“Adoniran Barbosa: documento inédito”

Até meados dos anos 90 era comum instituições públicas ou privadas, patrocinarem o lançamento de livros, discos, pinacotecas, etc. O interesse era cultural, não comercial. Por exemplo, as Fundações dos bancos Nacional, do Brasil, do Itaú, da Caixa Econômica, Correios, Funarte, entre outras.

Em 1984, para comemorar os seus 30 anos atuando no Brasil, a Olivetti – gigante fabricante italiana do ramo de equipamentos de computadores, impressoras empresariais -, financiou o LP “Adoniran Barbosa: Documento Inédito”. Pense num trabalho espetacular. Acima de tudo, uma verdadeira e histórica discografia.

Os 33 minutos de duração do disco, podem ser divididos em três momentos: – Ocorre em 1965, no programa Fino da Bossa, da Record, apresentado por Elis Regina. Os dois fazem o show! Cantam e falam sobre diferentes assuntos. São vários pot pourri (hoje, medley); – Em entrevista à TV Cultura de SP, Adoniran canta e conta como surgiram algumas de suas músicas; e – Com músicas cedidas do arquivo particular da viúva Mathilde Barbosa e José Nogueira Neto, inclusive, ela conta o porquê da canção Prova de Carinho, e ainda faz um dueto com o marido.

Para um colecionador, independente do objeto colecionado, ele se enche de contentamento quando encontra o que procura. Assim, foi comigo quando encontrei (e comprei) o disco ora em análise. Saber um pouco mias sobre João Rubinato, ou melhor, Adoniran Barbosa (1910-1982), é algo gratificante. O cantor e compositor paulistano – o cronista de sua cidade -, foi único no estilo escolhido, e, ao ouvi-lo explicar sobre esse ou aquele fato, ou sobre essa ou aquela composição, é um aprendizado para o ouvinte.

Nesse trabalho, Mathilde diz que conviveu com Adoniran por 40 anos e faz este brilhante relato:

“Este é mais um LP do meu marido. Pena que ele não possa viver comigo a emoção de escutar um trabalho tão bonito. Lembro-me de sua grande alegria quando viu prontos, em 1974 e 1975, os seus dois primeiros LPs gravados graças aos esforços de Pelão e, em 1980, quando Fernando Faro produziu o terceiro, com participação dele e vários artistas convidados.

Acabo de ouvir a fita deste comovente documento, produzido por Nogueira (José Nogueira Neto) e Aluízio (Aluízio Falcão), lá mesmo na Rádio Eldorado, que era uma segunda casa do Adoniran. Ali ele fazia diariamente sua sesta, depois do almoço na cidade. Era o ponto onde marcava encontros, telefonava, resolvia shows.

Depois de ouvir a fita, não posso deixar de escrever aqui: foi a coisa mais emocionante que escutei em minha vida. Mais do que um disco, vai ser um retrato do meu companheiro. Um retrato falado e cantado. Adoniran está inteiro nele, como esteve durante quarenta anos, da intimidade da nossa casa. Sua inteligência, suas piadas, alegrias e queixas, aquele jeito unicamente seu de comentar as coisas. Meu Deus, que trabalho bonito e verdadeiro!

Este disco foi feito sem artifícios de estúdio, arranjos, essas coisas que eu não entendo direito. Mas eu entendo muito de Adoniran Barbosa. E acho que o LP do Estúdio Eldorado é inteiramente fiel à sua memória. Impossível ouvi-lo sem chorar de saudade, de emoção, de amor. São Paulo, abril de 1984″ (1).

Se para a gente, ouvinte comum; fá, mas distante dos lugares onde esteve, onde costumava frequentar o artista, o disco é, realmente emocionante, imagina-se para Mathilde, que segundo consta na biografia do marido, os dois formava um casal invejável, sem perder a originalidade e a cordialidade com todos, é óbvio.

Na contracapa do disco consta a seguinte nota, assinada, possivelmente, por um representante do grupo Olivetti, assim:

“Prova de Carinho,

Lá vem ele, andar gingado, costurando a Benjamin Constant, a Quintino Bocaiuva – sede da Record: São Paulo importante era ali. O chapéu maroto a gravata borboleta irreverente, esparramando sorrisos e boas-tardes – São Paulo era sua. A São Paulo do Bixiga, da Consolação, do Viaduto Santa Efigênia. A São Paulo inteira que virou samba, que virou nosso jeito de falar “meio alici – meio nozzarella”; a aqui, coração lá na Itália.

Por tudo isto, fica difícil não escolher Adoniran para marcar esses nossos 30 anos de produção Olivetti, nesta São Paulo ítalo-brasileira. Ela habita nossa memória, nesta cidade de hoje tão diferente na mesmice de ontem. As mesmas ruas estão aí, luzes evanescentes da nossa cidade, transmudadas em samba: amor capaz de cantar a Marginal do Tietê, como cantaria a Praça da República.

Cantou a cidade, pedaço de cada um de nós.

Nós, da Olivetti, somos também tudo e todos que ele cantou desta cidade: o Trem das Onze, Iracema, o Bixiga, a Luz ainda da Light, a Prova de Carinho, a Saudosa Maloca.

Saudoso Adoniran. Nossos 30 anos aqui ficam como Prova de Carinho. Lá vem ele, andar gingado, povoando nossos sonhos de resgatar esta cidade. Silêncio, cavaquinho! F. Giannini” (1).

Passados quase 40 anos de sua partida (1982), suas letras, suas melodias, continuam ocupando os nossos sonhos e povoando os nossos corações. E, para finalizar, relatamos aqui, uma curiosidade artística. Exemplificando: Adoniran e Vinicius de Moraes não se conheciam pessoalmente. Mas, juntos, produziram uma das mais belas músicas brasileiras, Bom Dia, Tristeza. Como assim? Certa feita, o Poetinha entregou um pedaço de papel à sua amiga Aracy de Almeida, e disse-lhe: “Faça o que quiser desses ‘versinho!'”. Aracy, que era amiga de Adoniran, levou ao mesmo, os tais ‘versinhos’. Você já imagina? É isso mesmo: o papel continha a composição de Bom Dia, Tristeza, que após musicada por Adoniran, tornou-se um clássico brasileironas interpretações de Maysa, Maria Bethânia, Cauby Peixoto, entre outros. Mas, acima de tudo nas vozes de Elis e Adoniran. Segundo Rolando Boldrin, é uma das suas preferidas. A seguir, a letra oficial de

Bom Dia, Tristeza

“Bom dia, tristeza/Que tarde, tristeza/Você veio hoje me ver/Já estava ficando/Até meio triste/De estar tanto tempo/Longe de você.

Se chegue, tristeza/Se sente comigo/Aqui nesta mesa de bar/Beba do meu copo/Me dê o seu ombro/Que é para eu chorar/Chorar de tristeza/Tristeza de amar” (2).

Por Angeline e Francisco Gomes.

Fontes

  1. LP “Adoniran Barbosa: Documento Inédito”. – Olivetti 30 anos. SP: Estúdio Eldorado, 1984.
  2. Adoniran Barbosa, coleção MPB Compositores, volume 7, SP: Editora Globo/Discos RGE, 1996.

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