços significativos na convivência democrática entre as pessoas” (1).

Aos nossos leitores, oferecemos esta mensagem de vida de Bárbara de Alencar, como bem ilustra Amelinha Teles que reconhece a importância dos direitos fundamentais significativamente defendidos pela ativista pernambucana.

Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.

Fontes consultadas: 1. “Extraordinárias: mulheres revolucionaram o Brasil”, de Duda Porto de Souza e Aryne Cararo, 3ª ed. – SP: Seguinte, 2018; 2. Ilustra aqui reproduzida, de Veridiana Scarpelli.

Deixe um comentário