Mary Shelley: uma mulher inovadora

Há exatos 203 anos, ou seja, em 1818, era lançada em Londres, a primeira edição da obra Frankenstein, de Mary Shelley (1797-1851). Dois séculos depois dessa publicação esse trabalho é considerado “um dos livros mais famosos e celebrados da literatura mundial”. Em 2018 Margareth Tarner fez uma adaptação excelente. Na semana passada adquiri um exemplar desse livreto no idioma inglês. Mas, a apresentação e as considerações sobre a escritora, estão em português. Achei o relato tão interessante, que preferi publicar aqui para o conhecimento dos nossos leitores, principalmente para aqueles – assim como eu -, que ainda não leram o “aterrorizante Frankenstein“.

Mary Shelley nasceu na Inglaterra. Era filha do escritor William Godwin e da filósofa e educadora Mary Wollstonecraft, a qual faleceu vítima de uma infecção generalizada em decorrência do parto alguns dias após o nascimento da menina. Quatro anos depois, em 1801, seu pai se casou com Jane Clairmont, mãe de dois filhos, que, “por sua natureza conservadora, não estimulou a enteada a frequentar a escola”.

William abriu um pequeno empreendimento comercial e sua família passou a vender livros infantis. A filha, então, foi encorajada pelo pai “a escrever desde a tenra idade”. Em 1810, aos 13 anos, ela publica seu primeiro trabalho: um poema. Porém, a sua relação com a madrasta era tão ruim, que a adolescente foi morar com amigos da família por algum tempo. “O momento foi propício para Mary praticar seu talento como escritora e desenvolver sua cultura”.

Assim, a jovem continuou recebendo sua educação (no convívio com amigos) até os 15 anos, quando “conheceu Percy Shelley, um escritor amigo de seu pai – então casado – que se encantou pela beleza e pelos interesses intelectuais” da moça. Apaixonados, em 1814 (ela com apenas com 17 anos), os dois embarcaram para Paris, “o que ocasionou a ruptura das relações por parte do pai de Mary por cerca de três anos”. Estiveram em vários países europeus, enquanto Mary era estimulada pelo companheiro a escrever, como se fosse ele seu mentor literário. Ela redigiu uma série de cartas sobre as viagens, as quais foram publicadas em 1817 sob o título: “História de uma viagem de seis semanas”. Endividados, eles voltaram a Londres.

“Mary engravidou, mas a criança, Clara, nasceu prematura e faleceu pouco tempo depois de vir ao mundo, no ano de 1815. No ano seguinte, nasceu seu saudável filho William. Nesse mesmo ano, somente após a esposa de Percy cometer suicídio”, os dois se casaram, o que escandalizou a sociedade da época. Mas, com a saúde abalada, o escritor levou a família para passar uma temporada “às margens do lago de Genebra, na Suíça, na companhia do já famoso escritor Lord Byron (1788-1824), com quem Claire, filha de Percy, mantinha um relacionamento. Percy e Byron tornaram-se amigos“.

O que aconteceu durante a estada dos Shelley às margens do lago foi amplamente descrito pela escritora em um prefácio de sua mais famosa obra, Frankenstein. Segundo a própria, os dois escritores e o amigo, Dr. Polidori, “durante uma noite leram histórias de fantasmas uns para os outros e fizeram um acordo de que escreveriam histórias tão aterrorizantes quanto aquelas. Mary, incumbida da tarefa, entrou em transe, obcecada pela ideia dos experimentos de galvanização e pelas ideias do cientista Erasmus Darwin. Veio-lhe então à imagem de uma terrível criatura de olhos amarelos – a partir daí, a autora desenvolveu a intrigante relação da criatura com seu criador, o cientista Victor Frankenstein” (1).

Moral da história: “Victor Frankenstein tem uma única preocupação: desvendar o segredo da vida. Na Universidade de Ingolstadt, na Alemanha, esse obstinado estudante entra em contato com os mórbidos segredos da ciência. Logo, o que não passava de um interesse se torna uma obsessão, e ele se dedica a algo terrível: criar um monstrouma criatura de olhos amarelos e sorriso grotesco que pensa a assombrá-lo onde quer que ele vá”.

De volta a Inglaterra, a escritora finalizou a obra, iniciada com um canto. Agora, “a história foi ampliada e tornada um romance graças ao estímulo de Percy, mas só depois de quase dois anos resultou no livro, publicado em 1818 (quando ela tinha apenas 21 anos de idade) sob autoria anônima como Frankenstein, O Prometeu Moderno. Foi na segunda edição, datada de 1823, que Mary Shelley assinou aquele que seria o seu primeiro romance” (1).

Os Shelley viveram na Itália entre 1818 e 1822. Além de William, Apenas Percy Florence, o quinto filho do casal, sobreviveu. No último ano (1822) ainda morando em solo italiano, uma nova tragédia se abateu sobre Mary: seu marido morreu no naufrágio de seu barco Ariel, durante uma tempestade na baía de La Spezia. Mary então, voltou com o filho caçula para a Inglaterra, onde se dedicou à sua carreira de escritora profissional.

Famosa no mundo inteiro, a historia de Frankenstein causou grande impacto e continua a influenciar diversas obras. Apesar de ter sido apontada como uma das precursoras da ficção científica, Mary Shelley recebeu duras críticas quando do lançamento da obra, principalmente pelo fato de ser uma mulher escritora, o que evidencia o preconceito da época” (1).

Mary publicou ainda O último homem (1826), uma história inovadora sobre o século XXI; Perkin Warbeck (1830), Lodore (1835) e Falkner (1837). Também são de sua autoria diversos contos e ensaios, e lançou um volume baseado nas suas viagens pela Europa com o marido, sob o título “Andanças na Alemanha e na Itália” (1844), além de ter recolhido a produção literária de Percy e trabalhado sobre ela, publicando os livros dele postumamente. A reunião de todo seu trabalho, fê-la ser reconhecida com uma grande romancista ainda em vida. Mary, morreu de câncer cerebral em fevereiro de 1851, aos 53 anos na cidade de Londres.

A obra em questão é realmente fascinante! Cada um de nós tem em si uma “criatura”. Essa criatura é alimentada pelos nossos medos (que vêm do homem primitivo). Quando perdemos o controle sobre eles, surge um monstro no nosso mundo interior, e, por um descuido qualquer, poderá sair por aí… Só um detalhe: eles (medos) não podem – em hipótese alguma – nos dominar. “O livro traz ainda questões importantíssimas sobre o lugar do monstro no mundo: o que é ser diferente e como se pode existir sendo uma criatura única no planeta? Sabendo-se condenado à eterna solidão, esse monstro cobrará de seu criador a responsabilidade que tem sobre sua existência, mostrando-lhe as consequências perversas de seus atos” (1).

Por Angeline e Francisco Gomes

Fonte: 1. Shelley, Mary. Frankenstein; adaptação por Margaret Tarner. – 1ª ed. – São Paulo: Macmillan Education do Brasil, 2018.

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