Noel Rosa: “Poeta da vila, do samba, da gente”

Em qualquer que seja uma das artes, há artistas imortais. O cantor e compositor carioca Noel de Medeiros Rosa (1910-1937), o Noel Rosa é um desses exemplos. Pois, passados quase cem anos de sua morte, o seu legado artístico continua em evidência. Trata-se, portanto, de um “irretocável poeta de um sem-número de belezas. Cronista de costumes, para ele qualquer detalhe dava samba. Em apenas 26 anos de vida, deixou sua marca imorredoura na cultura popular”.

“Rio, 11 de dezembro de 1910. No chalé da Rua Teodoro Silva, Vila Isabel, nasce o primeiro filho de Manuel e Maria de Medeiros Rosa que é “arrancado” a fórceps. Sofre fratura e afundamento do maxilar; paralisia parcial do lado direito do rosto” (1).

Noel foi alfabetizado pela mãe. Aliás, com quem aprende a tocar bandolim. Aprende tocar violão com o pai. O menino estuda no tradicional Colégio São Bento. E, para realizar o sonho de sua família, cursa Medicina. Porém, larga os estudos seis meses depois de iniciá-los. Mas nele ficou, pelo menos, a inspiração para o “samba anatômico” Coração.

Aos pouco, o jovem Noel, foi ficando mais tempo entre os boêmios, sambistas. Foi, por sinal, “um dos primeiros brancos a compor samba e, muito graças a ele, a classe média sobe o morro”. Aos 19 anos já fazia parte do Bando de Tangarás, com João de Barro, Almirante, Alvinho e Henrique Brito. No carnaval de 1931, se Com Que Roupa? é o maior sucesso, cuja vendagem chega a 15 mil cópias.

Ele transformava o cotidiano em poesia. Por exemplo, Filósofo do Samba, pioneiro no rádio. Em 1935 faz o programa humorístico “Conversa de esquina”. “Suas composições abrilhantam trilhas sonoras dos primeiros filmes musicais brasileiros. Faz músicas para teatro. O mais famoso, Barbeiro de Niterói; paródia a ópera O Barbeiro de Sevilha, de Rossini. Teve inúmeros parceiros músicos. Gênios como Cartola, Ismael Silva, Lamartine Babo, Orestes Barbosa. Mas quem mais casou com o talento de Noel foi Osvaldo Gogliano, o Vadico”. A parceria perfeita dos dois deu origem ao clássico Feitio de Oração, Conversa de Botiquim, Pra Que Mentir?

Naquela época era comum revanche entre os sambistas. A polêmica mais acirrada ocorreu entre em 1934. “Wilson Batista, jovem e desconhecido sambista, compõe Lenço no Pescoço e Noel não gosta da imagem de sambista malandro da música. Responde com Rapaz Folgado. Wilson Retruca com Mocinho da Vila, Noel ignora” (1).

Mas o duelo continua. “A segunda provocação é Conversa Fiada, sátira a Feitiço da Vila de Noel. A resposta é a obra-prima Palpite Infeliz. Wilson apela. Insinuando o defeito no queixo de Noel faz Frankenstein da Vila. Noel cala-se. Wilson insiste com Terra de Cego. Acabou a polêmica. Venceu a música brasileira” (1).

Apesar de ser considerado feio, baixo e magro, a inteligência do poeta cativa as mulheres. Ceci, dançarina de cabaré da Lapa, foi sua grande paixão e inspiradora de muitos de seus sambas como: Pra Que Mentir?, O Maior Castigo Que Eu te Dou, Só Pode Ser Você, Quantos Beijos, Quem Ri Melhor…, Com Mil-réis, Dama do Cabaré e Último Desejo” (1).

Porém, seis meses depois de conhecer Ceci, Noel se casa com Lindaura, a qual ficava noites e noites esperando a volta do marido, que insistia em não abandonar seu estilo de vida boêmia. Mesmo depois de descobrir-se com sérios problemas pulmonares causados, principalmente, pelo fumo e pela bebida.

No inicio de 1937 já estava bem doente e numa viagem para Barra do Piraí (RJ), compõe o último samba: Eu Sei Sofrer, gravado no dia de sua morte pela amiga Araci de Almeida e Benedito Lacerda. Mesmo que tenha vido intensamente, “a vida terminou no mesmo chalé de madeira de Vila Isabel a 4 de maio de 1937. Tinha apenas 26 anos. Ninguém em tão pouco tempo de existência, produziu tanto com tal talento” (1).

Além de ser prazeroso ouvir as composições de Noel um século depois de criadas, tem, também, a questão da modernidade de seus versos como “agora vou mudar minha conduta…”, sem falarmos na sonoridade musical. Tudo leva o ouvinte a acreditar que são músicas “novas”. Coisa de gênio do nosso cancioneiro.

Por Angeline e F. Gomes e Winnie Barros. Com col. de Priscila Gomes.

Fonte consultada: Almanaque Brasil de cultura popular. SP: MKT/TAM, 2005.

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