“A poesia nova”

“É êsse * destino que eu prevejo no horizonte da literatura, nos países que constituem a República das Letras Ocidentais. O modernismo não conseguirá fixar-se, impondo integramente as suas normas, a sua técnica, a sua interpretação singular da poesia. A literatura tradicional acabará, porém, aceitando algumas das suas sugestões, utilizando diversas das suas fórmulas, adotando muitos dos seus cânones e, quando se fizer a história dêste* século,, por abençoar a rebeldia de que lhe resultou a evolução. As agitações dêste* gênero são, aliás, como as cheias do Nilo: elas solapam as ribanceiras, invadindo o areal, derrocam os monumentos milenares, indo aninhar os peixes na bôca* sagrada dos monstruosos deuses de pedra. Ao descerem, porém, as águas, voltando ao seu leito, deixam o solo rejuvenescido, e o Delta, de Heliópolis a Rosette, mais profícuo à fecundação das sementes.

É êsse* benefício que esse modernismo vem trazer à literatura. O espírito clássico, e as formas seculares e consagradas, não desaparecerão. Mas, modificar-se-ão de algum modo, aproveitando o que houver de assimilável na técnica e no espírito dos modernistas. Conforme o depoimento da história do pensamento poético, e é o que sucederá mais uma vez, ou muitas outras, para que o rio da imaginação, cortado embora de cachoeiras e ferventes de espumas, seja um só, através dos tempos. Dessa fatalidade apresenta-nos a demonstração a vitória do Humanismo nos séculos XIV a XVI, restabelecendo a marcha da cultura literária após oito séculos de catalepsia da inteligência.

A humanidade nova, saída dos leitos do amor em que se haviam misturado romanos e bárbaros, espreguiçava-se ainda para a vida, quando, no crepúsculo do século XII, e na alvorada do século XIII, surge uma poesia nova, filha do espírito novo, e das línguas novas, que se destacavam do velho latim. Os ritmos eram diversos, e aparecia, com êles*, a rima, desconhecida dos antigos. (…) Os trovadores tinham a idéia* de que o mundo acabava de nascer e que eram êles*, como diria Hugo, de Homero, os pássaros da sua alvorada. A poesia acordava no coração do homem, vivaz e inocente, como se ninguém, antes dêles*, tivesse levantado a voz para despertar as mulheres e adormecer as estrelas.

A língua latina havia, pode-se dizer, desaparecido do comércio dos homens, transformada em dialetos. Tudo favorecia, em suma, a eclosão de novas expressões da imaginação e do sentimento. A evolução das velhas regras gramaticais às necessidades evidentes.

Acredito, ainda, que sejam adotados ritmos novos. Não acredito, porém, que a rima seja abandonada, pois que ela é um dos atributos da harmonia. Eu acredito, em suma, que, aproveitando a lição, a poesia tradicional sofrerá modificações superficiais, continuando, todavia, o seu caminho, onde o rio do pensamento poético terá pulado uma pedra sem, no entanto, abandonar o seu curso.

Adotar o modernismo como êle* se está manifestando por toda parte e, particularmente, entre nós, é que seria impossível. Todos os movimentos literários têm, sempre, um chefe, um mestre, um imperador. Êste* que não é mais que uma dissidência do futurismo, surgiu sem programa, sem bases, sem generais. Daí as manifestações de arte bizarras, brilhantes, mas contraditórias…

Entre as vantagens do movimento operado nos domínios da poesia brasileira, deve ser contado, em primeiro lugar, a nacionalização dos assuntos. No tempo do soneto e do parnasianismo, os nossos poetas, de sul a norte e de leste ao oeste, do Amazonas ao Rio Grande e do Rio de Janeiro a Corumbá, celebravam sempre os mesmos temas, na mesma linguagem, à revelia do ambiente. Após a leitura de um livro de versos, raramente se fica sabendo se o autor procederia do Ceará ou de São Paulo, tão divorciadas andavam, nesses dias ainda tão próximos, a Arte e a Natureza. O modernismo contribuindo embora para a fragmentação nacional, fez de cada poeta a expressão do seu meio, a voz do seu povo, senão na técnica, pelo menos na língua e nos temas. Assim é que temos, hoje inconfundíveis, poetas de São Paulo que cantam os cafezais…; os do Rio Grande do Sul, que fixam a vida pastoril…; os do Rio de Janeiro, que celebram os miúdos episódios mundanos, os quais, reunidos, constituem uma encantadora feira de futilidade; os de Minas, evocando o prefácio político da história nacional…: e os da região dos engenhos de açúcar, da Baía* ao Recife, cuja poesia mole e doce, recorda o louro mel das grandes caldeiras ferventes, purificando-se ao fogo para o encanto civilizado do paladar. Eu não acredito, entretanto, que a arte que se esta produzindo consolide os seus moldes, e se torne definitivo” (1).

Fantástico! Fantástico! Mesmo criticando, era brilhante no manuseio do vernáculo. Tudo indica que a crônica acima – da qual foram extraídos alguns trechos -, tenha sido escrita em 1929, porém, somente publicada em 1933, sobre a eclosão do movimento modernista que ensejou a Semana de Arte Moderna de São Paulo, em 1922. Fala-se do jornalista, crítico e escritor maranhense e imortal da ABL Humberto de Campos (1886-1934), o qual “fez também crítica literária de natureza impressionista. É uma crítica de afirmações pessoais, que não podem ser endossadas nem verificadas” (2).

Em fevereiro de 2022 será lembrada a passagem dos 100 anos desse movimento no Brasil, que perdura até hoje. Fica aqui, portanto, a critério de cada leitor, fazer as suas próprias conclusões a respeito do posicionamento de Humberto de Campos da “velha” poesia e da nova poesia, ou seja, de Dante a Jorge de Lima, ou melhor ainda, a Zé Ramalho que canta: “Oh, eu não sei se eram os antigos que diziam/Em seus papiros Papillon já me dizia/Que nas torturas toda a carne se trai/E normalmente, comumente, fatalmente, felizmente/Displicentemente o nervo se contrai/. Oh, com precisão…” (Vila do Sossego, 1978)

Por Angeline e Francisco Gomes.

Fontes: 1. Campos, Humberto de. Crítica, 2ª série. São Paulo: W.M. Jackson Inc. Editores, 1958; 2. http://www.academia.org.br; e 3. * escrita de acôrdo (*) com a ortografia oficial de 1931.

Um comentário em ““A poesia nova”

  1. Fenomenal essa discorrência sobre os ensejos da nova poesia que sempre estará em crescente evolução dentro do pensamento, que seja do passado ou do futuro. A Semana da Arte Moderna em 1922, nos trouxe esse simbolismo de tamanha invergadura e sempre vai está vivo em nossos pensamentos. Parabéns ao Facetas por abranger de forma explicitamente e comumente esse tema.👏🏼👏🏼👏🏼

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