De Cima Para Baixo

                  Em 1973, a Editora Três publicou a coleção Obras imortais da nossa literatura, composta de 40 volumes, cada obra de um autor diferente, como: Machado de Assis, Euclides da Cunha, José do Patrocínio, Manoel Antônio de Almeida, entre outros.
                   O volume 21, de Contos, é de Artur Azevedo (irmão de Aluísio de Azevedo, romancista muito conhecido nos meios literários, autor inclusive de O Cortiço). Ele era maranhense de São Luís, onde nasceu em 1855, e morreu no Rio de Janeiro em 1908.
                   Artur cultivou o teatro, a poesia e o conto, deixando uma vasta obra. Escreveu sobre assuntos do momento, detendo-se nos tipos, costumes e caracteres do Rio de Janeiro e criticando, embora superficialmente, a sociedade da época, segundo o professor Carlos Alberto Iannone, da Faculdade de Filosofia, Ciências de Letras de Marília.
                 O livro contém 47 contos e é muito bom. Pois, escritos há mais de um século, mesmo assim, retratando fielmente o Brasil de hoje. Por exemplo, o conto De cima para baixo, cujo título usei nesta apresentação, é fantástico. Senão vejamos, em síntese:
                  ”Naquele dia o ministro chegou de mau humor ao seu gabinete, e imediatamente mandou chamar o diretor-geral da secretaria”
             ”Por sua causa passei por uma vergonha diante de sua majestade o imperador! O senhor mandou-me na pasta um decreto de nomeação sem o nome do funcionário nomeado! É imperdoável esta falta de cuidado!”
             ”E, dando um murro sobre a mesa, o ministro prosseguiu: ouvi palavras tão desagradáveis proferidas pelos augustos lábios de sua majestade, que dei a minha demissão!…” Porém, foi mantido no cargo, por ser considerado um ministro muito ocupado.
                  O diretor apresentou suas desculpas, apesar de impressionado pela palavra demissão, enquanto ouvia do senhor ministro:
                  ” – Bom! Mande reformar essa porcaria!”
                 O diretor-geral saiu de lá e mandou chamar o chefe da terceira seção, sobre quem descarregou sua cólera, repetindo as ”palavras tão desagradáveis” do ministro. E, após ouvir desculpas esfarrapadas, disse-lhe:
                 ”- Cale-se, e trate de reformar essa porcaria!…”
                O amanuense (antigo burocrata) assim o fez. Mas, achou por bem culpar alguém e foi sobre o contínuo que sua ira fora extravasada sentenciando:
                  ”Não se desculpe: você é um muito relaxado! Retire-se daqui.”
                 O contínuo deixou o gabinete muito enraivecido e foi vingar-se num servente preto, que estava num corredor secretaria, a quem atribuiu a culpa pelo fato que chegou ao conhecimento do imperador. O servente tentou se justificar, mas foi repreendido, sob pena de ter contra si o registro de uma queixa ao porteiro do Ministério. Assim o fez, sem reagir.
              Deixou o corretor entristecido, pois não tinha ninguém abaixo de si, em quem pudesse desforrar-se da agressão do contínuo. Foi para casa e deu um tremendo pontapé no seu cão que veio dar-lhe as boas vindas, o qual grunhiu e voltou a lamber-lhe humildemente os pés.
            ”O cão pagou pelo servente, pelo contínuo, pelo amanuense, pelo chefe de seção, pelo diretor-geral e pelo ministro!…”
                Assim é o Brasil atual: alguém era presidente da república e não de sabia de…; alguém era chefe da Casa Civil e não sabia de…; alguém era diretor disso ou daquilo e não sabia de…
              E o povo brasileiro sabe de tudo, mas humildemente, lambe-lhes os pés, ou seja, a maioria do eleitorado inconscientemente continua elegendo considerável parcela de políticos crápulas.
              E você? O que achou da minha conclusão? Concorda? E o que achou da conta do jornalista? Comente. 
               Lembrando: em breve vamos ter uma página no Facebook, onde você poderá dizer sua opinião sobre nossas postagens. Aguarde!
  

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