Você sabe quem foi Heitor dos Prazeres? Não? Vamos saber juntos e aqui. Depois que li o fascinante livro-álbum Heitor dos Prazeres: sua arte e seu tempo sobre esse “criativo e inovador ícone cultural do Brasil”, achei por bem compartilhar com os nossos seguidores, um pouco de sua criação artística, da sua vida e acima de tudo da grande contribuição para a cultura popular brasileira.
Heitor dos Prazeres, nasceu a 23 de setembro de 1898, na cidade do Rio de Janeiro e ali morreu a 4 de outubro de 1966, aos 68 anos. Criatividade nunca lhe faltou. Aos 7  anos passou a seguir o mesmo ofício do pai: marceneiro; abandona os estudos primários; aos 8 anos já tocava cavaquinho, e para o qual criou um método de 16 posições; “aos 13 anos, é preso por vadiagem, tendo passado 2 anos na colônia correcional de Ilha Grande” (1). Nessa época faz as suas primeiras composições. Na década de 1920, participou da fundação das escolas de samba Portela e Mangueira. Em 1927, com Tristeza me Persegue, venceu um concurso de samba como compositor. Também compôs muitas  marchinhas carnavalescas. Teve como parceiro de Pierrô Apaixonado, Noel Rosa. Foi um grande sucesso. Teve  como intérpretes de suas letras os consagrados cantores: Francisco Alves e Mário Reis.
Com o compositor Sinhô, teve problema de caráter autoral. Juntos fizeram Gosto que me enrosco, mas seu nome não constava quando da divulgação da canção. Algum tempo depois, a querela foi resolvida entre eles amigavelmente e continuaram compondo juntos. Em 1931 decidiu afastar-se das escolas de samba e migrar para o rádio, onde abriu espaço e marcou época. Porém, continuou compondo marchas e sambas. Por exemplo, são de sua autoria: Lá em Mangueira; Olha Ele, Cuidado; O Rei de Meus Sambas; Estás Fartas de Falar da Minha Vida; Mulher de Malandro, etc. Esta última é tida como sua obra-prima. Em 1956, conseguiu gravar um disco.
Em 1937 iniciou-se na pintura primitiva, em cujo ramo artístico tornou-se um dos mais expressivos pintores nacionais contemporâneos, focalizando a temática do samba, dos malandros e das mulatas. “Sempre em cores e com temas extraídos das favelas, das ruas suburbanas e das zonas rurais“. No entanto, o reconhecimento oficial do seu talento demorou por vir. Mas veio! Em 1951, participou da I Bienal de São Paulo, onde foi premiado, sagrando-se um grande pintor. Inclusive são desse ano, estes versos de si para si, ou seja,  do sambista para o pintor:

                                                                                      Eu vou fantasiado de pintor
                                                                                      Eu vou para São Paulo
                                                                                      Eu vou para a Bienal
                                                                                      Eu quero ficar bem original
                                                                                      E lá eu vou fazer meu carnaval.
                                                                                      Um cavalete, oi
                                                                                      Uma paleta, oi
                                                                                      E um modelo bem original
                                                                                      E lá eu vou fazer meu carnaval. 

Foi a partir de 1957 que passou a participar de algumas coletivas de pintura, fora e dentro do Brasil. Esteve em: Lima, Santiago, Buenos Aires, Paris, Londres, Viena, Moscou, além de outras cidades europeias. “Ao mesmo tempo, e com sucesso crescente, fez exposições individuais”, no Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Salvador. Em 1966, ano de sua morte, representou o Brasil, em companhia de Rubem Valentim e Agnaldo Santos, no I  Festival Mundial de Artes Negras em Dacar, Senegal, África. “Foi funcionário do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e do Ministério da Educação e Cultura” (1).
Heitor foi “um brasileiro simples, mas multitalentoso e versátil, que transformou as artes plásticas e música brasileira em expressões mais próximas da realidade do nosso povo” (2). Passado quase um século do surgimento de sua criação musical e arte plástica, ainda estão presentes nos dias atuais as quais  refletem muito bem o  seu dom criativo. Assim, como aí estão artes de tantos outros autores que contribuíram (e contribuem) para a cultura popular (ou erudita) brasileira. 
“Esse foi Heitor dos Prazeres que, com sua particular elegância e porte altivo, era um príncipe africano em meio a simplicidade da cultura popular do Rio de Janeiro. Líder nato, artista talentoso e dono de um coração de ouro. Heitor exerceu com delicada perfeição cada uma das profissões que acolheu: pintor, compositor, carpinteiro, poeta, orador, coreógrafo, líder e defensor da cultura afro-brasileira. E conseguiu conquistar os corações de gente de todas as classes sociais do país, desde o mais simples engraxate até personalidades consagradas da inteligentzia nacional, como Carlos Drummond de Andrade e Rubem Braga” (2).
Haroldo Costa, encontrou as palavras certas para intitular seu prefácio na obra em análise: “Muito Prazer Heitor” e, apropriadamente faz este relato: “Quem observasse Heitor dos Prazeres caminhando pelas ruas do Rio de Janeiro, com sua elegância no trajar e seu ar de um totem africano pensaria estar diante de um redivivo ancestral de várias vidas e vindas. Antes que soubesse do seu talento e sua importância, já o conhecia através do relato de meu pai, que fora seu amigo nas noites alegres de Bento Ribeiro e adjacências, e que não se cansava de louvar sua veia artística e a liderança que ele exercia com tranquilidade” (2).
Ainda segundo Haroldo, certa vez, em abril de 1966, ele estava com o pintor, num voo rumo a Dacar, para o Festiva de Artes, onde seriam expostas suas telas, assim como apresentada a decoração interna e externa da Embaixada do Brasil no Senegal, “que se transformou numa obra de arte”. Eram vizinhos de poltronas e quando lhe disse de quem era filho, foi acolhido com um vasto sorriso do artista. Rolaram, a partir daí, muitas histórias ao longo da viagem: “Sambas roubados, figurinos audaciosos, disputa de mulheres, fundação de blocos carnavalescos, sucessos de composições que se tornaram clássicos. Mas, tudo com fidelidade, respeito e admiração, que fazem o retrato de corpo inteiro desse multiartista” (2). 
Ele quis dizer que Heitor era um artista no sentido mais amplo do termo e diverso, onde tudo fazia com naturalidade, ou seja, a mesma naturalidade “com que tratava versos, colcheias, tintas e pincéis”. Assim era ele. “Um homem brasileiro, carregando o seu avatar africano, não como um fardo, mas como uma áurea. Um homem que surgiu do nada e fez-se tudo. E de tudo. À excelência da criação de um ser dotado que não se poupou ao longo da vida” (2). Ele mesmo compôs – e costumava repetir: “Eu sou o povo e sou/um homem do povo./Vejo esse povo que/transporto pros meus/quadros como sinto“. 
“Foi pioneiro, desbravador, pagando, às vezes, o preço que pagam os piorneiros e desbravadores, mas obteve um saldo positivo. Transitando por vários círculos, plantando a semente de sua obra que, mais tarde, se revelaria de fundamental importância no contexto geral de nossas artes” (2), que ajudou, também, muitos outros brasileiros de seu tempo, fossem eles cariocas, ou não.
O Rio de um século atrás já apontava as visíveis transformações na política, na literatura, na música, etc. Assim, o ato de criar, tinha um ambiente fecundo para tal. O samba, por exemplo, “ia definindo seus contornos na transição pela qual passava o maxixi, o nascimento das favelas, os ranchos nos carnavais, a Praça Onze transformando-se no despertar da formação carioca e no caldeirão multiétnico, multirreligioso e multirrítmico, neste meio Heitor foi crescendo e tomando consciência, nutrindo-se dos sons e dos cheiros que se dissipavam no ar daquela parte da cidade tão rica em acontecimentos” (2).
“Não fosse assim, as suas músicas não seriam cantadas até hoje, nem seus quadros admirados, muito além das nossas fronteiras. Fiel à sua origem, dela tirada a seiva de sua inspiração, ele foi erigindo com paciência e obstinação uma obra plural – que hoje se denominaria multimídia – usando com maestria as diversas vertentes. ‘É impressionante observar como a negritude de Heitor (ele mesmo cunhou o Rio de “A pequena África“, para traduzir com exatidão a atmosfera humana daquele território), não é panfletária ou de ocasião; ela destila naturalmente porque é a sua própria essência, a transpiração que resulta na criação” (2).
Na obra em questão, Heitor dos Prazeres Filho, registra que sempre quis reunir em livro dados pessoais de seu pai e de suas obras, o que ocorre com a publicação desse trabalho que remete ao leitor “amor à primeira vista”, cujo objetivo é “divulgar e promover para todos os brasileiros a vida e as artes desse criativo e inovador ícone cultural do Brasil” (2). A seguir, o filho resume a família que teve; o meio onde nasceu e cresceu para ser hoje, também, um artista nato, tal qual foi seu pai.
 Heitorzinho, como é conhecido entre amigos e familiares, nascido em 1942, declara: “Quando cheguei nesta nave fui recebido com arte, pouco antes do Natal. Na sala um sarau, no quarto a parteira Tia Arlinda me bate com a palma do despertar para a vida. O meu choro era assim, acompanhado por um cavaquinho, um violão e um pandeiro. E com aquela melodia foram surgindo os versos de mais um chorinho: É mais um Guerreiro/É mais um Carioca/É mais um Brasileiro… Era um ambiente alegre, irradiante de amor e simplicidade. Assim, crescia com o passar dos dias sentindo a alegria do ritmo, da melodia, da poesia, da pintura e da escultura. Constantes presenças naquela escola da vida” (2).
“Em depoimento ao Museu da Imagem e do Som, pouco antes de sua morte, em 1966, Heitor respondeu à tradicional pergunta dos entrevistadores – “Quem é você?” – recitando os versos de uma de suas músicas: “Eu sou carioca/boêmico e sambista,/meu sangue é de artista/não posso negar./Vivo alegre, sou/contra a tristeza/e levo a vida feliz a cantar./Eu durmo cantando e canto dormindo/e sempre sorrindo,/meu coração diz:/’Quem é boêmio e não tem guarida,/no palco da vida/é sempre feliz’./Mora comigo a felicidade,/num quarto azulado/enfeitado de flores./Meu leito é forrado de tranquilidade/e tenho a meu lado/sempre dois amores”.
Aqui, portanto, um pouco do viver e do sobreviver de Heitor dos Prazeres. Sua marca, sua arte. O seu jeito de ser; o ser autêntico que foi, etc. “Há traços no perfil psicológico do brasileiro que se refletem tão fortemente no seu comportamento e aparência, a ponto de torná-lo identificável em meio a uma multidão qualquer, amontoada por algum motivo, em qualquer canto do mundo” (2).
O brasileiro tem características marcantes, peculiares., quer dizer, “a leveza e a sagacidade são dois desses traços, assim como o são a capacidade de desistir, de cair e levantar e depois dar a volta por cima. São esses atributos, aos quais vem somar-se a esperança, de que dias melhores virão” (2), e foi nessa percepção que Heitor acreditou (e creditou) toda sua força de vontade, conquistando – não apenas a fama, que não era pré-requisito para o seu viver – sua própria marca pessoal e profissional de forma irrepreensível, imaculada. 
Nessa miscelânea toda viveu Heitor dos Prazeres,  e vive sua produção artística entre os milhões de brasileiros, ou melhor, o seu incontestável legado cultural que chegou aos nossos dias. E há de perdurar por muito tempo. Tem razão seu filho Heitorzinho, ao registras estas palavras: “Meu pai foi um Pierrô Apaixonado”. E na marchinha constam estes versos:
                                                     “O Pierrô tentou vencer a dor
                                                      Caiu na farra pra se distrair
                                                     E chorando uma desgraça
                                                    Ele pegou na taça e começou a rir”. 

Pesquisa e texto por Francisco Gomes
Arte visual por Winnie Barros
Notinha de agradecimento – Amanhã é Dia das Mães, e desde já homenageamos todas as mães com estes gratos versos de Machado de Assis (1839-1908): 
                                                     “Se devo ter no peito uma lembrança,
                                                      É dela, que os meus sonhos de criança 
                                                     Dourou: é minha mãe“.
Notinha útil – Com este artigo, o Facetas atinge a edição de nº 250, isto é, 250 semanas ininterruptas. Isto nos orgulha muito. O nosso muito obrigado a cada leitor que nos dedica um pouco do seu tempo; a cada acesso. Todos sabem que nosso objetivo maior é a informação idônea por meio da leitura, acima de tudo.
Fontes
1. Dicionário biográfico universal Três. – São Paulo: Três Livros e Fascículos, 1984, volume 9, páginas 444/445.
2. Heitor dos Prazeres: sua arte e seu tempo/Alba Lírio (org.) [pesq. Heitor dos Prazeres Filho, Alba Lírio; pref. Haroldo Costa, coord. editorial Alice Cavalcante]. – Rio de Janeiro: ND Comunicação, 2003.