Já comentei aqui que tive um professor de Língua Portuguesa e de Literatura Brasileira e Portuguesa muito exigente. Era o irmão marista Alberto Girardi (membro da Congregação de Maria. Daí, o nome marista. Para quem não os conhece são  educadores católicos). O ano era 1979. Oitava série do primeiro grau (hoje ensino fundamental). Lábrea (AM), uma cidadezinha plantada em plena selva Amazônica, às margens do rio Purus, distante mais de 700 quilômetros de capital Manaus, onde a escassez de livros didáticos era uma constatação. Mesmo assim, o temido mestre conseguia livros – de leitura e pesquisa – para todos os seus alunos.
Ele entrava na sala e logo dizia: “Os alunos de números pares (com a famosa pagela na mão), vão fazer um resumo dos livros ora distribuídos (A escrava Isaura, Meu pé de laranja lima, O seminarista, O cortiço, Dom Casmurro, Canaã, Meus poemas preferidos, etc); os alunos de números ímpares, vão fazer uma pesquisa sobre poetas e escritores (Gonçalves Dias, Castro Alves, José de Alencar, José Lins do Rego, Machado de Assim, Carlos Drummond, Fernando Pessoa, Eça de Queirós, etc),  seja do passado, seja da atualidade”.  

A mim coube pesquisar sobre um tal José Bento, cujo tema já vinha escrito pelo professor: “O HOMEM QUE ACORDOU O BRASIL”. À época, a datilografia era um luxo, como hoje são esses aparelhinhos exibidos todo instante ( e diferentes dos livros, é claro). Sem crítica. Mas, fazer um trabalho escolar datilografado era  sinônimo de organização, de originalidade. Meio com medo, perguntei: ‘Irmão, posso apresentar a atividade datilografada?’ “Sim. Desde que não ultrapasse a duas laudas  e sem rasuras”. Laudas? 
Primeiro fui procurar saber quem era ou quem fora José Bento no meio literário. Depois, fui reunir os livros necessários para entregar uma pesquisa de qualidade. Assim o fiz. Agora, 40 anos depois, encontrei no meu pequeno arquivo, a cópia do referido estudo. Leiamos, a seguir, como ficou seu conteúdo:
“O homem que acordou o Brasil”
José Bento Monteiro Lobato (1882-1948), nasceu em Taubaté, no Estado de São Paulo, em 18 de abril de 1882. Filho único da família, cujo nome era para ser igual ao do seu pai: José Bento. Porém, foi registrado como José Renato. Aos 11 anos de idade, a própria criança se encarregou de reparar a diferença, quando então, passou a se autodenominar José Bento Monteiro Lobato. E assim se chamou até morrer. 

Infância feliz. Sem travessuras. Aos 13 anos é mandado pelo avô para a cidade de São Paulo, onde concluiria os primeiros estudos. A essa altura já havia perdido os pais. A morte precoce dos mesmos pós fim a infância do garoto José Bento (como gostava de ser chamado), pois não seria uma tarefa fácil chegar à maturidade sem esse essencial suporte familiar, tendo por perto pai e mãe. Porém, foi à luta.

A princípio, queria ser pintor. Mas, por insistência do avô, entrou para a Faculdade de Direto aos 18 anos, em 1900. Formando-se em 1904. Logo voltou para a terra natal. “Em casa” conheceu uma jovem com quem se casou: Maria Pureza da Natividade e com ela viveu durante 40 anos e tiveram quatro filhos: Martha, Guilherme, Ruth e Edgar. Homem de personalidade muito rica. Era Juca para a família; simplesmente Lobato para os amigos. O presidente Getúlio Vargas, que o mandaria à prisão política em pleno Estado Novo (por 6 meses, cumpriu 3 deles) em 1941, só o chamava de Doutor Monteiro.

Foi Promotor de Justiça em Areias (SP) e posteriormente fazendeiro na localidade de Buquira (SP). Escreveu para a Revista do Brasil; para publicar as suas obras, fundou uma editora, a qual, alguns anos depois, foi transformada em Companhia Nacional. Lobato passou uma temporada em Nova Iorque, como adido comercial. Quando de volta ao Brasil, encetou as campanhas do Petróleo e do Ferro. Depois seguiu para uma temporada na Argentina. 

É vasta a sua produção literária. Escreveu livros para os públicos adulto e infanto-juvenil. Alguns de suas obras são: Contos Urupês, Cidades mortas, O escândalo do petróleo, Emília no país da gramática, etc. E também uma série infantil: O poço do Visconde, Hans Standen, Ideias de Jeca Tatu, etc. Além da edição de livros  de Filosofia e de Sociologia.

Tanto no Brasil como no estrangeiro, seu trabalho literário teve grande repercussão. Por exemplo, um dos seus artigos contra um “urumbave” que lhe havia ateado fogo em sua fazenda, suscitou a opinião nacional por causa do “Jeca Tatu”, ou seja, nome que o autor criara para referir-se ao caipira subnutrido e indolente. Porém, esse assunto foi acolhido por Rui Barbosa com seus louvores ao Urupês. O escritor sempre foi considerado irreverente com as autoridades e convencionalismos sociais. Sua literatura infantil tem muito de instrutivo e amenidade. Mas, não deixa de ter seu lado corrosivo, pois com insistência, o que parece aceita, instala a doutrina evolucionista, e sempre aponta o lado falho e obscuro da humanidade decaída. 

Assim, ele foi moldando o seu estilo, o qual é de um realismo impressionante, cujo linguajar de seus personagens reflete claramente os termos e modismos utilizados diretamente entre o povo brasileira, isto é, das camadas mais pobres, dos matutos, dos jecas. Aí está a razão do fascínio nacional, que tornou sua obra de grande popularidade de norte a sul do país.

Independente do seu lado polêmico contra isso ou a favor daquilo, com a publicação dos seus artigos, Lobato nada mais foi que apenas um escritor que dedicou décadas de sua vida ao ofício de  ensinar a milhões de brasileiros o prazer da leitura. Isso o fez ser um dos maiores homens de ação deste país. Sua vida profissional demonstrou isso. Muito embora, as suas ideias jornalísticas e literárias tenham sido duramente contestadas por muitos dos seus pares (escritores,pintores, críticos, poetas, etc), ou não (políticos, governantes, etc). 

O conjunto de suas ideias reunido em letras é algo magnífico – com 23 livros para crianças e 17 para adultos -, assim como grande e intensiva é a aventura pela criação dos seus textos. Se era pequeno na estatura, foi um gigante ao desencadear tantos movimentos fundamentais para a nação brasileira, como: a criançada, a indústria editorial e a campanha obsessiva para a produção de ferro e petróleo em solo verde e amarelo.

A concepção e publicação de seus livros, eram apenas consequências – naturalmente – de suas decepções como cidadão. Monteiro Lobato desiludiu-se com o Brasil adulto depois de ter sido incompreendido, perseguido, atacado e preso.  Na sua última entrevista, disse lamentar amargamente não ter escrito muito mais para crianças, que, afinal, fariam do Brasil, o país do futuro. Como um profeta das ideias literárias assegurou: “Um país se faz com homens e livros”, ou seja, homens públicos honestos e livros que instruíssem os brasileiros para que fossem banidos a corrupção e o analfabetismo, duas das piores nódoas nacionais entre a República Velha e o Estado Novo de Getúlio Vargas. – tempo da vivência e dos estudos de Lobato.

Porém, qualquer um, independente de sua posição social, que ousasse se indispor contra o governo, manifestando seus pensamentos políticos ou filosóficos, seria considerado inimigo do poder. Com o escritor não foi diferente: como cidadão, negociante, cronista, romancista, o imortal criador do retrato do Brasil, SÍTIO DO PICA-PAU AMARELO, morreu pobre em 04 de julho de 1948, quando restavam-lhe apenas alguns meses para completar 66 anos de vida. Para a família – pequena e em vias de extinção – nada pode deixar de bens materiais, além de seus direitos autorais. Mas deixou sua vasta e verdadeira herança (cultura imaterial; conhecimento humano) é de valor incalculável. Esse é um pedacinho do feito do caipira do vale do Paraíba,o qual  acordou um gigante chamado Brasil, para o desenvolvimento industrial, comercial, agrícola, e, acima de tudo, para o da educação. Isso em plena década de 1940 (1).
Não precisa ser mestre em literatura para perceber-se o quanto é simplório o resumo biográfico ora apresentado. Mas, levando-se em consideração alguns fatores para sua produção, foi uma pesquisa para lá de válida, tais como: 1. Ano: 1979; 2. Lugar: um pequeno vilarejo longe de tudo e de todos; 3. Fontes para pesquisa: livros eram uma raridade;  e 4. Escolaridade: 8ªsérie  do 1º grau, onde cada trabalho poético, biográfico ou de prosa apresentado ou lido na sala de aula, era uma “festa”. Tem mais: tudo isso ocorrido há exatos 41 anos – abril de 1979. Percebe-se claramente o quanto as metodologias da educação evoluíram muito de lá para cá; como milhões de estudantes brasileiros perderam o interesse escolar, também é fato. É triste e lamentável!
Portanto, no próximo dia 04 de julho, no mínimo, o Brasil deverá celebrar  os 72 anos da morte desse ilustre brasileiro. E hoje, dia 18 de abril de 2020, serem lembrados os 138 anos do seu nascimento. Mas, o Facetas está aqui para homenagear a memória do autor de Urupês com trecho de JECA TATU:
                                    Pobre Jeca Tatu! Como és bonito no romance e feio na realidade!
                                    Jeca mercador, Jeca lavrador, Jeca filósofo…
                                    Quando comparece às feiras, todo mundo logo logo advinha o que 
                               ele traz: sempre coisas que a natureza derrama pelo mato e ao homem
                               só custa o gesto de espichar a mão e colher.
                                    Nada mais.
                                    Seu grande cuidado é espremer todas as consequências da lei do 
                                do menor esforço – e nisto vai longe. 
                                    Começa na morada. Sua casa de sapé e lama faz sorrir aos bichos 
                                que moram em toca e gargalhar ao joão-de-barro. Mobília, nenhuma. 
                                    Às vezes se dá ao luxo de um banquinho de três pernas – para os 
                                hóspedes. Três pernas permitem equilíbrio; inútil, portanto, meter a
                                quarta, o que o obrigaria a nivelar o chão. Para que assentos, se a 
                                natureza os dotou de sólidos, rachados calcanhares  sobre os quais se 
                                sentam?
                                    Nenhum talher. Não é a munheca um talher completo – colher,
                                garfo e faca a um tempo?
                                    Seus remotos avós não gozaram maiores comodidades. Seus 
                                 netos não meterão quarta perna ao banco. Para quê? Vive-se bem 
                                 sem isso.
Passados 100 anos do lançamento da obra Urupês – é de 1919/1920, é possível encontrar Brasil afora algum Jeca com as características descritas por Lobato? E aqui, pela a Amazônia Brasileira, é possível identificar algum Jeca caboclo? Enquanto surgirão as respostas, esses questionamentos suscitarão um outro artigo sobre esse tema, ou seja, novas gerações de Jecas brasileiros.
Quanto a mim caboclo que sou e a meus ex-colegas daquele Ginásio Estadual Santo Agostinho, aprendizes que fomos do mestre Alberto Girardi – e outros irmãos maristas – somos gratos pelos ensinamentos percebidos, não somente pelo aprendizado das letras que nos tiraram do fosso do analfabetismo, mas essencialmente pela manifestação – em cada um de nós – da religiosidade, da honestidade, da ética, da moralidade, etc para toda a nossa vida.
Notinha de pesar – Nesta semana, o Brasil perdeu o senhor Antônio Carlos Moreira Pires (1947-2020), mas o artista Moraes Moreira, não. Seus versos e sua voz hão perdurar para sempre. Ele será eternamente o “folião do Brasil”, ou melhor, o “baiano de todos os ritmos”. “Moraes Moreira é um liquidificador musical. Ele adquiriu, há anos, a capacidade de juntar os ingredientes – uma pitada de frevo aqui, um pouco de samba ali – e obter um resultado sempre homogêneo. Tão pessoal que, ouvindo suas canções, pode-se até mesmo vislumbrar o tradicional bigodinho e a vasta cabeleira” (3).
Pesquisa e texto por Francisco Gomes
Arte por Winnie Barros
Fontes
1. À época, não citei as obras pesquisadas.
2. Português de olho no mundo do trabalho: volume único/Ernani Terra, José De Nicola. – SP: Scipione, 2005. p. 475.
3. De Márcia Blasques, in MPB Compositores, volume 22, Editora Globo/RGE Discos, 1997.
4. Imagem1: Correio Braziliense  
5. Imagem 2: In Vivo