Seis anos do Facetas, com Tenório Telles

Foto extraída do livro Viver

“VIVER É NÃO PERDER A CAPACIDADE DE AMOR E DE SE ENCANTAR”

Após verificar que tínhamos um excelente acervo de livros, discos (vinil, CD, DVD), anotações, biográficas/bibliográficas, documentários,etc, a talentosa jovem Winnie teve a ideia de criar um blog para que pudéssemos compartilhar com os leitores algumas facetas – curiosidades, comentários sobre artistas, escritores, poetas, entre outros. Assim, nasceu http://www.facetasculturais.com, no dia 7 de agosto de 2015, ou seja, há exatos seis anos, cujo primeiro artigo foi “Pra não dizer que não falei de Vandré”. De lá até hoje, 7 de agosto de 2021, são 315 publicações – uma por semana, ao sábado, às vezes, ao domingo. Sempre com o mesmo objetivo: divulgar apenas aquilo que achamos que possam interessar a outras pessoas; evitar seja feito juízo de valor. Afinal, não somos escritores, jornalistas ou críticos; consultar fontes confiáveis. Essa é a receita do Facetas. Isso explica quase meio milhar de acessos nesses seis anos. É muito para uma atividade didática, amadora. Somos gratos por tudo.

Saímos “garimpando” aqui e ali e, com isso, já estivemos em todos os Continentes, quer dizer, em muitos lugares. Dentro e fora da Amazônia; do Brasil; da América, da Europa, da Ásia, da África. Poderíamos citar aqui nomes de alguns leitores que nos dão sugestões que norteiam as nossas pesquisas, mas seria injusto se esquecêssemos alguns deles. Por exemplo, ainda lá no início, isto é, na 18ª edição, de 28.11.2015, publicamos: “Tenório Telles: talento e humildade”. Notável poeta amazonense, nascido na localidade de São Tomé (rio Purus). Hoje, voltamos a beber na mesma fonte de seu saber, com a íntegra de um dos mais belos poemas de todos os tempos da literatura brasileira, de sua autoria: “Viver”.

V I V E R

“Viver é mais do que passar pela vida, como uma novem ou uma pedra. É ser no mundo, participar do mundo, enraizar-se no mundo. Viver é tomar partido. Tomar partido do bem, da beleza, da mudança. Tomar partido do outro, do chão em que acordamos para os mistérios do mundo. É tomar partido das florestas, dos pássaros e das águas. Viver é acreditar que é possível construir um mundo mais limpo e justo.

Construir um mundo que seja de todos. Dos seres humanos e também dos beija-flores, das joaninhas, das formigas, da garça e da jaçanã, da onça, do tatu, das águas e seus peixes, das árvores, das flores. E também dos bichos do fundo, dos encantados. Até dos seres invisíveis que habitam as florestas e a imaginação das crianças. Precisamos compreender que todos são filhos do mesmo milagre e que todos são feitos de sangue, carne e magia. Em todos a vida pulsa, manifesta-se e floresce.

Viver é saber que somos responsáveis pelo planeta, que é a nossa casa. É não ser indiferente. Entender que cada gesto nosso terá consequências na vida da sociedade. Viver é saber que na existência temos de fazer escolhas – e que as escolhas erradas podem nos trazer muitos dissabores. E que, por isso, devemos ouvir os ensinamentos das pessoas mais experientes, os conselhos dos sábios e as lições que os livros encerram em suas páginas. Aprender que as respostas que buscamos para as nossas dúvidas e temores estão dentro de nós.

Viver é compreender que não estamos sozinhos no mundo. Que fazemos parte da grande família que se chama vida. E que devemos estar atentos ao que ocorre ao nosso redor. Viver significa que devemos exercitar a nossa cidadania, participar da luta pela construção de um mundo novo, fundado no respeito a todos os seres, na tolerância e na fraternidade. Afinal, o que somos? Independentemente da cor de nossa pele e de nossos olhos, somos todos irmãos. Viver e cuidar do outro, do lugar onde vivemos, da cidade e do país onde somos. Do planeta, que é a nossa cidadela no grande oceano cósmico.

Viver é não perder a capacidade de amar e de se encantar. De ser amigo, de ser cavalheiro, e até de ser um bom filho. Daqueles de antiguidade, que tomavam a bênção e beijavam a mão dos pais e dos mais velhos quando se despediam. Viver é encontrar no companheiro o porto seguro depois de um dia de muita luta e cansaço. É encontrar na porta de casa, ao entardecer, a companheira com os braços abertos, acolhedora e carinhosa. Ter o rosto tocado pela ternura e receber um beijo de querer bem. Viver é compreender a singeleza das coisas e dos gestos.

Viver é ter coragem de ser bom, num mundo dominado pela injustiça e pela ambição. É ser capaz de atitudes de delicadeza e bondade. De acreditar nos valores humanos e na liberdade. É crer que o mundo tem jeito – e fazer-se um operário da mudança e da construção de uma sociedade onde o ser humano será considerado e respeitado não pelo poder ou pelo dinheiro, mas pelo exemplo e pela grandeza do seu coração. Viver é crer na força libertadora da claridade, da poesia e da bondade” (1).

Amadas leitoras, amados leitores, sem a questão da intimidade, mas simplesmente pela pureza das palavras; pelo que há de sublime na poesia. A produção literária tenoriana é apaixonante, emocionante. Vejamos com se entrelaçam os vocábulos iniciais de cada parágrafo desse memorável poema. É algo assim, de primeira grandeza: Viver é mais do que passar pela vida. É construir um mundo que seja de todos. Viver é saber que somos responsáveis pelo planeta, que é a nossa casa. Viver é compreender que não estamos sozinhos. Viver é não perder a capacidade de amar e de se encantar. Viver é ter coragem de ser bom. Viver é crer na força libertadora da claridade, da poesia e da bondade.

Há alguns dias elevei a minha emoção à flora da pele, quando detidamente, ouvi a leitura de “Viver” feita pela professora Sílvia Fernanda Vasconcelos da Silva, de literatura e língua portuguesa, da Escola Estadual (AM) Jairo da Silva Rocha. Dona de uma bela voz que nos lembra a jornalista Leda Nagle. Por meio de sua voz o som, o tom e compasso dos versos tornam-se quase divinos, mágicos, espiritualíssimos. Um detalhe, apenas: onde quer que cada um de nós esteja, e que venha a ter acesso a este poema, com a voz que tem, faça o mesmo: leia-o. O importante é refletir sobre seu conteúdo. Viver é não deixar a injustiça prevalecer sobre os direitos de todo e qualquer cidadão. Viver é “amar as pessoas como se não houvesse amanhã”, como bem compôs outro poeta.

Assim, nós, os criadores e mantenedores do Facetas, chegamos a mais esta edição, contentes. Uma atividade amadora, sabemos disso. Mas, sempre nos emocionamos quando materializamos mais um comentário divulgado. Para nós, tudo isso significa muita coisa. É como estas palavras que escreveu o imortal Antônio Cícero e canta Marina Lima in Fullgás: “Você me abre seus braços/E a gente faz um país”. Isso mesmo: cada leitor(a) nos ajuda a fazer o Facetas, sempre.

O nosso muito obrigado, Angeline, Francisco e Winnie.

Notinha útil – Aqui, a homenagem do Facetas a todos os pais pela passagem 2º domingo de agosto de 2021, com esta oração do jurista Rui Barbosa (1849-1923), sacramentada há 100 anos, ou seja, em 1921: “Se um dia, já homem feito e realizado sentires que a terra cede aos teus pés, que tuas obras desmoronam, que não há ninguém à tua volta para te estender a mão. Esquece a tua maturidade, passa pela tua mocidade, volta à tua infância e balbucia entre lágrimas e esperanças, as últimas palavras que sempre restarão na alma: MINHA MÃE, MEU PAI”.

Fonte: 1. Telles, Tenório. Viver. 3ª ed. – Manaus. Editora Valer, 2014.

2 comentários em “Seis anos do Facetas, com Tenório Telles

  1. Que diria eu um humilde leitor do Facetas diante de tamanha sapiência de seus mantenedores.
    Parafraseando Tenorio Teles:
    Viver é nao passar pela vida, sem ter a coragem de expressar nossos sentimentos.
    Viver é ter a certeza que uma grande amizade, pode ser resgatada depois de muitos anos.
    Viver é encarar com sabedoria as adversidades impostas no dia-dia e delas tirar o melhor proveito.
    Parabéns à familia Facetas! Que muitas publicações ainda virão satisfazer e ampliar o nosso conhecimento, no campo da literatura, da música e do cinema.
    Obrigado por sua existência.

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