Dr. Jivago: emoção à flor da pele

A literatura é, obviamente, uma das artes universais. E quando abraçada a outra arte, o cinema, por exemplo, ganha dimensões memoráveis. Grandes obras deram origem a grandes filmes. Independentemente de serem seus autores, franceses, russos, norte-americanos, espanhóis, italianos, alemães, etc. Os traços de genialidade são os mesmos, ou quase, depende apenas da perspectiva de cada um.

vamos então, de Bóris Pasternak. ele foi um escritor russo e nasceu em Moscou em 10 de novembro de 1890, e morreu vítima de câncer e problemas cardíacos em 30 de maio de 1960, aos 69 anos, em Peredelkino, próximo a Moscou. De uma família judia muito culta, o garoto pretendia ser músico. Mas, iniciou seus estudos com Filosofia, quando publicou seus primeiros livros de poesia, com versos de vanguarda de grande valor poético.

Na década de 30, no entanto, sua obra literária não foi publicada por destoar do ´´realismo socialista´´ soviético ´´estabelecido para a literatura e as artes´´. Há quem diga que o poeta foi chamado de ´´tolo sagrado´´ por Stalin. E só teve a sua vida poupada pelo regime comunista, por ter traduzido a poesia da Geórgia, terra natal do ditador. ´´A tradução era a única forma de Pasternak ganhar a vida. Fez versões para o russo de Shakespeare, Shelley, Swinburne, Goethe, Verlaine e Rilke, entre outros´´ [I].

Em 1956, tentou publicar o romance Doutor Jivago, em Moscou, mas a obra foi rejeitada ´´por caluniar a revolução bolchevique e o sistema soviético´´. Por essa postura teve muitos problemas em sua própria pátria, ou seja, por discordar das diretrizes comunistas. Os originais do livro foram contrabandeados para uma editora italiana onde ´´se tornou uma sensação´´. Dois anos depois – 1958 -, ´´já havia sido traduzido para 18 idiomas´´. Nesse mesmo ano o romancista ganhou o Prémio Nobel de Literatura, o qual foi recusado. sinto-me… ´´imensamente grato, tocado, orgulhoso, atônito e constrangido´´. Apesar de suas desculpas, Doctor Zhivago, só podia ser encontrado na URSS clandestinamente. Em meados dos anos 60, mas precisamente em 1965, o livro – o único romance da carreira de Bóris – tornou-se novo sucesso. Dessa vez, no cinema, sob direção de David Lean.

É sobre o filme, a nossa abordagem de de hoje. Recentemente o Facetas adquiriu o LP com doze músicas da trilha sonora do filme, compostas e regidas por Maurice Jarre, de 1966. Trata-se de um trabalho fascinante. Para quem ainda não sabia, é uma das mais belas trilhas cinematográficas de todos os tempos. Na contracapa consta esta nota da gravadora sobre as composições do regente.

´´A partitura de Maurice Jarre, jovem compositor francês para o filme ´´Doutor Jivago´´ é aqui apresentada com fidelidade original. Excitante, cheia de beleza e sensualidade, interpreta todos os grandes momentos do filme, dando-lhes um colorido próprio e emocionante.

´´Se o público sentiu a música, provavelmente não ficará tão absorvido pelo filme´´, teria dito o compositor, apesar de sua modéstia. Sua partitura é, na verdade, uma de suas melhores realizações, incluindo canções folclóricas russas, marchas soviéticas, canções, baladas e músicas para danças. Jarre soube captar toda uma gama de sentimentos, desde as mais violentas emoções da revolução, beleza lírica do amor de Lara e Yuri e a intimidade e a paixão do Dr. Jivago.

A música é executada por uma orquestra sinfônica de 105 figuras, um coro de 40 vozes – na abertura do filme -, a maior e melhor combinação de instrumentos musicais já reunidos num estúdio de Hollywood, além de contar com um conjunto de vinte e quatro executantes balalaica. Durante 10 dias o maestro dirigiu pessoalmente a orquestra. O resultado foi uma gravação que evoca o poder e a beleza de um verdadeiro momento épico.

A música atinge a pontos culminantes, ricos de emoção, quer nas cenas violentas, quer nas sequências alegres e românticas´´ [II]. A sonoridade da música compatível com o cenário do filme; a movimentação dos figurantes; e a atuação magníficas dos atores protagonistas Julie Christie e Omar Sharif transmitem aos espectadores-telespectadores, emoção contínua enquanto a película está sendo exibida.

Para cada música da trilha há um porquê. Citemos algumas. Lara Deixa Yuri´´Realça um momento triste, quando os dois apaixonados se despedem acreditando que jamais se encontrarão novamente´´; Revolução´´Numa técnica singular, representa as três cenas que retratam o espírito de alguns acontecimentos da Revolução Russa. O Odioso assassinato do velho coronel dos Russos Brancos pelos ´´partisan´´ vermelhos; o esfarrapado, solitário e congelado exército; e o comboio do General Strelnikov que corre furiosamente deixando atrás de si cidades incendiadas e desoladas´´; O Funeral ´´O jovem Yuri [Jivago quando rapaz] presencia o sepultamento de sua mãe. A música reflete os pensamentos e as emoções do pequeno órfão´´; Fuga de Yuri´´A música se inspira em cenas altamente emocionantes. Yuri é capturado pelos guerrilheiros, trabalha como médico e escapa chegado à casa de Lara, enregelado e delirante´´. E, por último, Yuri Compõe um Poema para Lara´´Esta música descreve, com alta sensibilidade, a descoberta por Lara de um poema que Yuri lhe escreveu. Para a primeira parte Mr. Jarre escreveu uma música especial que parece exprimir o próprio sentido do poema. E então a música-tema ´´Lara´´ se repete para uma audição final´´. É tudo da mais autêntica genialidade. Essa é a nossa opinião.

Em dois mil e cinco, para comemorar os 40 anos do filme, a warner Bros, que adquiriu os direitos da Metro-Goldwyn-Mayer, lançou uma edição especial [DVD DUPLO] de Dr. Jivago, onde consta. ´´Uma obra-prima comparável a… E o Vento Levou. Considerado um dos cem filmes mais importantes da história do cinema mundial, chega agora a versão definitiva de um verdadeiro clássico. Dr. Jivago. vencedor de cinco Oscar incluindo o de Melhor Trilha Sonora composta por Maurice Jarre; é um dos mais belos filmes dirigidos por David Lean, contando a história de amor impossível entre o jovem médico Yuri Jivago e a bela Lara, uma paixão que atravessa uma revolução e uma guerra mundial. Um filme apaixonante, com imagens memoráveis, como a Revolução da Rússia nas ruas de San Petersburg, a travessia de trem pelos Montes Urais, e as incontáveis cenas de batalhas pela Europa durante a Segunda Guerra Mundial´´ [III].

tudo isso pode ser resumido assim – Produção de Carlo Ponti; filme de David Lean; trilha musical de Maurice Jarre; obra de Bóris Pasternak; e emoção de cada um de nós, seja como leitor do livro, seja como telespectador do filme. Quem já leu ou viu sabe o que sentiu; quem irá ler ou ver, saberá controlar as próprias emoções.

por angeline e Francisco Gomes.

Fontes. 1. ´´501 Grandes Escritores´´, RJ- Sextante, dois mil e nove, p. 313; . LP Trilha Sonora do filme Dr. Jivago – RJ, Cia Brasileira de Discos, 1966; e 3. DVD DUPLO do Filme Dr. Jivago, Warner Bros Records, dois mil e cinco.

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