“Eu vou pensar que é festa vou dançar, vou cantar é minha garantia” (Agonia/1980, de Mongol
Em março deste ano, o cantor, compositor e instrumentista carioca Oswaldo Montenegro, completou 70 anos de vida e continua cada vez mais engajado com a música. Cantar é a sua garantia, como compôs seu amigo Mongol. Não há como não ficar encantado com a sua arte. Ele é, portanto, um dos maiores nomes do cancioneiro brasileiro.
Em 1993, ele lançou o disco “Seu Francisco” com músicas de Chico Buarque e parceiros músicos, originalmente gravadas entre 1966 a 1984. Como: A Banda, Roda Viva, Baioque, Fado Tropical, Construção, O Que Será, entre outras. Trabalho impecável. Tem mais: gravado ao vivo.
Para abrilhantar ainda “Seu Francisco”, o renomado produtor musical Ermínio Bello de Carvalho, registra as seguintes palavras, no encarte do citado CD: “A obra de Chico Buarque é uma tábula e também um manual de invenções, verdadeiro almanaque desses antigos que, ao ser torneado, se revela um cofre de surpresa. É, ainda, álbum de figurinhas, casinha de música, caleidoscópio onde vários espelhos estilhaçados multiplicam desenhos variados e simétricos. E por que não? Um longa-metragem, que em preto e branco ora numa policromia delirante, sequência de filmetes onde faz desfilar estórias com uma narrativa fluída, teatral – não fosse Chico Buarque, além de tudo -, um escritor de enorme talento. Conceituar um espetáculo a partir de uma obra tão diversificada quanto vasta, exige-nos um profundo mergulho nesse verdadeiro compêndio de criação. Nele, o poeta faz o exercício do despistamento, traçando contrapontos há a sua rede de reflexões, armando alçapões a cada verso, num jogo ritualístico de ciladas que ele dispõe maniqueísticamente. É o poeta lírico e amoroso e sensual que se transpõe, sem qualquer pudor, para a tênue pele feminino.
À flor dos ossos, nos faz conjugar todos os verbos ligados ao amor e à paixão, além de todas as vertentes que fluem/refluem desses sentimentos. O humor, o dedo-na-cara denunciador de iniquidades, os já aludidos despistamentos que ele cifra em códigos num carteado de palavras – esse é o “Seu Francisco” que trouxemos para o nosso espetáculo: profeta, sinalizador, visionário, criador de personagens ambíguas, catados no lixo da humanidade, arquiteto de uma rara tipologia humana que funde anjos e demônios, pivetes, prostitutas, trabalhadores e mercenários – e o mais que se possa imaginar nesse painel permitindo-nos injetar citações de outros grandes mestres. A música de Patópio Silva (1880-1907), por exemplo, é coreto, pracinha de cidade do interior – tudo aquilo que a “Banda” evoca. As demais citações guardam essa mesma perspectiva. Cada um decifrará esse jogo a seu modo.
Eis aí, enfim, o conceitual do espetáculo: uma tábula para que cada um se exercite na sua adivinhação desses jogos lúdicos, navegando nesse mar de ricas sugestões maquinadas pelo poeta. As regras desse divertimento estão dispostos em blocos temáticos, os arranjos pontuando as intenções de cada fotograma que Chico Buarque nos forneceu ao longo de sua obra cinética.

“Seu Francisco” é um recital minimalista, quase camerístico. Chamaria a atenção para o trabalho instrumental desenvolvido por Montenegro e seu colega de palco, o multi-instrumentista de cordas e também arranjador Sérgio Chaiavazzoli (violão, guitarra, midi, bandolim, banjo e caixa de fósforos).
O título do espetáculo guarda duplo sentido: é pronome possessivo (o Francisco meu, seu, nosso), e também a forma reverencial que se reserva àqueles que iguais a Seu Francisco Buarque de Hollanda, são donos de profundo saber e portadores de dons e sentidos incomuns. Enfim, um dos poetas que melhor traduziram o sentimento do povo e que mais dignificaram a língua portuguesa, dicionarizando-a com a mais desbragada e alucinada emoção” (1).
Se se ouvir Montenegro interpretando as suas próprias composições (individuais ou em parcerias) nos remetem a um estágio de grandeza, imagina-se ouvi-lo cantando as músicas de Buarque, seu repertório fica então, completíssimo. Ouça-o e você confirmará o que diz acima Hermínio, a verdadeira tradução musical da nossa língua.
Por Angeline e F. Gomes e W. Barros. Colaboração de Priscila Gomes.
Fonte consultada: 1. CD “Seu Francisco” de Oswaldo Montenegro, SP: Philips/PolyGram, 1993.