Castro Alves, sempre

Capa do Livro “Literatura Comentada”

Nos anos 80, quando eu era estudante secundarista, li tudo que chegou ao meu conhecimento sobre o poeta Castro Alves (1847-1871). Lembro-me de uma pesquisa tão bem elaborada, modéstia à parte, feita por mim, que o professor de Literatura achou por bem não devolvê-lo. Tudo era motivo de surpresa ou fascinação: o poeta, o boêmio, o pintor, o caçador (teve o pé esquerdo amputado, após um tiro de espingarda), sua paixão por Eugênia Câmara (“Vamos Eugênia, fugindo,/a todos sempre sorrido,/Bem longe nos ocultar./Pra ser feliz basta amar”). Lia, relia, decorava, soletrava, declamava, VOZES D’AFRICA. Primeiro verso: “Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?”; o antepenúltimo: “Há dois mil anos… eu soluço um grito…”). Era assim: cada um de nós fazia uma pesquisa, depois comentávamos sobre: Bernardo Guimarães, Gonçalves Dias, Graça Aranha, Raul Bopp, Machado de Assis, etc. Apesar da escassez de fontes biográficas/bibliográficas, o nosso aprendizado era quase completo.

Em 1997, quando da passagem dos 150 anos de nascimento do poeta, a Fundação Banco do Brasil, com a parceria da Organização Odebrecht e do Governo do Estado da Bahia, programou para o “Projeto Memória – Castro Alves, 150 Anos, diversos eventos que tiveram início em março e se estendeu ao longo daquele ano, ou seja, no dia do aniversário de Castro Alves, 14 de março, “a Bahia parou para ver e participar dos festejos marcados nos municípios de Cachoeira do Paraguaçu, Castro Alves e na capital, Salvador” (1).

No dia 14 de março de 1847, na Fazenda Cabaceiras, comarca de Cachoeira, Recôncavo Baiano, “começava a história de um brasileiro que iria revolucionar os costumes e conceitos da época. Um brasileiro que transformou em poesia todas as suas bandeiras por mudanças sociais. Antônio Frederico de Castro Alves viveu apenas 24 anos. Mas foi tempo suficiente para deixar obras que até hoje são referências fortes e marcantes na literatura nacional” (1).

“Romântico, crítico, consciente e intenso, Castro Alves expressou como ninguém o que sentia pela vida e pelo seu País. Amante da boemia e de muitas mulheres, foi também um apaixonado das causas políticas, tendo emprestado o seu talento às lutas pela abolição da escravatura, proclamação da república, liberdade de expressão, além de outros movimentos que emergiram no Brasil daquele período” (1). Suas palavras expressas em versos estão sempre em evidência: “O povo é como o sol! Da treva escura/Rompe um dia co’a destra iluminada,/Como o Lázaro, estala a sepultura! …(…) Oh! Temei-vos da turba esfarrapada,/Que salva o berço à geração futura,/Que vinga a campa à geração passada” (1).

Agora, pois, nesta semana (06.07.2021), em relação a 6 de julho de 1971, lembra-se dos 150 anos da morte física do notável poeta baiano. “Ceceu para a família e para os amigos, Poeta dos Escravos para a história da Literatura brasileira, estudante subversivo para as autoridades de seu tempo” (2). Assim era Antônio Frederico, o 2º filho, de seis, do médico Antônio José e da dona de casa Clélia Brasília, que até hoje vive na boca do povo, louvado e cantado em prosa e verso pelo Brasil afora. Ainda criança migrou com os pais para a capital. Em sua escola – o Ginásio Baiano -, avançada para os padrões rígidos da época, “aboliram-se os castigos corporais e os alunos eram incentivados a desenvolver-se artisticamente, compondo e declamando poemas em festas escolares” (2).

Em 1862, aos 15 anos, o futuro poeta, vai para Recife (PE), preparar-se para cursar Direito. Mas, sem a vigilância dos pais, fascinado pelas pernambucanas e solidário com as ideias abolicionistas, o jovem se descuida dos livros, sendo reprovado em Geometria (da grade de Direito). Somente consegue ingressar na Escola de Direito de Recife em 1864, mas ficou inadimplente por excesso de faltas às aulas. Com esse histórico acadêmico, em 1865, dedica-se à poesia. Inclusive foi ovacionado quando declamou o poema O Século. Publicado, mais tarde, pela própria Faculdade.

É nessa fase “livre” da vida, numa de suas idas noturnas ao Teatro Santa Isabel, que o moço conhece a atriz portuguesa Eugênia Infante de Câmara, dez anos mais velha que ele, “seu futuro amor, companheira na época mais importante de sua produção artística”. Diga-se de passagem, ter sido ela, mais tarde, a substituta de Idalina no coração e nos versos do poeta. E, os dois foram viver juntos numa casinha nos arredores de Recife. Depois seguiram para São Paulo, Rio de Janeiro e, por fim, Salvador.

Dois meses após completar 20 anos, isto é, no dia 7 de setembro de 1867, estreia na capital baiana sua peça Gonzaga, a qual é gloriosamente ovacionada pela plateia. No ano seguinte o casal parte para o Rio, levando na bagagem a dita peça, onde o poeta é recebido pelo escritor José de Alencar, que após analisar Gonzaga, os encaminha para o já famoso Machado de Assis. As portas estavam sendo abertas sucessivamente para os dois artistas. Meses depois, já estão em São Paulo, onde “o casal retoma a vida intelectual e boêmia, frequentando saraus e salões, sempre o mesmo sucesso”. Em Sampa, Eugênia retorna ao teatro e o marido recomeça os estudos de Direito, onde foi aluno do destacado abolicionista José Bonifácio e reencontra Rui Barbosa, seu antigo colega de curso primário, no Ginásio Baiano, de Salvador. Por outro lado, começam as brigas, entre o poeta e a atriz motivadas, principalmente, por ciúmes, que afastam Eugênia de Castro Alves para sempre: “o poeta fica sozinho, mas ainda apaixonado”.

Como num jardim que existem rosas e espinhos, foi assim também na vida do agitado poeta. No dia 1º de novembro de 1868, na região do Brás (SP), onde o mesmo caçava, “um disparo acidental de espingarda atinge-lhe o pé”. Seu estado de saúde se agrava. Ele então, decide viajar para o Rio, onde chega em maio de 1869. “Lá, o diagnóstico terrível e definitivo: Castro Alves precisava amputar a perna esquerda, no seu terço inferior. (…) Com a operação piora o estado geral do poeta, que há tempos já sofria do peito. Com o agravamento da tuberculose, triste e doente, é nesse regresso que Castro Alves, contemplando a esteira de espumas do navio em que viaja, inspira-se para dar título a seu livro, Espumas Flutuantes” (2), publicado em 1870, o único do autor editado ainda em vida.

Na Bahia, ora morando na capital, ora no interior, enquanto espera recuperar a saúde, segue compondo poemas e, de vez em quando, para esquecer Eugênia “com novos amores, dizem que, então, castos e contemplativos”. Porém, tudo é muito sombrio. “As melhoras são superficiais como os amores. E o poeta falece em 6 de julho de 1871, fortalecendo dois mitos românticos: o do poeta tuberculoso e o da morte precoce. Morreu na Bahia, mas continua a viver no coração do povo brasileiro, para quem seus versos ensinam os caminhos da liberdade e do amor” (2), como estes versos a seguir: “Amemos, pois!/P’ra ti eu tenho n’alma/Beijos, prantos, sorrisos,/cantos, palmas…/Um abismo de amor…/Sorriso de uma irmã,/Prantos maternos,/Beijos de amante,/Cânticos eternos,/E as palmas do cantor!”(1).

Quer mais, amigo leitor? Ouça então, Caetano Veloso declamando a beleza – verso após verso de Navio Negreiro.

“Pra ser feliz basta amar”.

Por Angeline e Francisco Gomes.

Fontes: 1. Viva Voz, informativo Fundação BB, ano 2 – nº 3, junho de 1997; 2. Alves, Castro. in Literatura Comentada, por Marisa Lajolo e Samira Campedelli. – SP: Abril Educação, 1980.

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