“Retratos e Canções”

Capa do CD/2019

Há algum tempo, o Facetas já vinha selecionando versos e/ou estrofes de canções para um artigo. Bem do nosso estilo: música e literatura, principalmente. A pesquisa foi concluída no mês passado quando ouvimos o CD “Mangueira: A Menina dos Meus Olhos”. De início, foram selecionadas 100 composições; depois 50; agora, 10. A ideia é sobre aquela cantiga (era assim que se falava lá pelos idos dos anos 50, 60) que a gente fica cantarolando, às vezes. Mesmo que a letra não esteja completa. Mas, sempre vem à nossa mente, nos trazendo a lembrança de alguém, ou não. Os jovens de hoje chamam de “música-chiclete”, segundo a Angel.

Em 1986, por exemplo, a cantora Sandra Sá (hoje Sandra de Sá), lançou Retratos e Canções (Michael Sullivan-Paulo Massadas), cujos versos dizem: “Hoje eu me peguei pensando em você/Te amo e nem sei como eu amo/(Coisas do amor)”. Coisas do amore (do latim) mesmo. “Amor é um fogo que arde sem se ver”, sentenciou o velho poeta português – mas sempre atual -, Camões. Ou como versou Bilac: “Tenho frio e ardo em febre!/O amor me acalma e endouda,/O amor me eleva e abate!”

Vamos então às composições selecionadas (o nosso leitor pode fazer o mesmo com as suas canções preferidas). Não estamos aqui ditando “as mais belas músicas”, nem sendo piegas. Mas sim estimulando a cada um fazer o mesmo, seja no cancioneiro nacional ou internacional.

SAMBA QUADRADO (Isolda-Milton Carlos): “Eu fiz um samba quadrado/Pra você sentir/Que quanto maior a distância/Maior é o fim […]/Eu fiz do ontem o hoje/E do hoje o amanhã pra te ver aqui”.

OUTRA VEZ (Isolda): “Das lembranças que eu trago na vida,/Você é a saudade que eu gosto de ter/ – Só assim sinto você bem perto de mim outra vez”.

Lembrete: Isolda e Milton Carlos eram irmãos. Dois artistas natos. Ele (1954-1976) morreu ainda muito jovem, tinha apenas 21 anos, vítima de acidente de carro; ela, Isolda Bourdot Fantucci (1957-2016), foi uma grande compositora. Consta na sua biografia que a mesma ara uma menina de apenas 17 anos, quando entregou Outra Vez ao Cantor Roberto Carlos, tornando-se um grande sucesso. E, até hoje é uma das musicas mais executadas no Brasil, em diferentes releituras.

CHÃO DE ESTRELAS (Sílvio Caldas-Orestes Barbosa): “A porta do barraco era sem trinco/Mas a lua furando o nosso zinco/Salpicava de estrelas nosso chão”.

ROSA (Pixinguinha): “Tu és divina e graciosa/Estátua majestosa/Do amor!/Por Deus esculturada/E formada com ardor”.

ÂNGELA (Serginho do Meriti): “Eu prefiro acreditar que é mentira/É brilho demais para um só olhar/É inspiração demais é muita lira/Mas meus velhos olhos não queriam me enganar/Ela é negra negritude que fascina/Senhora menina menina senhora […]/Hoje eu vi um lindo negro anjo/Anjo negro lindo negro/Negra Ângela”.

ALGUÉM ME DISSE (Jair Amorim-Evaldo Gouveia): “Alguém me disse/Que tu andas novamente/De novo amor, nova paixão/Toda contente”.

ESPELHOS D’AGUA (Dalto): “Os seus olhos são espelhos d’agua/Brilhando você pra qualquer um/E por onde esse amor andava/Que não quis você de jeito algum”.

COMO VAI VOCÊ (Antônio Marcos-Mário Marcos): “Vem que o tempo pode afastar nós dois/Não deixa tanta vida pra depois./Eu só preciso saber como vai você?”

A FLOR E O ESPINHO (Nelson Cavaquinho-Guilherme de Brito-Alcides Caminha): “Tire seu sorriso do caminho/Que eu quero passar com a minha dor/Hoje pra você eu sou espinho/Espinho não machuca a flor“.

CANTEIROS (Cecília Meireles-Fagner): “Quando penso em você/Fecho os olhos de saudade/Tenho tido muita coisa/Menos a felicidade…” […]/Pode ser até manhã/Cedo, claro, feito o dia/Mas nada do que me dizem/Me faz sentir alegria”.

Em dezembro último (2020), fui presenteado por Angeline, com o mais recente CD da cantora Maria Bethânia, no qual ela canta A Flor e o Espinho. Na sequência, cita texto homônimo do livro “Sombras da Água”, do escritor moçambicano Mia Couto (1955). Essa união de canto e recital fê-la juntar o útil ao agradável. Ouça-a. Ficou lindo demais. Sua voz enche a alma da gente de contentamento.

A Flor e o Espinho foi a primeira das 100 canções catalogadas por nós – há pelo menos um ano -, para este texto. Bela em tudo. Uma obra-prima do nosso samba nacional. Letra e melodia se completam. As palavras fluem levemente; as notas soam suavemente, independente de quem seja o intérprete. Se Beth Carvalho, Roberta Sá, Guilherme de Brito, Maria Bethânia ou Elizeth Cardoso.

A seguir a letra da música e o texto contidos no CD ora em questão:

A FLOR E O ESPINHO

“Tira seu sorriso do caminho/Que eu quero passar com a minha dor/Hoje pra você eu sou espinho/Espinho não machuca a flor/Eu só errei quando juntei minh’alma à sua/O sol não pode viver perto da lua./É no espelho que eu vejo a minha mágoa/A minha dor e os meus olhos rasos d’agua/Eu na sua vida/Já fui uma flor/Hoje sou espelho em seu amor”.

SOMBRAS DA ÁGUA

“A música é a língua materna de Deus/Foi isso que nem católicos nem protestantes entenderam/Que em África os deuses dançam e todos cometeram o mesmo erro/Proibiram os tambores/ Na verdade se não nos deixassem tocar os batuques, nós, os pretos, faríamos do corpo um tambor ou mais grave ainda percutiríamos com os pés sobre a superfície da terra e assim abrir-se-iam brechas no mundo inteiro”.

É isso aí. Da nossa parte, esperamos que quem acessar o nosso blog, aprove essa iniciativa; essa ideia. Cada um ado seu modo, é claro.

Notinha útil – A jovem Joana Araujo da Silva (18), futura Arquiteta, lá de Vilhena (RO), que é leitora incondicional deste Facetas, nos comunicou ter sido “uma experiência incrível!”, ou seja, ao mesmo tempo,

ela lê e ouve a música que geralmente reproduzimos no final de cada artigo. Foi assim com Raça, na semana passada. À mesma, os nossos parabéns por apreciar tanto a música quanto a literatura. Se outros leitores fazem o mesmo, nos comuniquem para que possamos citá-los (e agradecê-los) aqui.

Por Angeline e Francisco Gomes.

Fontes: 1. CD “Mangueira: A Menina dos Meus Olhos”, Quitanda, RJ, outubro de 2019; 2. CD “Nelson Cavaquinho”, coleção MPB Compositores, volume 26, Globo/RGE, 1997.

2 comentários em ““Retratos e Canções”

  1. Hoje o Facetas nos brinda com “Retratos e Canções”, uma coletânea de versos e/ou estrofes cantando e decantando o amor, nas vozes ou composições de diversos autores, de Michael Sullivam (Retratos e Cancões) na voz da impecável Sandra de Sá ou sentenciada por Luiz Vaz de Camões.
    Aqui relembro o nostálgico Vando em “Você é Fogo, eu sou Paixão”.
    O grande Djavan em “Faltando um Pedaço” define muito bem a ausencia desse sentimento ” e coração de quem ama, fica faltando um pedaço, que nem a lua minguante, que nem o meu nos seus braços”.
    Obrigado Facetas!

    Curtir

  2. Hoje novamente o Facetas nos presenteou com outro incrível texto, como leitora assídua do blog afirmo com total certeza que os artigos nos surpreendem a cada publicação.
    Estava escutando “A Flor e o Espinho” enquanto lia os textos finais e tomei um pequeno “susto” kkkkk. Agradeço imensamente a minha menção no final da publicação de hoje.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s