Drummond e Carlito, juntos na poesia

Passado mais de um século de sua criação (e aparição nas telas mundiais), ele continua vivo nas mentes e corações das crianças de ontem e dos adultos de hoje. Estamos falando de Carlito. Um dos maiores fenômenos do cinema. Considerado por muitos como: “Carlito é um milagre…” Por exemplo, o renomado jornalista carioca Octavio de Faria (1908-1980), escreveu, nos anos 1960, este texto sobre o bom poeta, e de bengala:

“É nesse universo dividido (de intensa crise, moral e artística), em pleno desenvolvimento da Primeira Grande Guerra Mundial – 1914) e incerto, contraditório, que chegam as primeiras “imagens” da mensagem de Chaplin… A ilimitada compreensão e aceitação do novo fenômeno, da nova realidade artística: Carlito, criação com que o gênio Chaplin brindou o mundo de sua conturbada época” (1).

“Na obra de Chaplin, Carlito aparece ninguém sabe nunca de onde, nem como. Surge, sempre irrompendo de qualquer parte, despontando num canto de rua, numa curva de caminho, de uma multidão qualquer. Absoluta simplicidade, absoluta verdade, absoluto abandono de tudo o que acaso seja artifício, hipocrisia, convenção, mentira. Em síntese, e como verdadeiro símbolo: o pontapé de Carlito no traseiro da polícia” (1).

Tem mais: o menino brasileiro, o mineiro Carlos (Drummond de Andrade), nascido em Itabira, tinha apenas 12 anos de idade quando Carlito surgiu – em 1914 – para fazer o mundo sorrir, apesar das tais circunstâncias… Em meados dos anos 1960, já homem feito, poeta consagrado, cronista brilhante, Drummond dedica um poema “A Carlito”, cujos admiráveis versos foram publicados no seu livro Lição de Coisas. A seguir, a sua íntegra em cinco estrofes:

“Velho Chaplin:/as crianças do mundo te saúdam./Não adianta te esconderes na casa de areia dos setenta anos,/refletida no lago suíço./Nem trocares tua roupa e sapatos heroicos/pela comum indumentária mundial./Um guri te descobre e diz: Carlito/CARLITO – ressoa o coro em primavera. // Homens apressados estacam. E readquirem-se./estavas enrolado como bola de gude de quinze cores,/concentração do lúdico infinito./Pulas intato da algibeira./Uma guerra e outra guerra não bastaram/para secar em nós a eterna linfa/em que, peixe, modulas teu bailado. // O filme de 16 milímetros entra em casa/por um dia alugado/e com ele a graça de existir/mesmo entre os equívocos, o medo, a solitude mais solita./Agora é confidencial o teu ensino,/pessoa por pessoa,/ternura por ternura,/e desligado de ti e da rede internacional de cinemas,/o mito cresce. // O mito cresce, Chaplin, a nossos olhos/feridos do pesadelo cotidiano./O mundo vai acabar pela mão dos homens?/A vida renega a vida?/Não restará ninguém para pregar/o último rabo de papel na túnica do rei?/Ninguém para recordar/que houve pelas estradas um errante poeta desengonçado,/a todos resumindo em seu despojamento? // Perguntas suspensas no céu cortado/de pressentimentos e foguetes/cedem à maior pergunta/que o homem dirige às estrelas./Velho Chaplin, a vida está apenas alvorecendo/e as crianças do mundo te saúdam” (1).

Senhores leitores, não adianta mesmo Carlito achar que pode se esconder em algum lugar, algum lago, alguma galeria. Ele continua vivo na memória de cada um dos seus fás. É possível que o seu “lúdico infinito” esteja em cada um de nós. CARLITO É UM MILAGRE…

“Carlito: um cavalheiro, um poeta, um sonhador – sempre a espera do amor” (Chaplin)

Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.

Fonte consultada: 1. Charles, Chaplin. História da minha vida. – RJ: José Olympio Editora, 1965.

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