O século XIX corria para seu final quando nascia no lugarejo Fuente Vaqueros, da Província de Granada, Espanha, o menino Federico García Lorca, no seio de família rica, cujos pais eram Vicenta Lorca Romero e Federico García Rodriguez. Crescido, tornou-se um dos maiores poetas do seu país e uma referência mundial, principalmente por suas posições contra a Guerra Civil que castigava e matava sua gente.

A sua poesia é reconhecidamente “pela universalidade dos temas, a inspiração popular, os valores sonoros e a extrema sensibilidade que aflora em cada um de seus versos” (1). Leia um poema de Lorca e você jamais esquecerá dele (autor). A sonoridade de seus versos, suas palavras é algo impressionante. Por isso, a absoluta aceitação dessa máxima: “Os poetas são as antenas do mundo!”.

Apesar de ter vivido uma infância duramente marcada por “graves e consecutivas enfermidades durante a adolescência, ali mesmo em Granada, estudou Direito e Literatura e, depois dos 21 anos, em Madri, onde se formou em letras jurídicas. Na Capital, tornou-se amigo de Salvador Dalí, Manuel de Falla, Luis Buñuel e Rafael Alberti, os quais influenciaram muito sua carreira literária.

Aos 23 anos chamou a atenção da crítica com a publicação de o Libro de Poemas. Porém, a consagração veio aos 29 anos (1927) com Canciones gitanas (canções ciganas). Trechos onde estão estes belos versos: Que cigana é essa…?/Porque chora quando eu canto/E sorri da minha dor? (5). No ano seguinte publica Romancero gitano, considerada por muitos estudiosos a maior obra dele. A partir daí, ingressou na galeria dos grandes nomes da poesia espanhola.

A síntese dessa obra é esta: “O Romancero – ora cerebral, ora popular, ora ainda a fusão dessas duas maneiras – constitui a própria essência do pensamento e da sensibilidade hispânica, expressando em particular a alma andaluz” (1). Nessa fase da vida o poeta já era conhecido pelos recitais de sua poesia, vindo a colaborar com as suas criações publicadas em várias revistas, como La Gaceta Literaria e Revista de Occidente.

Em 1929 foi bolsita da Universidade de Colúmbia, de Nova York, onde escreveu o livro o Poeta en Nueva York, publicado após sua morte, e ainda fez uma viagem a Cuba. Retornando a Espanha em 1930. Em 1932, “fundou e passou a dirigir LA BARRACA, grupo teatral que se dedicava à divulgação dos clássicos da dramaturgia espanhola” (1). Em 1933, esteve na Argentina, Brasil e Uruguai, cujo resultado foi um sucesso extraordinário como poeta, dramaturgo e conferencista.

A poesia do Poema del cante jonde (1931) denota valores expressivos universais. No entanto, “obra-prima indiscutível é também o poema Llanto por Ignacio Sánchez Mejías (1935) em que o autor chora a morte do toreiro, a quem conhecera em Nova York. Ficou especialmente famoso o obsessivo refrão, a las cinco de la tarde (A Captura e a morte): Eran las cinco em punto de la tarde./Ay qué terribles cinco de la tarde!/Eran las cinco em todos los relojes!/Eran las cinco em sombra de la tarde! Esse mesmo poema na tradução do mestre Oscar Mendes, é simplesmente emocionante.

O entranhado amor de Lorca à terra natal, aos valores populares nacionais como o folclore foi uma constante em seu trabalho e isso, se materializou ainda mais nas sua últimas obras poéticas. Por exemplo, em Seis poemas gallegos (1935) e em publicação póstuma, Poemas sueltos e Cantares populares. Depois do teatro e da poesia, a música e a pintura, eram suas paixões. Percebe-se que muitas de suas obras estão ilustradas com seus desenhos e vinhetas. Ele mesmo declamava seus poemas. Em alguns casos há até partituras de sua autoria.

Lorca foi um dos maiores autores do teatro poético do século XX. Esse interesse surgiu aos 22 anos quando vivia em Madri. Entre 1927 e 1936 foram muitas as peças criadas e apresentadas. Mas, sua plenitude ocorreu com a trilogia: Bodas de sangra (1933), Yerma (1934) e La casa de Bernada Alba (1936), ano da morte do teatrólogo.

Em 2016 estive no O Alienígena Disco, uma loja de antiguidades muito bem organizada que fica no centro de Manaus (AM), onde vi um LP que falava sobre García Lorca. Mas, por descuido, não fiz a aquisição do disco. No mês passado (agosto de 2020), 4 anos depois, lembrei-me dessa obra e voltei lá e, com a ajuda dos proprietários – entre milhares de LPs -, adquiri essa relíquia, cujo título é: “Federico García Lorca: 12 canções para 2 violões“, por Paco de Lucia e Ricardo Modrego. Alguns desses poemas musicados são: Zorongo gitano, Los reyes de la baraja, Nana de Sevilla, Las tres hojas, entre outras canções.

Na contracapa Marcel MARNAT faz interessante comentário sobre o poeta espanhol, como essas duas curiosidades: 1. Lorca desejou ser sepultado com uma guitarra (“Cuando yo me muera/Enterradme con uma guitarra/Bajo la arena). 2. A guitarra nasceu em Andaluzia. Não sabia mesmo. Isso indica que desde muito jovem Federico, além da poesia e do teatro, era apaixonado pela música e pela guitarra.

Para quem não conhecia esse artista e nem, é óbvio, o seu “sentimento trágico da vida”, saiba agora que “o sucesso de Lorca junto a todas as categorias de leitores não tem outras razões, não mais que o sentimento de autenticidade que ele procura, permanecendo sem cessar na vanguarda e atento às correntes mais avançadas da criação artística” (2).

Sabemos que antes da morte de Lorca numerosos de seus poemas haviam tornado, por assim dizer, à sua origem, propagados pelas ruas anonimamente, ou eram ditos, espontaneamente, como expressão nova do mundo do qual haviam fixado a quintessência” (2).

Isso fê-lo ainda mais ser odiado pelo regime fascista instalado em seu país que resultou numa Guerra Civil sangrenta. Apesar de sempre revelar-se espírito apolítico viu-se envolvido nesse conflito e por ele teve sua vida ceifada. São do poeta estas palavras: “UM MORTO NA ESPANHA ESTÁ MAIS VIVO QUE UM MORTO EM OUTRO LUGAR…” Por que essa observação? Porque o governo usava o poder para ser implacável e praticar todo tipo de perversidade contra os seus opositores.

O perfil público de Lorca na qualidade de produtor de teatro popular, poeta popular, palestrante, promotor de recital, bem como sua sexualidade, transformaram-no em um alvo. Em presa fácil. O resultado trágico: O poeta foi fuzilado à queima-roupa por partidários do fascismo nos primeiros dias da Guerra Civil espanhola liderada pelo general Francisco Franco (40 dias após ter completado 38 anos de vida, no dia 19 de agosto de 1936, há exatos 84 anos). “Seu corpo foi enterrado em uma cova desconhecida e nunca foi encontrado” (3).

Perseguido, preso e, por fim morto, Federico García Lorca foi duramente incompreendido por seus algozes. Todos os filmes feitos com enredo sobre em ser de luz, demonstram essa triste realidade. O LP aqui citado é uma uma obra-prima e pode servir de consolo para o coração de toda aquela que relembra o poeta, que recita o poeta, que canta o poeta, ou seja, que defende a liberdade religiosa, política, sexual, racial; liberdade de manifestação de pensamento, e, acima de tudo, liberdade dos direitos basilares de cada cidadão em qualquer que seja o lugar do mundo.

Finalizo com esse pequeno grande poema, indiscutivelmente belo: CANÇÃO TONTA:

Mamãe, eu quero ser de prata. Filho, sentiras muito frio! Mamãe, eu quero ser de água. Filho, sentiras muito frio! Mamãe, borda-me em tua almofada. Isso sim, agora mesmo! (4)

Pesquisa e texto por Francisco Gomes Arte fotográfica por Angeline Gomes

Fontes 1. Nova Barsa, vol. 7. SP/RJ, Britannica, 1999, pp. 11/12. 2. LP Federico García Lorca, Gravadora Philips, 1973. 3. 501 Grandes Artistas, RJ, Sextante, 2009, p. 343. 4. http://www.poesiaavulsa.com 5. www. poesia.comunidades.net