A obra do poeta pernambucano Manuel Bandeira (1886-1968) continua sendo referência para a literatura brasileira. Abre-se um livro didático, geralmente preparado para crianças e adolescentes, e lá estão os maiores nomes da prosa e da poesia nacionais. Os autores têm muito cuidado na contextualização dos conteúdos, para proporcionar aos estudantes melhor compreensão e maior aprendizado. Num desses livros escolares, encontrei este excelente resumo sobre a vida e a obra do poeta em questão.

Tísico profissional! De fato, Manuel Bandeira teve sua existência e sua obra marcadas pelo fato de ter contraído tuberculose aos 17 anos e, a partir de então, desenganado várias vezes pelos médicos, inicia uma peregrinação pelas melhores casas de saúde situadas em estações climáticas do Brasil e da Europa. Lutando contra a própria morte, assistiu ao falecimento, em curto espaço de tempo, da mãe, da irmão e de seu pai. Viveu solitariamente, apesar dos amigos e das reuniões na ABL, para a qual foi eleito em 1940. Todas essas fatalidades deixaram cicatrizes profundas na obra do poeta.

Depois de uma produção inicial fortemente influenciada por parnasianos e simbolistas, Manuel Bandeira vai se engajando cada vez mais no ideário modernista, com a publicação dos livros Carnaval, em 1919, e O ritmo dissoluto, em 1924, para explodir definitivamente com a publicação de Libertinagem (1930), uma das obras mais importantes de toda a literatura brasileira, onde estão alguns de seus poemas mais famosos com “Poética”, “O cacto”, “Pneumotórax”, “Evolução do Recife”, “Poema tirado de uma notícia de jornal”, “Irene no céu” e “Vou-me embora pra Pasárgada”. E aqui aparece a palavra-chave de toda a sua obra modernista: liberdade, seja de conteúdo, seja de forma.

M. Bandeira buscou na própria vida inspiração para seus grandes temas: de um lado, a família, a morte, a infância no Recife, o Rio Capibaribe; de outro, a constante observação da rua por onde transitam os mendigos, as prostitutas, os pobres meninos carvoeiros, os carregadores de feira livre, todos falando o português gostoso do Brasil. E, em tudo, o humor, certo ceticismo, uma ironia por vezes amarga, a tristeza e a alegria dos homens, a idealização de um mundo melhor – enfim, um canto de solidariedade ao povo” (1).

A gente folheia Meus poemas preferidos, de autoria desse poeta, e fica sem saber qual poema é mais belo. Até que toma uma decisão: resolve balbuciar os versos de Estrela da manhã, Poética, Madrigal melancólico, Arte de amar, O último poema, Vou-me embora pra Pasárgada, O bicho, etc. Vamos, então, a trechos de alguns desses poemas memoráveis:

POÉTICA – “Estou farto do lirismo comedido/Do lirismo bem comportado/[…]Abaixo os puristas/Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais/Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção/Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis.”

Outro exemplo de versos livres e um lirismo mais direto e espontâneo, que representa a “simplicidade do requinte”, podem ser encontrados abaixo:

MADRIGAL MELANCÔLICO – “O que eu quero de ti,/Não é a tua beleza./A beleza, é em nós que ela existe. A beleza é um conceito./E a beleza é triste./Não é triste em si,/Mas pelo que há nela de fragilidade e incerteza“.

Uma vez, lá pelos idos dos anos 70, meu professor de literatura entrou na sala com um livro nas mãos e, quase gritando, lia: “Vou-me embora pra Pasárgada/Lá sou amigo do rei/Lá tenho a mulher que eu quero/Na cama que escolherei/ […] Que no tempo de eu menino/Rosa vinha me contar/Vou-me embora pra Pasárgada/Em Pasárgada tem tudo/É outra civilização/ […] E quando eu estiver mais triste/Mas triste de não ter jeito [...]”

Ele parou a leitura. Fechou o livro. Olhou a turma. Todos assustados. Mesmo assim, alguém perguntou-lhe:

– O que houve, mestre? Que Pasárgada é essa? Que menino é esse? Que tristeza é essa? O senhor está diferente.

– Ah, isso é poesia. Estou eufórico! Foi o Bandeira que fez isso comigo.

A aula seguiu muito divertida. Mas, no final uma cobrança: cada aluno devia decorar um verso. E juntos, a declamação do poema, na íntegra.

Aqueles anos se foram, mas a fascinação pela poesia, não. E, somente agora descobri, no livro de memórias, Itinerário de Pasárgada, do ilustre pernambucano, estas palavras do próprio Bandeira: “Esse nome de Pasárgada, que significa ‘campo dos persas’ ou ‘tesouro dos persas’, suscitou na minha imaginação uma paisagem fabulosa, um país de delícias […]. […] saltou-me de súbito do subconsciente esse grito estapafúrdio: “Vou-me embora pra Pasárgada![…]. Gosto desse poema porque vejo nele em escorço [assim mesmo: “escorço”, ou seja, resumo], toda a minha vida; e também porque parece que nele soube transmitir a tantas outras pessoas a visão e a promessa da minha adolescência – essa Pasárgada onde podemos viver pelo sonho o que a vida madrasta não nos quis dar” (2).

Os fragmentos do poema a seguir, são fascinantes! O leitor sem muito esforça, saberá logo logo quem é a personagem:

ESTRELA DA MANHÃ – “Eu quero a estrela da manhã/Onde está a estrela da manhã?/Meus amigos meus inimigos/Procurem a estrela da manhã. /Ela desapareceu ia nua/Desapareceu com quem?/Procurem por toda parte. /[…] Virgem mal-sexuada/Atribuladora dos aflitos/Girafa de duas cabeças/Pecai por todos pecai com todos./ Pecai com os malandros/ Pecai com os sargentos/Pecai com os fuzileiros navais/Pecai de todas as maneiras/Com os gregos e com os troianos/Com o padre e com o sacristão/Com o leproso de Pouso Alto./ Depois comigo […]“.

Apesar da sua gigantesca contribuição à nossa cultura literária, escreveu ele: “Tomei consciência de que era um poeta menor; que me estaria para sempre fechado o mundo das grandes abstrações generosas” (3). Jamais foi um poeta menor. Modesto, sim. Recluso, sim. Mas de um saber grandioso. O seu estilo é enganosamente simples, ou seja, transmite a impressão de que é fácil escrever do jeito como ele escreve. O último poema, revela isso. Mas é apenas uma falsa constatação: “Assim eu quereria o meu último poema/Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais/Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas/Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume/A pureza da chama em que se consumem os diamantes mais límpidos/A paixão dos suicidas que se matam sem explicação

Leiamos o poema que escreveu José Paulo Paes sobre Manuel Bandeira: “13 de outubro, morte de manuel bandeira/Epitáfio/poeta menormenormenormenor/menormenormenormenor enorme.

Senhores leitores, espremi espremi o conteúdo, mas não há como falar desse monstro sagrada da literatura com menos conteúdo. Assim, como é impossível finalizar este artigo, sem vos oferecer este poema. Um dos mais belos de todos os tempos.

ARTE DE AMAR – “Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma./A alma é que estraga o amor./Só em Deus ela pode encontrar satisfação,/Não noutra alma./Só em Deus – ou fora do mundo./ As almas são incomunicáveis./ Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo./ Porque os corpos se entendem, mas as almas não“.

Por Francisco Gomes

Notinha de agradecimento – Nesta semana, a Dra. Winnie Barros, fundadora deste Facetas, se submeteu a uma cirurgia de Apêndice e tudo transcorreu dentro das previsões médicas. Então, recebemos apoio de familiares, parentes e amigos. Aqui, a todos, os nossos agradecimentos.

Fontes 1. Terra, Ernani e Jose De Nicola. Português de olho no mundo do trabalho: vol. único. – SP: Scipione, 1ª ed. 2005, pp. 486/487; 2. Ser protagonista: Língua portuguesa, 3º ano: ensino médio. Edições SM – 2. ed. SP: 2013, pp. 78/81; 3. Infante, Ulisses. Textos: Leituras e escritas. vol. único. – SP: Scipione, 2005, pp. 529/531.