Ano Novo: pax, pax!

Vamos fechar 2021 com chave de ouro. Hoje é o último dia do ano. Último artigo do ano. Nada melhor, portanto, do que clamarmos por paz, paz. Segundo o mestre Vinicius de Moraes, “a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”. Foram inúmeros os problemas, as contendas, os conflitos, vividos por toda a humanidade. Mas, no geral, foram superados ou minimizados. “Aos homens de boa vontade”, paz. Aos corações sensatos, paz. Aos que se arrependeram pela prática dos seus atos equivocados, paz. Vamos seguir o que que diz outro poeta: “Aos que eu fiz sofrer, peço perdão”.

Nesse período do ano, é muito comum ouvir-se: “Ano Novo”; “Virada do Ano”; “Próspero Ano Novo”: “O Réveillon é nosso”; “Até o Ano que vem!”; “Festa da Virada”, etc, etc, etc. Qual o real significado de tudo isso? São expressões que ouvimos (e dizemos) todos os anos, sucessivamente. Porém, qual a origem dessas palavras? Por que toda essa expectativa, sempre? Todo esse contentamento, essa alegria contagiante (ou quase)?

Nos revela a História que teria sido o imperador romano Júlio César, que no ano de 46 a. C. decretou o 1º de Janeiro como o “Dia do Ano Novo”, dedicado ao deus Janus – o guardião dos portões. Era o deus de duas faces. com o rosto de trás ele via o ano que findava; com o rosto da frente, ele contemplava o ano que estava iniciando. Tudo, é claro, em conformidade com o calendário gregoriano, isto é, criado pelo Papa Gregório. Hoje conhecido como o calendário cristão ocidental.

De lá para cá, o 1º de Janeiro é comemorado em praticamente em todos os países do mundo, como o dia da confraternização universal entre os povos, as nações, as civilizações, melhor dizendo, o Dia Mundial da Paz; da Fraternidade, onde todos (pelo menos devia ser assim), almejam vida mais digna, independentemente da cor da pele, do credo religioso, da condição social, entre outra situações.

“A palavra Réveillon vem do verbo francês réveiller, que quer dizer “acordar” ou “reanimar” (no sentido figurado). Assim, o Réveillon é o despertar do novo ano” (1). No entanto, seu surgimento data de dois mil anos antes de Cristo, na Mesopotâmia, que acontecia nos dias 22 e 23 de março do nosso calendário atual. Em algumas regiões ainda são mantidas as comemorações nesses dias.

“A Festa do Ano-Novo já é uma tradição no Brasil e em boa parte do mundo, assumindo, em muitos casos, um caráter religioso cristão” (brasilescola.oul.com.br). Por exemplo, existem no país, “várias tradições herdadas das religiões de matriz africanas e afro-brasileira, tais como o Candomblé e, principalmente a Umbanda”. Entre nós, a Festa da Virada, surgiu ainda no século XIX. Porém, foi no primeiro governo de Getúlio Vargas, que o 1º de Janeiro, foi oficializado como o Dia da Fraternidade e decretado feriado nacional.

Em 29 de dezembro de 2017, Ana Gosling, publicou interessante artigo sob o título: “Três poemas sobre o Ano Novo que mostram que a vida não muda se não a fazemos mudar” (2). Um de Fernando Pessoa, um de Carlos Drummond de Andrade e um Ferreira Gullar. Trata-se de um trabalho memorável! O mesmo não contém apenas versos – rimados ou não – e significados contextuais literários, mas, acima de tudo, lições de vida (para a vida, com a vida), no sentido da reflexão, da esperança e de dias melhores. Ferreira Gullar, como sempre, nos emociona sempre. É assim seu “ANO-NOVO”: “Meia-noite. Fim/de um ano, início de outro. Olho o céu: nenhum indício. // Olho o céu: o abismo vence o/olhar. O mesmo/espantoso silêncio/da Via-Láctea feito um ectoplasma/sobre a minha cabeça: /nada ali indica/que um ano novo começa. // E não começa/nem no céu nem no chão/do planeta;/começa no coração. // Começa como a esperança/de vida melhor/que entre os astros/não se escuta/nem se vê/nem pode haver:/que isso é coisa de homem/esse bicho estelar que sonha (e luta” (2).

Ao comentar, diz Ana: “O poema de Gullar é o da vidara, o da meia-noite. O narrador olha par o céu e nada vê. Não há sinal de que algo tenha mudado. Um novo ano começou e não há qualquer indício. (…). É no coração do homem que começa a ruptura (…). E a belíssima estrofe final nos redime: o novo começa no coração do homem, na esperança que há no coração dos homens. E isso não se vê, não se escuta, nem entre os astros, porque só está no homem. (…). A mudança que se espera, que nos renova, começa em forma de esperança nos nossos corações. Só o homem é capaz de promover essa mudança porque sonha e… porque luta. (…) É no homem que está o milagre da mudança. (…) Somos bicho estelar que sonha e luta…”(2).

E, assim Gosling, conclui seu emocionante pensamento expresso nestas palavras: “O que nos transforma não são as promessas de um ano novo, não é a conjuntura de astros no céu à meia-noite, nem o amanhecer do primeiro dia ou a mágica da virada. O que nos transforma são as estrelas em nós, é o sonho que trazemos nos coração e o que fazemos de concreto para realizá-lo. Ainda que os astros se curvem, os céus abençoem, as luzes se acendam, o que transforma a nossa vida (e o mundo, numa perspectiva maior) é a nossa capacidade humana de ter esperança, sonhar e lutar” (2).

Finalizemos então, com este inesquecível “Ano novo”, do poeta mineiro Elias José (1936-2008): “É preciso, ano a ano,/refazer sonhos, sons e cores. // Retirar do sol luz e calor,/ligar os sentidos na rosa,/rebatizar-se em água de bica,/soltar-se na brisa brincalhona,/recontar e voar muitas histórias,/decifrar as mais secretas linguagens,/driblar os ritmos impostos pela vida/e brincar e brigar feito um menino. // É preciso, ano a ano,/recuperar os restos e/rastros da febre,/para dinamizar o mundo,/para preservar os amigos,/para satisfazer os desejos,/para acariciar mais o amor,/para embalar e ninar a cria,/para encontrar o nosso ego,/para enganar a ação do tempo,/para não deixar a vida murchar” (3).

Assim seja: vamos “driblar os ritmos (negativos) impostos pela vida”, para que ela não venha a “murchar”. Somos bichos que nos transformamos. Isso nos possibilita “ter esperança, sonhar e lutar”. A vida e á arte do encontro, apesar de tantas circunstâncias ao longo dos nossos anos vividos.

A todos FELIZ ANO DE 2022!

São os votos de: Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.

Notinha de pesar – Nossos sentimentos pela morte da escritora Lya Luft (1838-2021), cuja matéria pereceu ontem (30.12) no apagar de 2021. Porém, sua obra há de ser perpetuar por muitas gerações. O nosso adeus à grande escritora brasileira, apenas nascida no Rio Grande do Sul.

Fontes: 1. http://significados.com.br; 2. José, Elias. Cantigas para entender o tempo. – Belo Horizonte: Dimensão, 2018; e 3. http://artecult.com

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