Durante o primeiro bimestre de 2020, eu e mais uns quarenta colegas da instituição onde trabalhamos, participamos do Curso de Atualização e Capacitação Profissional. Entre as diferentes disciplinas curriculares não podia faltar a de língua portuguesa. Quando das atividades avaliativas  (uma delas), o professor nos solicitou a apresentação de uma pesquisa individual sobre o tema: “A importância da comunicação e o correto uso da língua portuguesa“.
Primeiro, achei a temática proposta interessante e necessária, é óbvio. Interessante porque só se percebe os reais valores da comunicação de maneira correta, clara, quando somos cobrados. Necessária porque tudo no mundo do trabalho, dos negócios, é muito dinâmico no dia a dia das pessoas, principalmente daquelas que lidam com o público, ou melhor, atendem ao público. Segundo, fui reunir as obras que abordam o tema em questão (livros. Nada de “coisa” pronta na Internet. Sem crítica, apenas um ponto de vista). Terceiro, apresentei o seguinte trabalho – com algumas adaptações.
Obviamente que foi, com o passar dos séculos, e, por necessidade cada vez maior de sobrevivência, que o homem conseguiu criar meios, símbolos e signos de linguagem para que houvesse um aceitável entendimento entre os indivíduos, as aldeias, as comunidades, apesar de seu caráter primitivo. Assim, a humanidade chegou à atualidade, onde tudo é moderno, é contemporâneo, ou quase tudo. Deixando para trás a indecifrável Babel das línguas, dos dialetos, citada nos ensinamentos bíblicos.
Consulte-se qualquer um dos mais destacados  filólogos brasileiros, e ele dirá que linguagem e comunicação são semelhantes na sua finalidade, como o são irmãs gêmeas, ou seja, há muitos pontos em comum entre as mesmas, apenas uma linha ténue as separa. Vamos, então, definir linguagem e comunicação:
a) Linguagem – é a “facilidade humana da comunicação por meio de signos orais e escritos, cujos significados são convencionalmente estabelecidos para codificar ou descodificar dados”. Quem nos garante é o estudioso do assunto, o professor Evanildo Bechara. É dele, também, a seguinte observação: “Um povo com o seu idioma não vive sozinho no mundo; o comércio das ideias e da cultura aproxima as nações, que passam a mutuamente receber e oferecer contribuições de um e de outro lado. As contribuições se refletem nas palavras, cujas origens denunciam esses contatos” (1).
Por sua vez, o pesquisador linguístico, Aurélio Buarque, dando continuidade ao raciocínio de seu colega, nos ensina que linguagem é “o uso da palavra articulada ou escrita como meio de expressão e de comunicação entre pessoas” (2). Afirma ainda, que a linguagem tem uma variável muito vasta. Só para exemplificar, entre outras modalidades, cita-se a: afetiva; articulada; artificial; auditiva; cognitiva; corporal; figurada; falada; gestual; lúdica; natural entre outras.
O mais apropriado seria fazer aqui uma abordagem sobre cada modalidade. Mas, por questão do vasto conteúdo, limito-me apenas a linguagem natural, a qual representa, e por seu intermédio, permite que as pessoas se comuniquem mútua e naturalmente no processo de socialização. Sendo cada sociedade dentro do estágio ideal para que possam compreender e serem compreendidas. 
b) Comunicação – é o “ato ou efeito de comunicar-se: emitir, transmitir e receber mensagens, avisos, métodos, que por meio da linguagem falada ou escrita, que por meio de aparelhamento técnico especializado”, etc. Essa é a posição de nomes como Cegalla, Bueno, Bechara, Saraiva, Buarque, entre tantos outros, que convergem para a mesma vertente do conhecimento linguístico, isto é, do ato da comunicação, cuja palavra é derivada do latim communicatione. Que, quer dizer, também, ser
“a ação de usar os meios necessários entre os agentes emissor e receptor com o objetivo de garantir a informação e realizar a comunicabilidade para que possa haver entediamento de maneira compreensiva entre os mesmos” (3). 
Uma ordem de linguagem, comando, cuja comunicação dar-se-á pela inter-relação entre os indivíduos, resulta, inevitavelmente, na troca de informações (no plano, ou contato natural da vivência). Sabe-se ainda que a comunicação pode ser direta, inter persona, ou por meio de instrumentos técnicos disponíveis, haja vista, que praticamente oito bilhões de pessoas habitam a Terra em plena era informacional do capitalismo, muito distante (parece) do século passado, ou seja, da era do rádio, do telefone, do telégrafo, da carta escrita, do mensageiro, entre tantos outros meios que eram utilizados.
Um dos mais aclamados mestres da nossa língua, Domingos Cegalla, nos ensina que “o conjunto de meios técnicos de comunicação”, chega onde quer que haja mais de uma pessoa e que não estejam isoladas dos meios de transportes, sejam eles fluvial, marítimo, rodoferroviário ou aéreo, haverá transmissão de informações para facilitar a capacidade de interação dos seres, desde que a linguagem empregada seja clara e correta, principalmente. 

“No processo de comunicação oral ou escrita, quando se fala em linguagem correta, fala-se em linguagem adequada ao contexto de produção. Por exemplo, ao comentarmos sobre um filme com amigos, utilizamos uma linguagem diferente daquela a que recorremos quando solicitamos ao diretor da escola um novo computador para a biblioteca. Asim, as opções de linguagem que selecionamos vão depender:  do local, do momento em que se dá a comunicação, do tipo de interação entre os interlocutores (emissor e receptor), do espaço onde se dá a interação, do papel social representado pelo emissor (aluno) e receptor (diretor da escola), do efeito que pretendemos provocar no interlocutor, assim como do assunto, ou seja, aquilo que pode ser dito por meio do texto (oral ou escrito) empregado no ato da comunicação” (4).
Quem não se capacitou para desenvolver uma comunicação em linguagem habilmente correta, não está, portanto, excluído da participação social direta, apenas terá menos discernimento dos acontecimentos, dos fatos. Nem é este o objetivo do presente estudo (o da inferioridade). Não é deixar de fora do todo, aquele que não tem domínio mínimo para falar ou escrever corretamente como determinam as normas técnicas aplicadas ao idioma, por princípios legais. 
Carlos Drummond (1902-1987), autor desses inconfundíveis versos: “Lutar com palavras/é a luta mais vã./Entretanto lutamos/mal rompe a manhã“, considerado um dos maiores poetas do Brasil, empregava, tanto na sua prosa quanto na poesia, o coloquialismo. Enquanto que o ex-presidente Jânio Quadros (1917-1992), professor catedrático do nosso idioma, autor das significativas obras do Curso Prático da Língua Portuguesa e sua Literatura, de 1966, empregava o tecnicismo. O poeta, usava uma linguagem do povo; mais compreensível. O presidente, uma linguagem castiça, tanto na oralidade oficial como na escrita oficial entre seus ministros ou entre os chefes de Estado com os quais contactava. Não há,  no entanto, nada de anormal nos dois exemplos emitidos. Trata-se de estilos diferentes, apenas.
Não há, contudo, como ser diferente: o nosso idioma é para ser utilizado corretamento por todos os brasileiros – natos e naturalizados – acima de tudo por aqueles que dependem dele para o exercício de seu ofício (suas tarefas; a labuta do dia a dia). É claro que não deve haver excesso de zelo para tal. Mesmos os pequenos erros cometidos por esse ou aquele emitentes devem ser corrigidos. Aquela máxima: “Errar é humano!”, não se aplica a todos os conceitos e definições falhas, que cometemos na vida. Também não devemos sair por aí corrigindo de forma veemente minúsculos deslizes linguísticos. Mas, não se pode deixar que tais vícios se alastrem. É indispensável que saibamos distinguir a linguagem técnica da linguagem corriqueira. 
Outro poeta, o Olavo Bilac (1865-1918) costumava  dizer que a ninguém cabe a ousadia de ferir de morte o seu idioma pátrio, só por alegar desconhecer as regras da boa linguagem e da compreensível comunicação entre pessoas. A linguagem verbal faz uso das palavras; a escrita idem (cifrada ou não). Outras modalidades – variáveis- só sobreviverão por meio dos signos, dos símbolos, dos sinais, dos gestos, etc para ser exercitada com regras e técnicas. Sem as mesmas é impossível…
E, para finalizar, nada melhor do que a leitura do soneto de Bilac: LÍNGUA PORTUGUESA
Última flor do lácio*, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…
           Amo-te assim, desconhecida e obscura.
           Tuba de alto clangor, lira singela,
           Que tens o trom e o silvo da procela, 
           E o arrolo da saudade e da ternura!
                     Amo o teu viço agreste e o teu aroma
                     De virgens selvas e de oceano largo!
                     Amo-te, ó rude e doloso idioma,
                                Em que da voz materna ouvi: “meu filho!”,
                                E em que Camões chorou, no exílio amargo, 
                                O gênio sem ventura e o amor sem brilho!
* “No Lácio, falava-se idioma que originou as línguas neolatinas, dentre elas, o português. À sugestão vegetal “Flor do Lácio” (português), seguem-se imagens minerais: a língua como matéria-prima para produzir comunicação. Adiante, o som grave da tuba e a delicadeza da lira sugerem a maleabilidade da língua, instrumento capaz de expressar tristeza ou alegria, palavras de consolo ou discursos eloquentes (vide § que fala de Drummond X Jânio)” (5).
Para que não paire qualquer dúvida, não há aqui crítica alguma àquele que discordar do emprego correta da língua portuguesa. O objetivo foi atender a proposta do professor do citado Curso de Agentes Públicos, seja no exercício da função ou não. A pesquisa foi um novo aprendizado para seu autor sobre o “rude e doloroso idioma”. Assim, espero que todos gostem desta prazerosa leitura.
Perguntinha útil – No próximo dia 28 deste mês, comemora-se o Dia da Educação. “Educação escolar, social ou familiar para a construção de valores essenciais na vida em sociedade e do convívio saudável com outros indivíduos”. O Brasil está fazendo o dever de casa, como manda o artigo 205 da CF/88?
Pesquisa e texto por Francisco Gomes
Arte por Winnie Barros
Fontes
1. Bechara, Evanildo. Minidicionário da língua portuguesa. – RJ: Nova Fronteira, 2009.
2. Ferreira, Aurélio B. de Holanda, Novo dicionário da língua portuguesa. – 4 ed. – Curitiba: Positiva; 2009
3. Cegalla, Domingos Paschoal. Dicionário escolar da língua portuguesa. – SP: Cia Editora Nacional, 2005.
4. Diálogo: língua portuguesa, 6º ano/Eliana Beltrão e Tereza Gordilho. – ed. renovada. – SP: FTD, 2009
5. Literatura comentada, volume  Olavo Bilac, por Norma Golsdstein. – SP: Abril Educação, 1980.
6. Imagem 1: Gellinger