Gullar: um poeta singular

Foto extraída da revista Veja, de 28.12.2005

Não há como negar: a escola é realmente o palco número um da formação educacional do aluno – não confundir com a educação básica familiar. A gente chega lá ainda criança e quanto põe os pés na universidade , já é um adulto. Mas é de lá que cada um de nós traz as nítidas e inesquecíveis memórias, seja de colegas, professores, datas festivas, esportes (gincanas culturais, recreios cantantes), seja de nomes de poetas, escritores, livros lidos, etc, etc, etc.

Falo por mim e cito aqui um exemplo: quando cursava a 5ª série do antigo 1º grau, a nossa bela professora de língua portuguesa, dona Lucimar Polaro – uma morena de cabelos negros, olhos expressivos e voz mansa -, esposa do médico Humberto Polaro, diretor da Fundação SESP, da Unidade de Lábrea (AM), numa de suas aulas trouxe um quilo de açúcar quase refinado – não era tão branco como o que é vendido hoje -, e pôs o pacote sobre a mesa dizendo: “Este alimento aqui será o tema da nossa aula. “O AÇÚCAR” é um dos mais belos poemas do nosso idioma. Farei a leitura pausadamente para que todos ouçam e possam compreender bem”. Leu então, os seguintes versos:

O branco açúcar que adoçará meu café/nesta manhã de Ipanema/não foi produzido por mim/nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.

Veio puro/e afável ao paladar/como beijo de moça, água/na pele, flor/que se dissolve na boca. Mas este açúcar/não foi feito por mim.

Este açúcar veio/da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira,/dono da mercearia./Este açúcar veio/de uma usina de açúcar em Pernambuco/ou no Estado do Rio/e tampouco o fez o dono da usina.

Este açúcar era cana/e veio dos canaviais extensos/ que não nascem por acaso/no regaço do vale.

Em lugares distantes, onde não há hospital/nem escola,/homens que não sabem ler e morrem/aos vinte e sente anos/plantaram e colheram a cana/que viraria açúcar.

Em usinas escuras,/homens de vida amarga/e dura/produziram este açúcar/branco e puro/com que adoço meu café esta manhã em Ipanema” (1).

Terminada a leitura, a professora nada falou. Acho que foi proposital. Ela estava à espera de perguntas dos trinta e poucos alunos presentes. Elas vieram sim. Logo logo.

– Professora, quem escreveu esse poema ?

– Ferreira Gullar.

– Quem foi ele/?

– Não foi, é. É um poeta maranhense. Esta vivo e tem apenas 40 e poucos anos.

– Professor, agora entendi porque a senhora trouxe esse pacote de açúcar. por ser o mesmo importante na nossa alimentação.

– Isso mesmo, confirmou a mestra.

Seguiu sua aula explicando verso a verso sobre isso ou aquilo que o autor nos transmitia com seu majestoso poema, Dali, oportunamente, ela nos ensinava as classes gramaticais. As suas explicações eram um show, simplesmente show. Confesso. Aos poucos, íamos assimilando a língua mater e suas regras, a partir de demonstrações aparentemente simples, como a aqui bem lembrada. Tem mais: no meio do caminho do aprendizado, a turma ai sabendo lidar com a música, com a literatura, com romance; seus autores; as composições de canções, os poemas, entre tantas outras temáticas.

No meu caso, especificamente falando, foi a partir daquela aula que passei a ler tudo o que encontrava de autoria de Gullar. E assim tenho feito nestes últimos 45 anos. Entre tantas obras dele por mim analisadas, destaco: Cultura Posta em Questão (ensaio) e A Luta Corporal e Poema Sujo (poesia). São realmente imperdíveis. Contudo, a sua bibliografia é extensão. O que não falta ao leitor são opções de escolha, e consequentemente, deslumbramento.

José Ribamar Ferreira, cujo pseudônimo é Ferreira Gullar, nasceu a 10 de setembro de 1930, em São Luís (MA) e morreu a 4 de dezembro de 2016, aos 86 anos. Foi escritor, poeta, crítico de arte, biógrafo, tradutor e ensaísta, e um dos fundadores do neoconcretismo. Em 2014, foi eleito para ocupar a cadeira 37 da Academia Brasileira de Letras (ABL). “A partir da década de 1960 a obra de Gullar passou a refletir seu engajamento político. Com o AI-5, foi preso e passou a viver no exílio a partir de 1971. É dessa época seu livro mais conhecido “Poema Sujo” (1976)” (2).

Se os poemas de Gullar encantaram-me, as suas canções deslumbraram-me pela sonoridade melódica de suas palavras. A partir do final dos anos 70 (e ocorre até hoje), teve composições suas interpretadas por grandes nomes da nossa música nacional, a começar por Edu Lobo, com O Trenzinho do Caipira,. Depois fizeram o mesmo, Ney Matogrosso, Maria Bethânia, Milton Nascimento, Paulinho da Viola, Caetano |veloso, Marisa Monte, entre tantos outros. Porém, Fagner foi o seu maior parceiro musical. Por exemplo, Borbulhas de Amor (uma versão de Gullar sobre Borbujas de Amor, do cantor e compositor dominicano Juan Luís Guerra), foi um sucesso nacional na voz do cearense, em 1993. No entanto, o que realmente é de arrepiar é ouvir Traduzir-se. Poema de Gullar e melodia de Fagner com o próprio, de 1981. Vamos à íntegra da letra:

TRADUZIR-SE

“Uma parte de mim é todo mundo/Uma parte de mim é multidão/Uma parte de mim pesa, pondera/Uma parte de mim almoça e janta/Uma parte de mim é permanente/Uma parte de mim é só vertigem.

Outra parte é ninguém, fundo sem fundo/Outra parte estranheza e solidão/Outra parte delira/Outra parte se espanta/Outra parte se sabe de repente/Outra parte linguagem.

Traduzir uma parte na outra parte/Que é uma questão de vida e morte/Será arte?” (3).

Notinha: Esse vinil RAIMUNDO (Fagner) TRADUZIR-SE, de 1981 é um disco fascinante. Tem a participação especial de grandes nomes da música latino-americana como: Camaron de La Isla, Manzanita, Joan Manuel Serrat, e principalmente Mercedes Sosa, daí a palavra TRADUCIR SE, do espanhol,na capa do LP. Língua falada por muitos países latinos.

Será arte? Será vida? Será os dois (ou mais) lados de uma mesma pessoa? As artes, no presente caso, a poesia e a musica, nos ensinam a refletir sobre essas e outras questões, sejam objetivas ou subjetivas..

Consta no início de “Toda Poesia” estas palavras manuscritas pelo próprio Gullar: “Pretendo que a poesia tenha a virtude de, em meio ao sofrimento e o desamparo, acender uma luz qualquer, uma luz que não nos é dada, que não desce dos céus, mas que nasce das mãos e do espírito dos homens” (3).

Em 28 de dezembro de 2005, Lucila Soares, da revista Veja, publicou “Um Escritor Singular” (perfil, páginas 186/187), ao referir-se a Ferreira Gullar. Dela, o Facetas empresta esse tema fazendo a mudança para “Gullar: um poeta singular”.

Somos gratos aos nossos leitores e esperamos que os mesmos gostem de mais um artigo, este.

Por Angeline e Francisco Gomes

Fontes: 1. Ferreira Gullar. Toda poesia. – 12ª ed. – RJ; José Olympio, 2004; 2. “Gullar é eleito imortal”, Manaus; AM em Tempo, 10.10.2014; e 3. LP “Traduzir-se”, de Fagner, Gravadora CBS, 1981.

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