Natal: lux! Lux!

“Bola flutuante” – Arte de Priscila Gomes/2021

A nossa notável escritora/poetisa carioca Cecília Meireles (1901-1964), que faleceu dois após completar 63 anos de idade, se fisicamente viva estivesse, estaria com 120 anos. Porém, a sua arte literária continua vivíssima entre nós: seja nos livros didáticos, seja nos estudos técnicos e vestibulares, na nossa vida, enfim. Seus poemas, principalmente, estão sempre na mente da gente; na pauta do dia.

Nos anos 1950, ou seja, há mais de 70 anos, a excelente cronista já observava a descaracterização da tradição natalina. Por exemplo, in “Natal”, a autora exclama: “Como estamos mudados! Em meio século, perdemos aquela ingenuidade dos votos dirigidos de janela a janela: “Boas Festas!”, “Feliz Ano-Novo!”; das ceias tradicionais, talvez copiosas, porém modestas; das lembrancinhas oferecidas às crianças como um dom misterioso do céu; dos vestidos novos para os ofícios das igrejas e das visitas aos presépios; alegria das músicas e cânticos, deslumbramento dos olhos diante de uma Belém infantil, com patinhos nos lagos e lavadeiras nos rios… Ah! como éramos sensíveis, imaginativos! Como estávamos prontos a completar, com a nossa memória dos episódios evangélicos, a paisagem arbitrariamente inventada! Como achávamos naturais todas as coisas desencontradas naquele mundo fictício! Talvez prevíssemos que o nosso não o era menos, e igualmente e misteriosamente desencontradas as coisas que nele iríamos presenciar!” (1).

Assim, finaliza ela a sua crônica: “Em todo caso, se esta pompa, se este delírio, se estas luzes copiosas, se estas horas inquietas dos natais de hoje servem para aproximar as criaturas, malgrado o contrates tanto fausto e grandeza com a doce pobreza de Jesus – estes Natais assim celebrados continuarão a ser uma bela e feliz festa cristã” (1). Haja vista, que “a vida estava pautada, na Terra, sobre exemplos de coisas celestiais”.

Realmente “tá tudo mudando”, como afirmou o cantor norte-americano Bob Dylan. O Natal perde traços e tradições, mas o cristão não pode perder a esperança, o amor e a força da oração, como lembrou um amigo nosso, hoje pela madrugada, no ad perpetuam Jesus Cristo. Mesmo que para muitas pessoas, o Natal seja apenas uma data recheada de interesses comerciais, como bem escreveu o jornalista Jô Soares: “O Natal é realmente uma festa universal. As árvores de plástico vêm de Taiwan, os enfeites vêm do Japão, as lâmpadas pisca-pisca de Hong-Kong e a ideia vem de Belém” (Veja, nº 01, de 1996). É exatamente essa ideia, à qual a humanidade (ou parcela dela) deve apegar-se para manter viva a sua FÉ.

Segundo o escritor amazonense Simão Pessoa, “a simbologia natalina é universal e multicultural: o bom velhinho foi inspirado num bispo chamado Nicolau que nasceu na Turquia em 280 d. C. A tradição do pinheiro começou em 1530, na Alemanha, com Martinho Lutero. A imagem do Papai Noel , com uma roupa de inverno, nas cores vermelhas e branca, surgiu em 1881, a partir de uma campanha publicitária da Coca-Cola nos EUA” (Correio Amazonense, 01.12.2005).

Seja todo esse contexto universal e/ou multicultural, ou não, o mais importante, acima de tudo, é manter a religiosidade. E, nesse aspecto, que escritores, poetas, compositores, músicos, têm mantido suas crenças em dias melhores para um mundo mais harmonioso, mais fraternal, independente de qual seja a seita religiosa de cada indivíduo. Um exemplo apenas, nesse sentido, vem do escritor carioca Carlos Heitor Cony (1926-2018), o qual, ao se referir sobre o Natal, disse: “É no silêncio que nasce a nossa esperança. É no silêncio que nasce o amor” ( A Crítica, 26.12.1993). Isto é, que cada pessoa viva contrito com o seu Deus, com seu guia espiritual.

Por sua vez, a indispensável poetisa goiana Cora Coralina (1889-1985), in “Poema de Natal”, nos brinda com estes versos geniais. Uns dos mais belos da nossa língua: “Enfeita a árvore de sua vida/com guirlandas de gratidão!/Coloque no coração laço de cetim rosa, amarelo, azul, carmim,/Decore seu olhar com luzes brilhantes/estendendo as cores em seu semblante//. Em sua lista de presentes/em cada caixinha embrulhe/um pedacinho de amor,/carinho, ternura, reconciliação, perdão!//Tem presente de montão/No estoque do nosso coração/e não custa um tostão!/A hora é agora!/Enfeita seu interior!/Sejas diferente!/Sejas reluzentes”.

O Poeta da Paixão, Vinicius de Moraes (1913-1980), entre tantos temas abordados na sua obra literária e musical, nos deixou o valioso “Poema de Natal”, em quatro inesquecíveis estrofes. Numa delas constam estes versos, necessários para uma reflexão nesta data: “Não há muito que dizer:/Uma canção sobre um berço/Um verso, talvez, de amor” (2). De amor sim. “O amor é tudo!”, diz o cantor e compositor capixaba Roberto Carlos.

Aqui, no entanto, senhores leitores, nós conseguimos “no estoque do nosso coração” guardar “um pedacinho de amor”, para desejar-lhes FELIZ NATAL!

São os votos de Angelime e Francisco Gomes e Winnie Barros.

Fontes; 1. Meireles, Cecília. Janela Mágica; 5. ed. SP: Global, 2018; 2. Moraes, Vinicius de. Literatura Comentada. SP: Abril Educação, 1980.

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