“A oração universal”, de Pope

“Conheça a si mesmo,/não examine Deus;/O estudo da humanidade/centra-se no homem”.

Apesar de ser considerado um dos maiores poetas da da língua inglesa do século XVIII, e, importante representante do neoclassicismo, Alexander Pope (1688-1744), estava acostumado com a zombaria de seus rivais literários por seu um adulto corcunda, de 1,5 metro de altura, além de sua saúde frágil. Para piorar sua vida, era católico em meio a grande maioria de anglicanos.

Porém, aprendeu desde jovem a demonstrar o seu interesse pelas letras. Leu clássicos latinos, gregos, franceses e italianos, quando ainda era criança. Aos 12 anos escreve Ode à solidão, em cujo poema estão estes versos: “Feliz quem seus desvelos e atrativos/Nuns poucos acres paternais encerra,/Constante em respirar ares nativos/Na sua própria terra”. Foi duramente castigado por tuberculose óssea, que além de provocar-lhe terríveis dores de cabeça, que o vitimaram até o fim da vida, foi apelidado de “sapo corcunda”.

“Aprendeu a se defender dos aborrecimentos com um azeitado senso de humor e uma língua ferina e sarcástica” (1). Além do mais, pertencia a uma influente nos meios aristocráticos. Do pai, herdou uma grande fortuna, colocando o filho no crédito da origem nobre. Impossibilitado de praticar esportes, o jovem foi buscar uma ocupação na literatura. Acertou em cheio. Em 1711, lançou Ensaio sobre a Crítica. Não tardou para traduzir Ilíada e Odisseia, de Homero.

Em 1728, escreveu a versão inicial de A Ansiedade, poema heroico-cômico que serviu de resposta a seus críticos. A versão final foi publicada somente em 1743, um ano antes da morte do poeta, aos 56 anos” (2). Outras obras importantes de Pope são: A Violação da Madeixa e Ensaio sobre o Homem.

“Suas outras obras, entre elas Ensaios de mentirinha, faziam graça com a hierarquia de classes e as rígidas regras sociais. Muitas de suas cartas também foram destinadas à publicação e escritas com esse objetivo. Em 1717, o poeta aclamado e favorito de muitas damas da sociedade, comprou uma chácara em Twiekenhan, então um vilarejo nas imediações de Londres, e visitá-lo ali se tornou moda” (1). Nesse lugar, o poeta do fantástico poema A Oração Universal, viveu até morrer em 30 de maio de 1744. A seguir, a íntegra desse poema, um dos mais belos da literatura inglesa e da poesia mundial.

A ORAÇÃO UNIVERSAL

Pai de Todos, que, em todas as paragens/E idades, tens adorador;/Buscam-te santos, sábios e selvagens/Jeová, Jeová, Jove ou Senhor!

Causa Primeiro, Tu, Ser misterioso,/Que ataste os sentidos que emprego/Par eu saber apenas que és Bondoso,/E que eu próprio sou cego.

Mas permitiste, neste obscuro estado,/Que eu distinguisse o bem do mal:/E, mesmo unindo a natureza ao fado,/Me deste a opção moral.

No que a consciência ordena a mim, discerno/(Se me insta a agir, se impõe limiar)/Algo maior do que fugir do Inferno/Ou do que o Céu buscar.

Nenhuma bênção que por Ti me é dada/Eu jogue fora na imprudência,/Pois, quando o homem recebe, a Deus agrada:/A ventura é obediência.

Que eu não limite às dimensões terrenas/De tua mercê os dons fecundos,/Ou Te julgue Senhor do homem apenas,/Tendo em volta mil mundos.

Não pretenda esta mão arremessar,/Ignara e fraca, os raios teus;/Nem leve a danação a quem julgar/Inimigo de Deus.

Seu eu estou certo, dá-me o galardão/De não sair de onde me alinho;/Se estou errado, faz meu coração/Achar o bom caminho.

Oh, salva-me da estúpida altivez/E do desgosto que é impiedade,/Pelo que me negou tua sensatez/Ou me deu tua bondade.

A dor de outrem ensina-me a provar,/Ou a esconder o seu senão;/E, se perdão dos outros eu mostrar,/Mostra-me igual perdão.

Embora vil, não sou de todo assim,/Que o sopro teu vida me dá;/Na vida ou morte de hoje guia a mim,/Para onde quer que eu vá.

Concede-me este dia a paz e o pão;/Mas tudo o mais que o sol abraça,/Tu sabes se é melhor ceder ou não…/E o teu querer se faça.

A Ti, que tens por templo o espaço imenso,/Por altar terra, mar e alturas;/Envie a natureza o seu incenso,/Seu coro as criaturas!

Que coisa mais majestosa! Todos nós seres humanos precisamos, urgentemente, “achar o bom caminho“. O caminho da paz. O caminho do amor. O caminho da sensatez. O caminho da prudência. Achando esses caminhos, seremos capazes de entender a oração universal.

Fontes 1). 501 grandes escritores. – RJ: Sextante, 2009, p, 86. 2). Alexander Pope. Revista Caras, nº 26, de 06.05.1994.

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