Na semana passada, os veículos lembraram dos 40 anos da morte de Câmara Cascudo. Falecido no dia 30 de julho de 1986, em Natal (RN) aos 87 anos. Ele se foi, mas o seu legado cultural permanecerá entre nós, por muito tempo.
“Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), viveu a vida toda em Natal, onde o povo o chamava de o homem-que-sabe-de-tudo. Etnógrafo, Antropólogo, Historiador, Romancista, Poeta e Folclorista, não gostava do termo folclore. O certo para ele era cultura popular. Nome de rua em vida, dizia: “Sou o único rio-grandense-do-norte que não pode negar a idade, porque ela está marcada na porta da minha casa”. Acontece que o poder público o homenageou com placa de bronze na fachada, com a data de seu nascimento: 30 de dezembro de 1898. No mês do folclore, homenageamos o homem que entendeu a alma do brasileiro” (1).
A seguir, trechos de depoimentos desse mestre a jornalistas da Folha de São Paulo, Veja e TV Cultura, entre 1972 e 1979. Ele fala de sua infância doentia, do porquê de seu nome, da cultura popular, da Amazônia, do Brasil, enfim.
Foi o terceiro filho – e o único sobrevivente – de Francisco Justino de Oliveira Cascudo, tenente de polícia, e Ana Maria Câmara Cascudo. “Me chamo Luís em homenagem a Luís, o rei da França”. E Cascudo? “Sou de famílias tradicionais do Norte de Portugal, e da ilha de São Miguel dos Açores, vindas para o Rio Grande do Norte no começo do século 18. Sou Cascudo, simplesmente, porque meu avô paterno era um dos chefes do Partido Conservador, que tinha o apelido de Partido Cascudo, quer dizer, teimoso, obstinado, e deram para chamar meu avô o “velho Cascudo”. Com sou filho único, para não desaparecer o título comecei a usar também” (1)
“Fui criança profissionalmente enfermiça: pálido, doente, com pulmões suspeitos. Nunca corri, nunca subi numa árvore, nunca brinquei livremente, passava a vida sentado vendo figuras e jogos parados. Não tive companheiros na infância, fui uma criança de livros e de figura e ver a paisagem que se transformou numa paisagem humana, e aí começa o mistério da vocação. Sempre amei as histórias contadas pelas amas e pelos espetáculos populares: a feira, o mercado, as procissões” (1).
Aos 20 anos Cascudo se inicia como professor (“faço questão de ser tratado por esse vocábulo que tanto amei: professor”) e segue como tal por mais de 50 anos, cuja preocupação maior “era dar a disciplina como matéria útil, diária, e não como decoração a ser dependurada na sala de aula. Eu me misturo com as pessoas – principalmente alunos – para aprender alguma coisa” (1).
O que é cultura popular? “É aquele que até certo ponto nós nascemos sabendo. Qualquer um de nós é mestre, que sabe contos, mitos, lendas, versos, superstições, que sabe fazer careta, apertar a mão, bater palmas e tudo quando caracteriza a cultura anônima e coletiva” (1).

Sobre índio e Amazônia, responde: “Os índios são os donos da casa. Sou apaixonado por eles. O mal é torná-los brasileiros sem ajudá-los ao momento presente em que eles largam as malocas amazônicas e mato-grossense e vão para Brasília ser funcionários públicos. O índio integrado deixa de ser índio”.
O desmatamento da Amazônia para salva a nossa dívida externa faz-me lembrar do sujeito que vendeu o automóvel para comprar gasolina. Sem mata, vem a erosão, vem a terra que não produz, vem a mudança do clima” (1).
Por fim, surge a pergunta central: Como vai o Brasil? “O Brasil vai tão bem que os políticos não puderam acabar com ele. Todo mundo diz que está à beira do abismo, mas acho que a minha pátria está numa das melhores situações. Pelo seu povo. Pela alegria do seu povo, pelo poder de desorganização do seu povo. O brasileiro dá nó em pingo d’água. De maneira que não tem jeito pra ele. […] O que acho que define o homem brasileiro é a rapidez da sua adaptação. É a sua miscigenação mental. O pau-de-arara (nordestino), quatro anos depois em São Paulo, é tão paulista como o caipira de Santos ou de Piracicaba. No Amazonas ninguém pode diferencial o cearense (arigó) de um local. Assim vejo a facilidade de adaptação do brasileiro em toda parte: em Portugal, na Espanha, na França, só são diferentes a pele e a pronúncia, mas os hábitos, e as interjeições, o andar, são impecáveis” (1).
Como diz o escritor José Lins do Rego: “Mestre Cascudo é o único folclorista que não mente!” Essa verdade, torna as pesquisas que resultaram em livros do estudioso em questão sempre vivas, sempre atuais. Apesar de 40 anos depois de sua eterna partida, essa é a dica deste blog para seus leitores: Luís Câmara Cascudo.
Notinha útil – Amanhã – segundo domingo de agosto -, é uma data muito especial: Dia dos Pais. A todos dedicamos estes inesquecíveis versos do poeta gaúcho Mário Quintana: “Porque há nas tuas mãos,/Meu velho pai/Essa beleza que se chama simplesmente vida’.
Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros. Col. de Priscila.
Fontes consultadas: 1. Almanaque Abril de cultura popular, SP: MKT/TAM, 2005; 2.Foto acima. Charge “Sorriso Pensante”/2010, de Ivan Cabral.