“EU SOU BARRO, EU SOU CHÃO, EU SOU PÓ, EU SOU POEIRA, SOU…”

Não sei se foi o cantor e compositor Ed Motta – que é um grande colecionador de vinil -, que disse que, além da excelente qualidade técnica em se ouvir a gravação de um long play, é prazeroso manuseá-lo (analisar capa e contracapa, encarte, datas, dedicatórias, nomes, etc). Só quem ainda reúne esse material sabe o quanto um LP é rico em informações – sem qualquer pretensão em ignorar o avançado mercado tecnológico da atualidade nesse e em outros setores.
Voltemos ao vinil. Em maio e junho 1985, o produtor musical Milton Manhães conseguiu uma façanha fonográfica: gravar e mixar um disco com 14 faixas,cujas músicas foram criadas e são  interpretadas por novos nomes do samba como Elaine Machado, Pedrinho da Flor, Zeca Pagodinho, Mauro Diniz, e Jovelina Pérola Negra, lançado em 1991 sob o título Raça Brasileira (com direção de produção de Hélio Eduardo Costa Manso). E é sobre esse trabalho que trata a nossa pesquisa de hoje. Um disco imperdível!
Disco de vinil - Raça Brasileira - Vinil Records - Lp
Pela ordem, as canções são: Raça brasileira(Mathias de Freitas-Zé do Cavaco-Elaine Machado), com Elaine Machado; Leilão (Zeca Pagodinho-Beto Sem Braço), com Zeca Pagodinho; Maravilhas do amor (Pedrinho da Flor-Gelcy do Cavaco-Baster), com Pedrinho da Flor; Feirinha da Pavuna (Jovelina Pérola Negra), com a própria; Mal de amor ( Mauro Diniz-Zeca Pagodinho-Beto Sem Braço), com Mauro Diniz; Santa paciência (Mauro Diniz-Zeca Pagodinho), com Zeca Pagodinho; Bamba de berço (Sereno-Mauro Diniz), com Mauro e Zeca; Garrafeiro (Zeca Pagodinho-Mauro Diniz), com Zeca Pagodinho; Pingueira (G. Martins-Mathias de Freitas-Elaine Machado), com Elaine; Ingrata paixão (Mauro Diniz-Ratinho-Adilson Victor), com Mauro; Pomba-Rolou (Adilson Gavião-Carlinhos do Cachambi), com Jovelina; A vaca (Zeca Pagodinho-Ratinho), com Zeca; Pedra no caminho (Pedrinho da Flor-Baiano),com Pedrinho; Bagaço da Laranja (Arlindo Cruz-Zeca Pagodinho-Jovelina Pérola Negra), com Zeca e Jovelina. 
Na contracapa, consta uma síntese artística e biográfica de cada um deles. Vale a pena conferir. Assim:
1. ELAINE MACHADO – Eunice Tavares Machado nasceu e foi criada no Morro dos Afonsos, na Tijuca e desde pequena gostava de cantar, mantendo a veia de samba da mãe Lídia, que era pastora da Unidos da Tijuca e do pai, Manoel Gambá, integrante da bateria da Escola. Fã de Elza Soares e Núbia Lafayette a pequenina adorava quando o pai ia tocar cavaquinho nas festinhas e a levava pra dizer uns pagodes. Por outro lado, levava sempre uma coça da mãe quando quando esquecia as tarefas caseiras e ficava cantando ao lado da lata d’água. 
O portal da vida artística lhe foi aberto em 79, quando conheceu o famoso compositor Beto Sem Braço, em Vila Isabel. De pagode em Pagode chegou a gravar no LP Forró com Malícia, a música Pra tirar coco (Beto Sem Braço-Jovelina Pérola Negra), em 80. Dois anos depois esteve no LP Samba de Roda, levada por Milton Manhães Ano passado (84) participou do disco de Dicró, mas agora chega com força total no meio do samba.
Mãe de Adriana, Renata, Roberta e Ana Paula, Elaine Machado tem no presidente da Engenho da Rainha, Ivan de Carvalho seu principal incentivador. Ela chega com uma voz bem diferente, caindo pro agudo, suave e forte. 
2. PEDRINHO DA FLOR – O cantor-residente. Assim pode ser chamado o sambista Pedro de Abreu Maciel, que já estava na área como compositor e ritmista e agora pinta como cantor, revelando um suingue todo especial, numa voz que “sobe bonito”, como todo bom pagodeiro. E por que cantor-presidente? É que desde de 84 está à frente do Bloco Flor de Mina de Andaraí, campeão do carnaval desde ano, quando recebeu a nota máxima em todos os quesitos.
Filho do calangueiro Onélio Maciel, já falecido e de Irinéia de Abreu Maciel, baiana do antigo Floresta do Andaraí, hoje desfilando no Flor de Mina, Pedrinho da Flor nasceu no Morro do Andaraí e foi lá que saiu o seu primeiro samba.Tinha 16 anos e falava de um caso de amor que não deu certo, um desabafo. Mas até hoje Pedrinho Flor faz muitos dos seus sambas no morro, com temas diversos. 
Fã de Beth Carvalho e Roberto Ribeiro, Pedrinho integra o conjunto Sambaslan e faz parte da Ala dos Compositores da Império da Tijuca e do Flor de Mina, onde já venceu uns 10 sambas-enredo. Casado com Ivanize, sua maior incentivadora, ao lado do parceiro Baster, Pedrinho é o pai coruja do Leandro e da Cristiane. Como compositor já gravou com Fundo de Quintal, Sambaslan, Almir Guinéto, Zaira e Nosso Samba.
3. ZECA PAGODINHO – A principal característica do bom pagodeiro é ele ser um bamba na arte de versar, ou seja, baseando-se no refrão, improvisar versos diferentes, até deixar seu adversário sem recursos de rima. Incluído nesta privilegiada turma está Zeca Pagodinho. Seus versos saem com uma facilidade impressionante, desconcertando o mais indiferente malandro, apear da maciez do tom de sua voz.
Carioca de Irajá, José Gomes da Silva Filho, recebeu o apelido, que lhe caiu como uma luva e hoje é seu nome artístico, nos tempos de mascote da Ala do Pagodinho, do Bloco Bohemios (assim mesmo com “h”) do Irajá, coordenada por seu primo Beto Gago. Em 1978 entregou uma letra ao “pagodeiro-flautista” Cláudio Camunguelo e um mês depois estava pronto o primeiro samba do novo compositor, Amarguras, gravado pelo Grupo Fundo de Quintal. Zeca já estava também nos discos de Alcione, Dona Ivone Lara, Originais do Samba, Almir Guinéto, Mussum, Chico da Silva e Beth Carvalho. Neste último, depois de muita luta, pois tinha vergonha de cantar, versou com a madrinha do Cacique no seu disco Suor no rosto, de 83.
Agora, Zeca Pagodinho estreia como cantor trazendo na bagagem toda sua ginga e trejeitos próprios do bom malandro. Um pouco envergonhado chega de pé direito no cenário musical, fazendo jus ao novo apelido: ZP, o terrível. 

4. MAURO DINIZ – Os primeiros instantes da trajetória do artista José Mauro Diniz, carioca de Oswaldo da Cruz, é das mais musicais: aos quatro anos ficava entre as pernas do pai, o poeta Monarco, da Portela, deixando todos boquiabertos com a habilidade nos primeiros acordes no cavaquinho. Quando não, saia arrastando o instrumento por suas próprias cordas; aos oito, fez uma paródia com um samba de seu pai, para ser o samba-enredo do Bloco da Alegria.
Hoje, Mauro Diniz está entre os mais conceituados do país, um dos mais estudiosos, integra a Banda que acompanha Beth Carvalho, faz parte da Velha Guarda da Portela (quando pequeno achava jeito  de ir aos ensaios). Fazendo jus à veia poética da família – seu avô José Felipe Diniz escrevia poesias na revista mineira As Moças – Mauro também começou a compor e já gravou com Roberto Ribeiro, Grupo Fundo de Quintal, Nosso Samba e com Monarco. Já gravou tocando em quase todos os discos de samba e também com Amelinha, Fagner e Ivan Lins.
Com o Pagode da Beira do Rio, que lançou junto com Adilson Victor em Oswaldo Cruz, se desinibiu e começou a cantar, em princípio para os amigos. Gravou solando o Tema das Rosas no LP do Sambrasil, conjunto do qual fez parte. Mesmo tendo feito os arranjos dos discos de Silas de Andrade, do Nosso Samba (metade) e deste Raça Brasileira, Mauro não quer ser chamado de maestro. Mas não nega que é um projeto a ser realizado no futuro.
Então, Mauro Diniz chega no pedaço como cantor, lembrando a força de seu pai e do arranjador Rildo Hora. Com Raça Brasileira, o samba ganha um cantor e perde um professor de educação física, pois ele não pretende voltar à faculdade que trancou há algum tempo. 
5. JOVELINA PÉROLA NEGRA – Jovelina Farias Delford, nascida em Botafogo, bairro da zona sul do Rio de Janeiro. Quem ouve esta descrição, no mínimo vai imaginar que se trata de mais uma dama da alta sociedade, frequentadora assídua das pomposas festas e das badalações da tradicional noite carioca. Porém, o erro do apressado analista foi em parte.
Na verdade, Jovelina é uma dama da alta sociedade de nossos pagodes, baiana do Império Serrano, da Ala da Cidade Alta, compositora, versadora e em suas badalações noturnas, ao invés de encontrar copos de cristal e inúmeros talheres, delicia-se com uma suculenta sopo de ervilhas e com a geladinha cerveja. Embora tenha nascido em Botafogo, logo subiu à Baixada Fluminense e baixou a poeira em Belford Roxo, lugar onde chega a qualquer hora sem perigo algum. 
Verdadeira tiete do pagodeiro Bezerra da Silva, Jovelina começou a dizer seus pagodinhos  no Vegas Sport Clube, em Coelho Neto, levada pelo amigo Dejalmir, que também lançou o nome Jovelina Pérola Negra, homenagem à sua cor reluzente. Mãe de Cassiana de 11 anos e de Renato, de 18, que já escreve alguma coisa, Jovelina entra de pé direito nos trabalhos musicais, colocando pra fora, num misto de ingenuidade e humildade, o seu potencial vocal e sua ginga, tradicional dos negros. 
Há exatos 35 anos – maio/junho de 85 -, quando da gravação de Raça Brasileira, aquilo que representava a promessa desses nomes no universo do samba carioca, hoje, é uma ralidade no cenário do samba nacional. Chegaram com o pé direito sim. São bambas do pagode, do samba, do ritmo gingado, do carnaval, da alegria, da vida, enfim, da autêntica musicalidade brasileira. Elas são barro, são chão, são pó, são poeira, são filhos desse torrão chamado Brasil, para parafrasear Elaine Machado.
E, para finalizar – aos que não querem ouvir ou ver cantar (no YouTube), a magistral Elaine Machado – com chave de ouro, vamos à letra de Raça Brasileira, dessa maravilhosa autora:
Eu sou barro, eu sou chão
Eu sou pó, eu sou poeira
Sou filha desse torrão
Eu sou a raça brasileira (bis)
      Eu moro no pé do morro
      Que fica ao lado de uma favela
      É tão perto que eu acho
      Que eu faço parte dela 
             É lá que eu bato cavaco
             E no partido alto sou considerada
             Sou o retrato falado
             Do samba cadenciado
                   Minha filosofia é cantar os meus versos
                   Com simplicidade, é provar
                   Que o morro também
                   Tem direito a felicidade (bis)
                          Eu sou barro, eu sou chão
                          Eu sou pó, eu sou poeira 
                          Sou filha desse torrão
                          Eu sou a raça brasileira (bis). 
Pesquisa e texto por Francisco Gomes
Arte visual por Winnie Barros
Fontes
1. LP Raça Brasileira, gravadora RGE, Rio de Janeiro, 1991.
2. https//m.letras.mus.br