Confesso que ainda tenho boas lembranças das aulas de História lá pelos idos dos anos 70, no antigo primeiro grau. Época em que nenhum professor estava autorizado a tecer comentários contrários ao governo militar. Mesmo assim, o mestre fazia uma crítica velada ao sistema político e deixava a garotada toda entusiasmada quando abordava temas (fora do contexto factual), tais como: A guerra do Paraguai, Canudos, Castro Alves e os escravos, Anita Garibalda,  Aleijadinho, Olga Benário, entre outros. 

Recentemente encontrei algumas anotações desses velhos tempos ginasiais, referentes a Antônio Francisco Lisboa – autor e obra -, o Aleijadinho. Ele nasceu em 29 de agosto de 1730, na localidade conhecida por Bom Sucesso, no Município de Ouro Preto (MG), e morreu em 18 de novembro de 1814, na cidade de Mariana (MG), aos 84 anos. Arquiteto, desenhista e escultor, até hoje é considerado um dos maiores do mundo na prática de esculpir.
Filho ilegítimo de um carpinteiro português com uma escrava negra, o menino tinha complexo por ser bastardo. Durante a infância, em Vila Rica, frequentou o curso primário e aprendeu um pouco de latim. Foi nessa fase que surgiu o interesse pelo desenho. Sendo instruído na oficina do pai, pelo pintor português João Gomes Batista. A Bíblia era a sua fonte de leitura predileta e inspiração para as futuras obras que criara. Possuía exemplares em gótico e bizantino do Livro Sagrado.
Quando adulto, até os 47 anos viveu uma vida voltada para a boemia, “esbanjando saúde e dinheiro em noitadas alegres. Trabalhava, então, como arquiteto ou escultor, sem mostrar qualquer traço de genialidade” (1). Foi, no entanto, a partir dessa idade que começou a sentir os efeitos da doença que o atormentara pelo resto da sua vida: a lepra. Mal esse que “viria a deformar todos os seus membros“. Diante dessa realidade, tomou duas decisões: 1ª.  Afastar-se “das coisas mundanas”; e 2ª. Distribuir “para os pobres tudo quanto ganhava”.
Assim, ele iniciava uma nova fase de sua vida. Apesar do sofrimento por causa de dores terríveis que sentia (chegava a ser carregado por escravos), Antônio Francisco “trabalhava febrilmente nas obras que deslumbrariam o mundo. Com os instrumentos atados aos seus pulsos, esculpia as figuras admiráveis de apóstolos, profetas, anjos, arcanjos e santos que se encontram nas igrejas de Minas” (1). Os 12 profetas, por exemplo, são de beleza e arte inigualáveis. Escupidas em pedrão-sabão podem ser contemplados “no adro do santuário do Bom Jesus do Matosinhos, e em Congonhas do Campo”. Em outros lugares também: “Altares, púlpitos, portados, frontispício e relicários das diversas igrejas e capelas de Ouro Preto, Sabará, São João Del Rey e Tiradentes” (1). Só mais um detalhe: “A maioria das obras do mestre Aleijadinho foi completada com a ajuda de Maurício e Agostinho, dois de seus devotos escravos” (1).
Segundo estudos, além do Brasil – fora Minas Gerais, é claro – não há no continente Americano, seja em catedrais e/ou lugares históricos para contemplação, aferição e comparação de valores artísticos, em matéria de arquitetura e escultura, nada igual, da arte ali criada (e exposta) desde a segunda metade do século XVIII, por Aleijadinho.
“Para descobrir algo semelhante ao conjunto de monumentos que ele legou à posteridade (…), ora em pedra ora em madeira, é preciso ir um pouco mais longe no espaço e no tempo. No espaço, talvez seja preciso estender a investigação ao Velho Mundo, e, no tempo, remontar à Renascença” (2).  Somente lá  (na Europa) podem ser identificados os verdadeiros contemporâneos de Aleijadinho.
Porém, há uma grande diferença a ser observada: os geniais artistas europeus tinham força e saúde, enquanto que o nosso artista viveu quase 4 décadas flagelado “pelo mal-de-lázaro”, que o limitava todo, menos o poder da criação.  Aliás, foi com esse poder (no sentido de resistir as temeridades da doença), que foi capaz de “transmitir ao mundo as suas comoventes mensagens de beleza” (2). Eram, por assim dizer, dois mundos distintos. Senão vejamos: “Enquanto os homens da Renascença encontraram, no meio e na época em que viveram, condições ideais para o desdobramento harmônico de suas personalidades, no caso do Aleijadinho o meio, a época, as circunstâncias históricas e sociais, as instituições, os preconceitos de raça, de classe e de nacionalidade quase sempre lhe foram adversos (2)”.
Realmente eram-lhe adversidades demais desde a sua primeira infância: nasceu escravo (apesar do pai o ter declarado livre no batismo, como consta no assentado da igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Vila Rica), na prática, o “signo fatal” era o mesmo; filho ilegítimo de um português com uma escrava africana, etc. Tudo isso, “deixou a marca profunda das suas repercussões no temperamento arrebatado de Aleijadinho” (2). Tem mais: “Natural da terra e bastardo, bastado e mulato“. Seu destino já estava traçado, ou seja, seria mais um ser entre tantos outros oprimidos “a quem tudo se negava e que só com duras penas conseguiria um lugar ao sol” (2).
O que fazer? Poucos foram os estudos obtidos na Vila Rica. Ouro Preto, era apenas um vilarejo “de casas de taipa e toscas capelas escondidas na espessura dos arvoredos”. Tudo girava em torno da extração do ouro, por um lado. Por outro, se faltou ao garoto instrução secundária, coube-lhe uma excelente educação técnica, aos 20 anos. Exatamente no período de esplendor para a urbanização de vilas e aldeias por causa da riqueza aurífera. “Erguem-se por toda a parte, num prodigioso surto de arte colonial, os mais belos monumentos religiosos do país” (2). Para aquela região de Minas, migram, não apenas garimpeiros e faiscadores, mas, também, “os mestres santeiros de Portugal, da Bahia e do Recife, arquitetos, escultores, medalhistas, gravadores, em cujo convívio (…) teria Aleijadinho o seu mais fecundo aprendizado” (2).
Como já dominava o desenho desde a época em que passava muito tempo nos andaimes das obras em construção, observando o movimento de operários e artesãos, logo assimilou “os regrados das especializações que o conduziriam ao caminho da glória”. Porém, o caminho do criador até tornar-se um artista foi doloroso. E também como saber traçar a planta de uma igreja ou de um altar, entalhar na pedra e na madeira, regular uma vocação definitiva.
Como já foi anunciado, até os 47 anos, Antônio era saudável e amante das noitadas. “Quanto ao artista, ele ainda não havia aparecido. Gênio ele já seria então, mas um gênio perdulário em pleno período de hibernação” (2). Do nada esse homem “começa a declinar fisicamente. Intumescem-lhe os dedos das mãos e dos pés, o corpo arqueia-se, a fisionomia adquire uma expressão leonina, uma deformidade progressiva apodera-se dele para não mais o abandonar pelo resto de sua vida. Tratava-se, tudo leva a crer, apesar das conjecturas e hipótese em contrário, de lepra nervosa, o mal de  que estava atacado o Mestre Antônio Francisco Lisboa (2)”.
A partir daí começa o seu calvário físico. Concomitantemente, “nasce o artista, o criador, a cujas mãos enfermas e contorcidas dir-se-ia que a doença transmitiu instantaneamente o poder mágico de comunicar forma, vida, intensidade e beleza à imobilidade da pedra” (2). A carne do corpo do escultor está fraca, se desintegrando; seu espírito permanece forte, enrijecido; seu coração manda que seja doado aos necessitados todo o dinheiro que ganha, como fazia São Francisco de Assis, seu santo devoto.
O artista não aceita  morrer. Trabalhar sim. Criar sempre. Por sinal, trabalhar é a sua única paixão. “Ao alvorecer, já os escravos, que são também seus auxiliares e discípulos, o conduzem em liteira cerrada para junto dos blocos de pedra que ele vai dar forma e vida. E ali permanece o Aleijadinho, ora no recesso das igrejas em construção, ora na penumbra das abóbadas, ora ao ar livre nos átrios, oculto sempre por uma tenda que o protege dos olhares dos curiosos, até que o crepúsculo lhe não permite continuar. Quando se vê de escopro e maceta em punho diante da pedra-sabão trazida das montanhas do Itacolomi, branda à ação dos instrumentos do escultor mas resistente à ação do tempo, esquece a enfermidade, as dores, os ódios e as fraquezas e entrega-se todo à alegria da criação” (2).
No fim do dia, volta à realidade de sempre de sua vida. Gemidos de dor e “sem que ninguém lhe possa trazer consolo ou alívio. O seu único lenitivo é a leitura da Bíblia” (2). No entanto, sabia ele ser singular: ao mesmo tempo que procurava  “esconder-se de tudo e de todos, vai deixando por muitos lugares as marcas da sua passagem. E que marcas! (…) Não se diria a obra de um artista mutilado. As igrejas de Ouro Preto que exibem as majestosas obras, as quais parece incorporá-las a paisagem que as envolve. É a personificação do gênio tocado de um halo de santidade” (2).
Moral da história: todas as pessoas, ao seu modo, desde que queiram, podem fazer algo positivo em prol de si mesmas, como em benefício da humanidade. Aleijadinho, por sua vez contrariou a máxima latina: men sana in corpore sano, isto é, a sua mente era sã, mas seu corpo, não. Mesmo assim, deixou a sua marca, não pelo apelido no diminuitivo e nem pela conotação à sua enfermidade. Não importa. A História não fica presa a essas circunstâncias. Como bem o disse o historiador escocês, Thomas Carlyle (1795-1981), quando se manifestou àqueles que deixam o seu registro benéfico para a posteridade:
 
                              “Nenhum grande homem
                                                    vive em vão.
                         A  História da Humanidade  
                                                   não é mais  
                                     do que a biografia      
                             dos grandes homens.”
 
Pesquisa e texto por Francisco Gomes
Arte fotográfica por Winnie Barros
Fontes
1. Dicionário Biográfico Universal Três. – SP: Três Livros e Fascículos. vol. 1. 1984, p. 41
2. O renascentista de Ouro Preto, por Vianna Moog, in Grandes Vidas, Grandes Obras: Biografias famosas. Seleções do Reader’s Digest. Lisboa, 3. ed. junho de 1980.
3. A foto acima: Jesus Crucificado, da Paixão do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos (Portugal).