“Na Amazônia nenhum olhar é à toa”

Capa do livro em análise

Veio somar-se ao acervo do Facetas o interessante livro “Amazônia: olhares”, de Ricardo Oliveira. A obra não contém apenas fotos (são 85, ao todo) dos diferentes elementos regionais, sejam humanos ou não. Mas, conta também, com a participação de profissionais como: jornalista, poeta, geógrafo, fotógrafo, linguista, historiador, filósofo, indígena, professor, pesquisador e do Secretário de Estado de Ciência e Tecnologia do Amazonas e da Diretora-Presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas – FAPEAM, à época do lançamento.

“Ricardo Oliveira, amazonense de Manaus, 42 anos (em 2011), iniciou sua carreira no Rio de Janeiro, onde morou e estudou na FotoRiografia”. Em 1995, voltou para Manaus e desde então atua na imprensa local com destacada participação. Por exemplo, em 1998, publicou ensaio no livro Amazônia: o Olhar sem Fronteiras, coletiva com fotógrafos sul-americanos. Em 2002, concluiu pós-graduação “Fotografia como Instrumento de Pesquisa nas Ciências Sociais”, junto à Universidade Cândido Mendes, “quando realizou um trabalho antropológico sobre os músicos que tocam “choro” do tradicional bairro carioca da Penha”. Em 2007, “registrou em livro o tradicional Festival Folclórico do Amazonas.” Em 2011, publica o excelente Amazônia: olhares, ora em análise.

Na apresentação, sob o título “A Ciência do Olhar”, o então Secretário Estadual de Ciência e Tecnologia, Odenildo Sena, destaca: “… penso que a fotografia depende muito pouco de um simples clique. Se assim não fosse, com a popularização das máquinas digitais os grandes magos da fotografia já teriam sumido. São fundamentais, muito aquém e além dos cliques, a empatia e a emoção com o objeto; a paciência como a arma para a perfeição; a busca contumaz pelos detalhes, etc. Essas qualidades são alimento indispensável para o que eu chamaria de a ciência do olhar. É esse olhar que desvela, em cada página deste livro, um pouco da nossa Amazônia, aqui pluralizada em tantos olhares nas lentes mágicas de Ricardo Oliveira”.

Na introdução da obra, sob o título O UNIVERSO CHAMADO AMAZÕNIA, a Presidente da FAPEAM, Olívia Simão, diz que a exuberante e fascinante Amazônia tem sido, muitas vezes, propaladas em discursos pelos meios de comunicação, dentro e fora do Brasil, mas pouco tem sido visto, lido ou ouvido sobre “a existência desse riquíssimo bioma”. Entretanto, “na contramão dessa concepção contemplativa e impassível, as lentes de Ricardo Oliveira trazem aos nossos olhos e coração uma Amazônia essencialmente humana, desnuda e inquietante. (…) O resultado mais marcante deste belíssimo trabalha é, portanto, um olhar mais integral e verdadeiro sobre este universo chamado Amazônia” (1).

Trata-se, realmente de um livro-álbum fascinante! Tudo, tudo sob medida: papel, impressão, fotos, fotografados; os olhares (ou não), tudo. Qualidade impecável. principalmente quando um poeta da grandeza de Aldísio Filgueiras rima estes versos: “O olhar de tiro preciso,/a cada palmo do metro,/faz do olhar um juízo,/de cada osso um espectro”, ou ainda, nestas palavras do notável geógrafo, o saudoso professor José Aldemir: “Olhares da casa que se pendura na terra,/da janela à simetria do rio que passa/a casa é o mundo interior e o rio, vasto rio/escassez e excesso de tudo”.

Outro fotógrafo, Rogério Reis, após observar o olhar aflito do sitiante que exibe no seu colo, uma arara abatida a tiro, na periferia de Manaus, por criminosos ambientais – cada vez mais insensíveis -, emociona o leitor, o observador (tanto da foto como de seus dizeres), assim: “Alguém me disse o que vejo aqui: o caboclo é expressivo nas atitudes e nas cores para se distinguir da exuberância da floresta. A doce convivência do homem com os bichos produz um duro diálogo com as forças do desmatamento. Uma Amazônia de verdades. Histórias que nos instigam e provocam, porque discutem, pela imagem, a condição humana de seu tempo”.

E os olhares sobre Manaus: as palafitas, o imponente Teatro Amazonas, O rio negro, a canoa, a moça faceira? Atento a tudo, o linguista Sérgio Freire, responde: “Texto não são só letras./Aliás, há letras que não nos dizem./Imagens, prenhas, parem um novo sentido a cada olhar. (…) E o olhar da menina-moça se revela como tu, minha cidade: Pueril e maliciosa”. Porém, à margem dessa mesma cidade, as agruras são visíveis para crianças e adultos. E, o jornalista Márcio Noronha, fez este registro: “Fotografia aguça sentidos./Sorriso de criança faz barulho na lembrança./Pé descalço na areia tem cheiro de infância./Brincar é flash de felicidade”.

À margem dos rios, olhares. Eles são muitos e estão por todos os lugares, são rios. Os rios Solimões, Negro, Purus, Madeira, etc. Rios… rios… rios… Desenham a floresta de canto a canto (ou seja, de lugar a lugar) As lentes de Ricardo Oliveira produziram imagens memoráveis, e sobre elas, o historiador Ribamar Bessa é certeiro: “O encontro das águas é, então, olhado pela primeira vez (1542) por um europeu (Orellana) que (…), escreve, descreve, pinta. Águas que não se misturam, culturas que se desencontram. O real-maravilhoso: água, muita água, rios de águas pretas, barrentas, amarelas, prateadas, da cor do guaraná. (…) Os povos da florestas e seus sabores, ainda por revelar, ainda se revelando. No meio do rio. No meio da floresta, no meio da vida”.

E quando da grande seca (havia quase uma década)? Olhares. Poças d’agua, chão rachado, peixes mortos, lama… Sobre os cliques do brilhante fotógrafo, o biólogo Geraldo Mendes, fez o seguinte registro, com palavras, é claro: “A natureza pode parecer trágica, mas é mágica em sua essência. Nessa essencialidade ela cria e recria, sendo a criatura humana – sobretudo a criança – sua expressão suprema. Sentimentos de alegria e desprendimento podem se manifestar sempre e de maneira mais pura, mesmo que seus protagonistas se encontrem atolados na lama”.

Por fim, “viver a Amazônia”, olhares. Olhares, olhares . Mais palavras sobre esses olhares. Palavras sábias como estas de Trinho Trujilho, indígena, professor e pesquisador: “Viver a Amazônia é compreender a sua diversidade, a sua gente, as suas tradições, as suas culturas, toda a sua complexidade de riquezas. (…) É respeitar as diferenças, os conhecimentos milenares, aprendendo com quem viveu experiências extraordinárias no passado, a lidar com as transformações do presente, e a se preparar para o futuro” (1).

“Na Amazônia, nenhum olhar é à toa”, completa o autor do fantástico livro. E não é à toa mesmo. Confesso que identifico-me ( e muito) com várias imagens expressas na obra em questão. Aos meus irmãos, também. Sejam sobre a nossa infância vivida no rio Pauini (afluente do rio Purus; afluente do rio Amazonas; afluente do Atlântico – ou afluentes do mundo), ou vivida em Lábrea, na nossa adolescência, ou vivida ainda em outros lugares regionais da nossa vida adulta, onde quer que cada um esteja agora.

Só um lembrete: A obra aqui comentada, admirada e resumida, traz de seu autor uma dedicatória, no mínimo, intrigante: “Ao Dr. P. H., uma Amazônia de riquezas, mistérios e mazelas”. Manaus, 09.08.2015, Ricardo Oliveira”. As “mazelas” sobre as quais o autor faz referência, devem ter sido por ele detectadas ao longo de sua pesquisa, sim. Cabe, portanto, alertarar ao seguidor do Facetas, que são coisas advindas do homem explorador há cinco séculos, não são coisas da Natureza. Porém, é uma assunto para um artigo específico.

Amigo leitor, não deixe de ver e ler Amazônia: olhares.

Por Angeline e Francisco Gomes.

Fonte: 1. Oliveira, Ricardo. Amazônia: olhares. – Manaus: FAPEAM, 2011.

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