Nos últimos 20 anos reuni excelente material sobre a cantora Maysa: livros, artigos, CDs, LPs, DVDs, etc. por se tratar de de uma artista inesquecível. Uma das maiores cantoras brasileiras. Apesar de não está mais entre nós, fisicamente falando, a sua voz continua vivíssima, principalmente entre os seus fãs, Brasil afora e no exterior. Nascida na cidade do Rio de Janeiro em 6 de junho de 1936 e falecida no dia 22 de janeiro de 1977, aos 40 anos, vítima de um acidente automobilístico na ponte Rio-Niterói.

Naquele mesmo ano a gravadora RGE DISCOS lançou um álbum duplo (2 LPs): PARA SEMPRE MAYSA, o qual traz informações sobre a cantora desde o inicio de sua carreira, cujos relatos são ditos por conhecidos nomes do mundo da música, assim:

A MULHER: “A primeira vez que vi Maysa fiquei deslumbrado: ela devia ter 19 anos e era linda. Aqueles enormes e inquietos olhos, os cabelos aloirados e cheios causaram uma impressão quase que agressiva de sua beleza. Notava-se uma timidez envolvendo seu jeito manso de menina-moça, um perfume doce que ficava no ar. Desde a primeira entrevista obra de Roberto Côrte-Real, a assinatura do contrato, a escolha das suas oito músicas iniciais, os arranjos, os ensaios, as gravações, Maysa era um oásis de beleza, de encontro, de inteligência, de sensibilidade e acima de tudo, de uma presença feminina marcante e charmosa.                                                     Depois tudo foi mudando, as consequências do sucesso, as crises, a conscientização da solidão, Maysa não mais se encontrava. E foi tão rápido e repentino, que às vezes nos perguntamos se poderíamos ter impedido que tudo acontecesse”. Este relato é de José Scatena (1918-2011), advogado, empresário, ator e radioator brasileiro, o qual conhecera bem os bastidores dos artistas, das gravadoras . Inclusive são dele, também, as considerações sobre a mesma Maysa, desta vez como compositora e intérprete.

A COMPOSITORA: “Se disséssemos  que acreditávamos no sucesso de suas composições estaríamos mentindo. Entretanto, como empresários, sentimos o ineditismo do lançamento e nos arriscamos. Foi o início.                              As outras composições vieram provar que Maysa era uma segura e responsável compositora, que sabia manejar muito bem os versos, mas nem sempre alcançava a perfeição da melodia, como em Meu mundo caiu“.

A INTÉRPRETE:   “Maysa tinha uma extensão de voz pequena: os agudos não lhe caiam bem. Sua voz rouca e personalíssima era resultado de um timbre inconfundível, que lhe deu o lugar de destaque em nossa discografia. Indiscutivelmente, ela foi muito mais cantora do que compositora, isso talvez, em resultado da vida agitada que passou a levar depois de se tornar “estrela”.                                                                                 Muitos afirmam que a música popular está marcada pelo “antes” e pelo “depois” de Maysa até o momento em que escrevemos estas linhas, endossamos e subscrevemos a afirmativa.                                                       Estou certo de que a trajetória de Maysa poderia ter deixado marcas muito mais profundas se o explosivo sucesso de sua carreira pudesse ter sido controlado.                                                                                                            Maysa era terrivelmente temperamental e tornava-se quase impossível selecionar as músicas que deveria gravar. Ela impunha sua vontade.   Muitas músicas de amigos foram gravadas e nada aconteceu. Mas será que se tentássemos mudar, teríamos tido a Maysa que o Brasil inteiro admirou?”   

O COMEÇO:  O primeiro disco de Maysa para a RGE foi lançado no dia 20.11. 56, e tinha oito músicas, todas de sua autoria. Arranjos impecáveis do maestro Raphael Puglielli, sob técnica de gravação do engenheiro de som Sérgio Lara Campos e direção artística de Roberto Côrte-Real. Entre as 8 estão: Marcada, Resposta, Rindo de mim e Adeus.  

OS AMIGOS: Segundo Côrte-Real, “o primeiro reflexo na vida de um artista que faz sucesso é a imediata reação dos que já estavam no mercado artístico, por terem de engolir um concorrente a mais na divisão do bolo da publicidade.                                                                                                             Com Maysa, aconteceu o inverso: seus maiores admiradores (por que não, acolhedores?), eram cantores, compositores, músicos, etc, que falava e divulgavam o nome da cantora. Entre eles estavam: Sílvio Caldas, pela interpretação dela em Chão de estrelas. Dele com Orestes Barbosa, até então somente gravada pelo próprio Sílvio; Ricardo Galeno escrevia para os jornais falando bem sobre Maysa; o mesmo ocorria com Antônio Maria; com Vinicius, Jobim, Bôscoli, Menescal, Fernando César, que tinham orgulho em exibir um disco de Maysa com composições suas, como: Eu não existo sem você; Suas mãos; Ah! se eu pudesse; Segredo, etc.

OS SUCESSOS: “Ressoam até hoje em nossos ouvidos marcando uma das fases mais bonitas da nossa música, como os de sua autoria: Ouça e Meu mundo caiu. Assim como outros, não apenas pela popularidade, mas pela vendagem, aqui citados: Bronzes e cristais; Se todos fossem iguais a você; Bom dia tristeza, etc.

MAYSA INTERNACIONAL: Ainda de acordo com Côrte-Real, no exterior, Maysa era chamada “A Condessa Descalça”, pelo fato de tirar os sapatos quando se apresentava. Época em que seu nome tornou-se imprescindível nos maiores centros artísticos do mundo. Foi assim onde esteve: na França, Itália, Inglaterra, Portugal, Espanha, EUA, México, Japão e toda a América Latina. Sempre aplaudida. Fruto dessa campanha, eis aqui: as canções que ela deixou gravadas em idiomas estrangeiros: Un jour tu verrás (Von Pary-Mouloudji), Besame mucho (consuelo Velasquez), I love Paris (Cole Porter), Malatia (Armando Romeo), Chanson D’amour (Heinz-Kurt Feliz), Uska dara (Folklore Turco), Quizas, quizas, quizas (Oswaldo Ferras) e Ne me quitte pas, numa interpretação francesa de arrepiar.

A própria gravadora RGE DISCOS, que surgiu no mercado em 1957, admite  o seguinte: “Se Maysa não houvesse existido, você não teria hoje (1977) este álbum em suas mãos, simplesmente porque a RGE não teria também existido e não estaria comemorando seus 20 anos – de sucessos SÉRIE aniversário“.

LP Maysa de 1977. Fonte: Acervo pessoal

Ainda na contracapa dos discos em questão, Eduardo Moreira dedica as palavras abaixo, à Maysa:

“A gente leva da vida a vida que a gente leva. Você, Maysa, talvez tenha sido – dentre todos nós – quem mais perto chegou lá.                                            Maysa chegando-já partindo-dizendo adeus-quando tudo apenas começava. Você sempre foi assim.                                                                                                Se as coisas estão no mundo, Maysa, você nunca precisou aprender nada. Sempre soube de tudo. Por isso aquela ternura imensa, aquela doçura-triste-tristeza-doce dos seus olhos azuis-nas suas canções.                                          Por isso você é tão importante.                                                                        Maysa-nova. Maysa.                                                                                                  Um sonho a menos, um desabafo a mais. Mas, enfrentando. A tudo e a todos.                                                                                                                               E dizendo a que vinha. Se di-la-ce-ran-do in-tei-ra.                                            Num fiapo de voz. Às vezes. Num grito lancinante, em outras. Es-gar-çan-do os versos. Mas enfrentando. Sempre tão perto da gente.                            Mesmo longe, tão ligada.                                                                                Ninguém vai esquecer você.                                                                                        É claro que deve existir por aí um mundo melhor do que este.                           Só que a gente não sabe a que distância fica a cidade e nem a que horas fecha.                                                                                                                          Você sempre soube disso tudo.                                                                          Maysa de todos nós.

Por sua vez, Fausto Canova nos revela que Maysa defendia “que sendo som, a música era uma coisa abstrata”, quer dizer, qualquer pessoa muito sensível à música, sempre fica atrapalhada ao tentar dizer se tal música é boa, ruim ou viúva. Falta-lhe pontos onde se apoiar. Por exemplo, se o timbre da cantora é agradável para você, pode ser algo sufocante para mim. Se tal verso de uma composição qualquer pode levar você para o melhor clímax do lirismo, para mim, pode ser monótono como o maestro afinando um piano. Assim era Maysa. “Contudo, como poucas cantoras de seu tempo e de outros tempos, conseguiu sempre superar o abstracionismo congênito da música com aquele algo mais. Aquele algo mais que está muito além da explicação óbvia. O toque mágico que não pode ser medido em função da voz boa, da afinação, da técnica perfeita (coisas que ela teve desde o início da carreira)”.

O elemento surpresa foi uma constante nas canções de Maysa,  “onde o ouvinte ficava sem poder antecipar isso ou aquilo. E isso, em arte é muito importante. Em música, muito mais. A surpresa é sempre uma base importante na criação. E poucas cantoras foram tão imprevisíveis como Maysa. E tão femininas. E tão originais”.

“A Maysa cantora sempre esteve muito identificada com a Maysa mulher. Eu – declara Fausto -, pelo menos, sempre pensei assim desde que ouvi Maysa cantar pela primeira vez, sem ter a menor noção de sua figura de mulher”.

São palavras iguais a estas sobre Maysa, sobre Maysa Figueira Monjardim, sobre Maysa Matarazzo, sobre a pessoa, sobre a mulher, sobre a cantora, que nos enchem de orgulho. Apesar de uma vida curta – apenas 40 anos e, duas décadas de atividade artística, mas que nos legou belas canções, ótimas interpretações. Da solidão de Maysa, da tristeza de Maysa, nós, seus admiradores podemos extrair o que há de melhor da sua arte.   

“Meu verso sempre tão triste

volta pedindo desculpas

pelo triste que causo”.

(Maysa, gravação de 1960)                                                                

Livro sobre a vida de Maysa.
Fonte: Acervo pessoal

Pesquisa e texto por Francisco Gomes                                                                Fotos por Winnie Barros

Fontes

  1. Do disco duplo “Para sempre Maysa“, gravadora RGE, 1977.
  2. Lira Neto. “Maysa: Só numa multidão de amores“, SP, Globo, 2007.