Numa rápida passagem por Manaus (AM) – final de setembro e início de outubro do presente – vindo do Recife (PE), ou seja, da UFPE, para os ajustes formais de sua tese de doutorado, cujo fundo de pano é a Amazônia, a doutora Winnie Barros, presenteou-me com 17 livros.

Entre essas obras, destaco algumas e seus autores: Carta de Pero Vaz de Caminha; Carmen Miranda: a pequena notável, de Martha Gil-Montero; Novelas nada exemplares, de Dalton Trevisan; O mito de MEMPHIS, de Mário Filho; Um estadista do Império, de Joaquim Nabuco; Memórias íntimas, de Mário Sette; Ayrton Senna: O Eleito, de Daniel Piza, etc.

Percebe-se o meu contentamento ao mencionar estes livros. Quem lida com esse tipo de tesouro diariamente (apesar dos novos tempos minguarem gradativamente esse antigo costume – nada contra. É um caminho irreversível), qualquer compêndio, quaisquer somas de folhas de papel, já é motivo de verificação, de curiosidade para saber-se do seu conteúdo. Logo as mãos folheiam páginas e páginas, enquanto os olhos brilham e os lábios começam a balbuciar as primeiras palavras.

Entre alguns volumes desse material, publicados pela UFPE, como Folhas ao vento (1969), de Olívio Montenegro , ou outra editora, como é o caso de TEXTOS: artigos e crônicas, de Engenho de Mídia (Recife, 2016), etc, este segundo despertou meu interesse maior. Por quê? Porque, principalmente, foi escrito por 27 colaboradores. Ficando a coordenação da edição sob a responsabilidade de Kássia Alcântara. Apesar de apenas 70 páginas, seu conteúdo é muito relevante, tanto pela abordagem séria de cada tema escolhido por seus autores, como por serem os mesmos jornalistas, pesquisadores, escritores, professores, entre outras categorias.

Livro citado anteriormente.
Fonte: Acervo pessoal.

Por exemplo, o artigo “DAQUI, PARA ONDE?, da jornalista Beatriz Ivo, requer uma reflexão por parte dos nossos leitores. Por isso, vem aqui reproduzido na sua íntegra, não apenas por querer copiar o conteúdo, mas pela precisão das suas palavras nele contidas. Por sua atualidade, pela veracidade dos fatos mundiais, etc. Vamos às aspas:

Desculpe, futuro. Sou jornalista. Vejo a vida pela lente do concreto. Procuro a aproximação com o que é real. É a minha vocação, não tem jeito. Creio que antes do início há sempre algo. Para mim, o amanhã não nasce do nada. Vem do movimento das viradas. Dos dias ou dos anos. Calendário, para muitos, é borracha de apagar o passado. Mas calendário, que no mundo da ciência serve para contar o tempo, e no da religião, para velar a renovação, deve ser mola para cada um de nós caminhar o caminho. É porta para transformar esperança em ato de construção de um novo percurso. Me perdoe, caro leitor, se estou pulando o muro dos sonhos. Atitudes são meus salmos. Olhando para o agora sabemos que a crise embaralha projetos. Acinzenta os desejos. É o começo do fim ou fim do começo? Esta dúvida pendular deveria nos conduzir a um novo repertório. E como a condição humana me faz pensar humanamente, por utopia ou dever de ofício, buscar uma perspectiva é, para mim, quase uma prece.

Já acumulamos camadas de conhecimento suficientes para gerar discernimentos. O que sabemos deveria servir para criar algo melhor. Mais igual. Mas não é o que vivemos. Estamos virando devotos do embate. O modelo do planeta se esgotou. Seja o econômico, o social ou o natural. Nunca tivemos tanta riqueza. Porém, em nenhuma época, como hoje, ela foi tão concentrada. Metade da fortuna mundial está nas mãos de 1% da população. Isso quer dizer alguma coisa. O digital nos permite viver em rede e conectados. Mas atualmente mais de 65 milhões de refugiados fogem de guerras e conflitos. Número recorde desde a 2ª Guerra. Isso quer dizer alguma coisa. As inovações apontam saídas para nos salvar de destruição ambiental e para a crise climática. Mas uma população planetária que já já chega na casa dos 8 bilhões, devasta o verde e planta dutos, chaminés e antenas na paisagem. Isso quer dizer alguma coisa.

Parece que estamos aquém do futuro. Em uma contemporaneidade incomodamente dissonante. Quando há tantos motivos para buscar mudanças, constatamos, no cotidiano, uma imobilidade enraizada na desesperança. No Brasil, e alhures, o que mais vemos são buscas sem achados. Perguntas com respostas inacabadas. O que parece soma, vira subtração. Um amanhã sem como e quandos. Até parece que estamos em um escuro cinema. Esperando a luz revelar na tela uma história animadora em que um salvador irá resgatar a pátria. I’am sorry. Quer um mundo melhor? É bom começar a exercer a cidadania. Não a de rede social. Mas ado mundo real. Cabendo a eficiência das gestões públicas. Pressionando as entregas privadas de qualidade. Trocando o benefício próprio pelo bem comum. Sendo intolerante com o desrspeito coletivo. Construir um novo rumo dá trabalho. Vem de ações diárias. Que tal testar?

A palavra disrupção, que já inundou o mundo dos negócios, precisa também catapultar soluções para diminuir a desigualdade entre pessoas. É preciso quebrar modelos não apenas nas esferas cibernéticas. Devemos reinventar papeis e oportunidades. Provocar alterações nos objetivos comuns. Encontrar respostas para um novo rumo. A transformação equilibrante é o maior desafio para quem defende um modelo mais inclusivo para os tempos atuais. Por isso, quando penso em ano novo, desejo gestos novos. Em 2017, tomara que atitude transformadora que cada um pode gerar, seja como o tempo – não se gaste e, se gasto, renasça” (1).

Publicado três anos antes do atual cenário do mundo cinzento em que vivemos, com as garras dessa pandemia que se alastra em todos os continentes, a autora foi precisa: “Devemos reinventar papeis e oportunidades”. Não podemos, em hipótese alguma, ficar a mercê desse vírus desgraçado. Á época, a jornalista falava de todas as crises que ameaçavam os valores humanos. E hoje (2020), como sempre: talentosa, antenada aos fatos e com muita perspicácia, dirá o quê? Com certeza repetirá no seu novo artigo, o último parágrafo deste ora em análise, acrescentando apenas, é claro, umas novas palavrinhas de ordem que surgiram (ou que passaram a ser ditas) nos últimos 6 meses de 2020. Meses de correria, histeria, morte, medo, falação, confusão e pouca ação. Por sua vez, capitalismo e capitalistas estão rindo à toda. Nunca obtiveram tanta mais-valia.

“Parece que estamos aquém do futuro. Em uma contemporaneidade dissonante. Quando há motivos para buscar mudanças, constatamos, no cotidiano, uma imobilidade enraizada na desesperança” (1).

NOTINHA ÚTIL – Nesta semana, nos dias 28 e 29, a E.E. Jairo da Silva Rocha (antiga Daisaku Ikeda), localizada na Zona Leste de Manaus (AM), por iniciativa dos professores do turno noturno, promoveu uma campanha conjuntamente com os alunos – SETEMBRO AMARELO – com palestras, cartazes, painéis, música, vídeos, filmes, etc, como medida preventiva ao suicídio. A coordenação do evento ficou a cargo da biólogo e professora Fabiana Sarmando Soares, a qual, com muita propriedade soube conduzir as atividades – tudo de acordo com as medidas de segurança exigidas pelas autoridades sanitárias, contra a Covid-19. O Portal Uatumã se fez presente e publicou uma excelente reportagem sobre o ocorrido, com grande repercussão na cidade. Assim, o Facetas vem parabenizar a todos os envolvidos nesse projeto, que teve como objetivo maior salvar vidas (facetasculturias.com.br – 03.10.2020).

Pesquisa e texto por Francisco Gomes Foto por Winnie Barros

Fonte 1. TEXTOS: Artigos e Crônicas, diversos. Recife (PE), Engenho de Mídia, 2016, páginas 15 e 16.