“O encontro das ilusões”

Lembro-me muito bem: no início dos anos 80, a UA – Universidade do Amazonas, hoje UFAM, trouxe como tema da redação vestibular, “A FOLHA”. Foi aquele alvoroço! Terminada a prova, alguns vestibulandos avaliavam o grau de aproveitamento, cujas opiniões a respeito eram mais ou menos assim: “A folha da árvore?”; “A folha de zinco?”, do telhado; “A folha de papel?”; “A folha do tempo?”, da vida, etc. Passados alguns anos daquele certame, encontrei o texto a seguir, do notável professor de Língua Portuguesa, Alpheu Tersariol, sobre o qual, possivelmente, a Comvest, tenha se inspirado para o tema mencionado, daquele ano. Vamos à leitura, na íntegra, da crônica:

O ENCONTRO DAS ILUSÕES

Duas folhas se encontraram, certo dia, no caminho das coisas perdidas.

Uma delas, muito verde, contempla a outra, velha e ressequida.

– Quem és tu? De onde vens? Que fazes aqui, alquebrada e já sem atrativos, sem beleza, jogada no crepúsculo do dia e sem calor, toda feia, carregada de tristeza… Quem és tu, enfim?

– Bem o dizes! Sou uma pobre folha seca… Sabes, tenho ainda olhos para o teu encanto e tua formosura. Tenho ainda ouvidos para a tua voz. E… e tu, quem és tu?

– Não me conheces? Sou a dona da inspiração, da inspiração dos poetas. Sou o ornato das florestas, dos campos e das flores. Não sabes? Sou uma folha verde, viçosa. Trago a esperança do amanhã, a ilusão de uma ventura, o presente de uma vida, a alegria da liberdade, a mudança dos hábitos, o enfeite das convenções…

A velha folha seca sorriu. Sorriu o sorriso da paz, da tranquilidade, de quem já conhece todos os segredos… E repicou:

– Sim, és jovem, bonita, orgulhosa e arrogante. Mas noto que és inexperiente em tua vaidade. Estás todinha vestida de ilusões e o colorido com que pintas o mundo não te permite ver a verdade da vida. Percebes que o meu corpo já cansado e velho, caminhante de muitas e longas estradas, aguarda o momento de repousar. Devo dizer-te, contudo, – e não me leves a mal – que também trago coisas bonitas do passado. Também fui, como tu és agora e pretendes ser, o encanto dos salões… Ouvi juras de amor, tornei-me o relicário da felicidade de ternos namorados! Raios de sol e manhãs de primavera já contemplei; nos píncaros das montanhas ou nas planícies das campinas, nas correntezas dos rios ou nas agonias dos pântanos, vivi a vida abrindo esperanças, cantando alvíssaras, curtindo amarguras, sendo útil a todos… Vês? Estou velha, sem forças e preciso de luz e de calor. Hoje, aqui; amanhã, não sei… Talvez nas páginas amarelecidas dos livros… Sabes? Desejo que tua velhice seja igual à minha: toda cheia de recordações das mais felizes…

A folha verde ouvira. Simplesmente ouvira. Virou-se e partiu…

A folha seca quedou-se sozinha mergulhada em profunda reflexão: “Quero que o mundo compreenda e não maltrate a jovem folhinha, tão cheia de orgulho, de fantasias, de caprichos, de ilusões …‘” (1).

Fantástico! Fantástico! Do início ao fim, o autor nos conduz refletir sobre o fenômeno da vida. A vida do princípio ao fim. A vida, sempre! O encontro de gerações, literalmente falando: a folha seca, de um lado, mas cheia de experiência, de vivência; a folha verde, do outro, repleta de beleza e vigor. mas, desprovida de experiência, e cercada da ilusão.

No poema “INSTANTES”, de autoria da escritora norte-americana Nadine Stair, e não do escritor argentino Jorge Luiz Borges, como pretendem alguns analistas, estão estes versos memoráveis: “… Se pudesse voltar a viver, trataria de ter apenas bons momentos! Porque, se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos, não percas o agora”.

E nesse contexto, essas primorosas palavras se completam: “Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera e continuara assim até o fim do outono“, ou seja, sem apetrechos e a enfadonhos à vida inteira; desprovido da maldade, da inveja, da ganância, das trapaças; do desgosto, dos delitos, dos aprisionamentos inúteis., de apatia à existência humana.

São as estações cronológicas do tempo, amigo, pelas quais temos de passar. Aqui, o tema é tratado pelos autores, com palavras que refletem uma simbologia da vida. Porém, a vida – composta de matéria -, que esconde (guarda) em cada de nós uma realidade diferente, deve sim, ser vivida intensamente cada instante. seja no desabrochar dos anos (folha verde); seja na contagem do tempo já vivido (folha seca).

Aqui, a todos nós, cabe uma análise subjetiva sobre o tema acima suscitado.

Notinha de parabéns – Nesta semana, a nossa matriarca Angelina Gomes completou 85 anos de idade. A ela o Facetas deseja muita saúde vida longa, e que, a mesma continue recebendo o carinho de filhos, noras e netos..

Por Angeline, Frncisco e Winnie

Fonte 1. Tersariol, Alpheu. Manual prático de redação e gramática. – SP. Editora LI-Bra, s|d (anos 70?) pp. 909 e 910.

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