Brecht: 70 anos após sua morte

Em 1996, quando da passagem dos 40 anos da morte do poeta, teatrólogo e escritor alemão Bertolt Brecht (1898-1956), foi lançada em livro o texto da peça “A santa Joana dos matadouros”. Uma homenagem a um dos mais significativos escritores do século passado. A tradução e estudo introdutório são do professor e crítico literário, de origem austríaca Roberto Schwarz (88 anos).

Essa peça é uma das mais conhecidas que Bertolt produziu para o teatro. Ela “constitui uma análise da crise econômica de 1929, quando o excesso de produção levou os industriais a uma dependência total e absoluta das bruscas oscilações da bolsa de valores de Wall Street. Ao desnudar as contradições a peça encena a verdade da economia política sob o capitalismo” (1).

Assim como Chaplin, Shakespeare, Goethe, Brecht escreveu textos poéticos memoráveis. Para eternidade. Diga-se de passagem. Por exemplo, o início da peça “A exceção e a regra” (1929/1930), o poema Nós vos pedimos com insistência, traz estes versos: “Nós vos pedimos com insistência/não digam nunca:/ isso é natural!/Diante dos acontecimentos de cada dia,/numa época em que reina a confusão/em que corre sangue/em que o arbitrário tem força de lei,/em que a humanidade se desumaniza/não digam nunca: isso é natural!/para que nada passe a ser imutável”.

A sua visão de mundo do ponto de vista crítico era algo impressionante, bem antenado. O poema “Perguntas de um trabalhador que lê”, reflete bem o asco do autor à política mundial daqueles tempos. Tanto pelo prisma daqueles que lutam trabalhando para manter a sobrevivência, quanto daqueles que oprimem o próprio homem. Porém, ele mantinha-se do lado do povo pela sua capacidade resiliente de superação.

O estudioso da obra bretchiniana, Luís Araújo Pereira, diz: “A poesia de Brecht é política no sentido próprio da palavra: propõe elucidar as leis da convivência entre os homens na ‘pólis’, a metrópole contemporânea, que já não é cidade-mãe, mas praça mercantil onde se negocia o ser humano” (2). Ou seja, o objetivo, portanto, desse pensador, é tornar transparente a retórica dos poderosos”.

Há quem diga que o poema “O analfabeto político” não é uma criação literária de Brecht, mas uma adaptação, um apócrifo de autoria desconhecida, Mas, lançado por ele há quase um século, em 1931, continua vivo, atualíssimo. Vamos aos seus versos: “O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato, e do remédio dependem das decisões políticas. // O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância políptica, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio dos exploradores do povo” (3).

Nada nos impede que façamos uma reflexão sobre essas palavras. cuja republiqueta brasileira insiste em manter vivos os vícios políticos do passado, dos analfabetos políticos, por ainda acharem que os acontecimentos nacionais (ou não) não são imutáveis.

Notinha útil – no dia primeiro deste setembro, o jovem Heitor, que ontem fez uma visita aos avós paternos no interior de Pernambuco, completou mais um mês de aniversário. Ao mesmo, o Facetas deseja muita saúde e vida longa.

Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.

Fontes consultadas: 1. A santa Joana dos matadouros, – RJ: Paz e Terra, 1996; 2. ermiracultura.com.br; http://www.pensador. com

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