Amazonas: “Cultura, história e memória” – 1ª parte

A leitura proporciona ao leitor a descoberta de um mundo verdejante e cheio de ideias fascinantes, em todos os aspectos do conhecimento. Sempre alimentei o hábito da leitura de livros, revistas, jornais, etc. Faço isso há 45 anos quando passei a ter contato direto com essas obras, na adolescência. Ao longo desses anos, em cada escritor, poeta, ensaísta, compositor, descobri e aprendi muito. Uns são surpreendentes, outros intrigantes; uns excêntricos, outros geniais, e por aí vai.

Li Cultura, história e memória, de José Alcimar de Oliveira e fiquei fascinado. Considero um dos livros mais importantes que tive acesso nos últimos anos, pelas reflexões “sobre os processos da cultura, da história e da memória no Amazonas na forma de uma contribuição filosófica […], tomando como paradigmas temáticos os conceitos de heteronomia, barbárie, tempo, consciência, reificação, etc.” (1).

A Apresentação é da filósofa e escritora Neiza Teixeira, a qual faz um ótimo resumo do ensaio em questão. Ela diz: “Ainda que muitos estudos, chegados a público nos últimos anos, tenham como ambição desvendar o cenário da cultura amazonense, é sabido que a realidade amazônica, em todas as suas manifestações e nos seus mais variados devires, ainda se oferece como terreno por desbravar. Infelizmente, ainda subsistem como áreas inóspitas; assim sendo, com muito por fazer. A reflexão rigorosa, embasada nos estudos que compreenderam que a cultura é o processo de humanização do homem, faz-nos o seu convite. […] Hoje, em tempos de barbárie, muitos conceitos precisam ser iluminados para serem compreendidos. E, naturalmente, a Amazônia, com a sua constituição e processo de humanização, é um terreno auspicioso para os que queiram compreender o que é, afinal, o ser que nominamos Homem” (1).

Aí reside o conceito de cultura, conforme esse escritor, ou seja, o amazonense, o amazônida. De acordo com as lições de Santo Agostinho, “a vida da cultura converte-se num modo de existir heterônomo e opressivo, caracterizado pelo domínio da cultura, os homens tomam por natural o que, é, por natureza cultural […]; a vida da cultura se degrada quando nega ao homem a afirmação da sua vida genérica; quando converte o trabalho humano ao regime reificado e único da satisfação das suas necessidades imediatas” (1).

E para melhor consubstanciar sua Apresentação, Neiza traz à, dois exemplos clássicos da literatura brasileira (“sustentada pela expropriação cognitiva das mediações reflexivas da cultura”): As personagens Alberto em “A Selva“, de Ferreira de Castro e Fabiano em “Vidas Secas“, de Graciliano Ramos, cuja indignação de ambos, assim como a “do povo amazonense tem a mesma origem: a carência de verbalização” (1).

Na Introdução da obra, o autor justifica os objetivos de sua pesquisa assim: “As razões que devem explicitar estas entrelaçadas reflexões” foi a de “elaborar uma teoria ou um método de compreensão da história da cultura amazonense”, por um lado. Por outro, no entanto, não pôde deixar de manifestar suas “apreensões e inquietações diante do que (percebe) ocorrer no mundo cultural amazonense”.

“O mundo cultura amazonense”, além de complexo é pouco conhecido, revela a pesquisa. Mas, é aí que deve entrar em ação a ciência. Haja vista que sua atividade “começa quando admitimos a precariedade do nosso saber. Quando mais avançamos no conhecimento, mais nos tornamos conscientes de nossa ignorância. As realidades do conhecimento e tanto mais a compreensão dos processos históricos e culturais nunca se nos apresenta em sua transparência. Nada se dá gratuitamente no processo do conhecimento” (1).

E, continuando com as suas reflexões teórica, narra em tom bem modesto que pretende apenas “apresentar uma leitura sobre os processos da cultura, da história e da memória no Amazonas na forma de uma contribuição filosófica”, por meio da interpretação de elementos como tempo, consciência, barbárie, etc. Mas, para tal, se faz necessário do uso de ferramentas como: “Apreensão epistemológica, crítica e histórica do devir cultural amazonense” (1).

Aqui, a palavra leitura, assume a dimensão do “campo de investigação” sobre as três palavras principais: cultura, história e memória. No entanto, pois, “o fato de algo não existir para o pensamento, não implica inexistir na realidade. O pensamento não cria a realidade. […] O complexo mundo (natural e cultural) amazonense comporta muitas leituras e, mais ainda, as exige, sob de permanecer ideologicamente enredado e refém das leituras, e pior, das ações ( e não são poucas) que só tomam como objeto mercadologicamente construído, sempre em detrimento dos homens e da terra. Desse modo, no Amazonas, a única possibilidade de superar a heteronomia cultural e a barbárie em processo reside na decisão fundada na práxis, a tarefa de repensar e de reorientar os destinos de sua cultura, de sua história e de sua memória, em direção a uma ecologia humana, ética e civilizada” (1).

Quando trata de “cultura e consciência”, assegura: “O mundo da cultura se consubstancia como tessitura de múltiplas determinações. É na espera da síntese permanente dos instrumentais de ordem material e espiritual que opera a vida da cultura, o que possibilita ao homem a transformação do mundo e de si mesmo. É a cultura que codifica e media a relação dos homens com o mundo e deles entre si. A cultura expressa e sintetiza e os constitutivos básicos da existência humana em seus níveis econômico, político e social. As civilizações, qualquer que seja o nível de sua evolução, estão fundadas no homem como produtor e produto da vida cultural. É a cultura que informa os olhos com os quais o homem vê e compreende o mundo” (1).

Espetacular esse ponto de vista, mesmo que o autor o classifique de “reflexões teóricas”. Eu tive um experiente professor que dizia sempre: “Depois que alguém estuda esse ou aquele tema, torna-se fácil para outra pessoa aceitar ou negar essa ideia. Difícil é pesquisar e provar cientificamente”. Assim fez Alcimar Oliveira, investigar e demonstrar os níveis dos três elementos regionais de sua pesquisa. Quem ousa discordar dele? Aquele que apresentar uma teoria mais apropriada aos fatos evidenciados. O tema é tão instigante que requer uma 2ª Parte a ser publicada em breve, quando então será feita conclusão pelo Facetas.

Fonte. 1. Oliveira, José Alcimar de. Cultura, história e memória . 2ª ed. – Manaus: Editora Valer, 2014.

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