Jacob e Waldir, juntos

Ultimamente, nós do Facetas, temos adquirido excelentes números de CDs e LPs de chorinho, produzido em vários pontos brasileiros, principalmente na capital do choro: Brasília. Pense num gênero musical contagiante, seja ouvindo os antigos como os novos músicos do ramo. O maior representante da categoria foi Pixinguinha, sobre o qual há uma Lei Federal para comemorar 23 de abril – o dia do nascimento do músico -como o dia nacional do choro.

Entre tantos nomes de artistas de peso, aqui, num só artigo, estão dois grandes representantes: Jacob do Bandolim (1918-1969) e Waldir Azevedo (1923-1980). O vinil ora em análise contém 12 músicas, 6 para cada um. O primeiro, com Remelexo, Cabuloso, Flor Amorosa, etc; o segundo, com Brasileirinho, Carioquinha, Pedacinhos do Céu, etc. Ambos cariocas: Jacob, solista do bandolim e Waldir, solista de cavaquinho, os quais nos deixaram melodias que rejuvenescem nossa alma, ou seja, do ouvinte.

Segundo o escritor e estudioso musical J. L. Ferrete, os músicos aqui retratados têm os seguintes perfis profissionais:

“Diferentes em muita coisa, optaram por caminhos distintos. O primeiro (Jacob), voltado para o tradicionalismo, evoluído pelos apelos das raízes mais profundas da música popular brasileira, nunca fez concessões, senão em nome da pureza dos poemas de que foi um divulgador solitário. O segundo (Waldir), crente ao universalismo da música, nada desprezou que lhe figurasse comunicação imediata, pouco importando a origem nacional.

Numa coisa, porém, ambos – JACOB e WALDIR – se identificam em resultados: ensejaram, no recente período de pós-guerra, o ressurgimento da música popular instrumental no Brasil, reacendendo, na juventude, o gosto pelos conjuntos regionais e fazendo guerra aberta, com as armas aparentemente inócuas do bandolim e do cavaquinho, à grande orquestração norte-americana”.

A Gravadora Continental foi a responsável pelo surgimento desses gênios da nossa música, pois acreditou no talento artístico dos mesmos. Inclusive o LP ora em estudo, apresenta “essas duas glórias” do cancioneiro nacional, “na pureza mais plena de suas intenções, através de seus primeiros registros”. A arte dos dois, chegou ao exterior com estupenda repercussão internacional.

“A história de como ambos alcançaram às alturas que aqui conhecemos, bem como todo o envolvimento artístico que os antecedeu, é contada” ao longo de décadas, principalmente dos anos 1950 para cá, como exemplo as músicas contidas no presente trabalho fonográfico, cuja produção buscou, sobretudo, conservar as características das gravações originais – algumas delas do final daquela década – 1950 -, meados do século XX, com o intuito de preservar-lhes o alto valor histórico.

A gravadora, por sua vez, foi buscar respostas para perguntas sobre a origem de instrumentos musicais, por impecável pesquisa de Ferrete, a qual publicou interessante estudo na contracapa do disco, cujos fragmentos são os seguintes:

Historicamente, é difícil afirmar com absoluta certeza quem nasceu primeiro: o bandolim ou o cavaquinho?

O bandolim, evidentemente, foi sempre mais conhecido e chegou, na Europa, a viver momentos de fugurante esplendor. Seu ancestral mais remoto (…), foi a “mandola”, membro da família do alaúde. Sabe-se inclusive, que a “mandola”, de maior porte e com recursos menos limitados, constituiu o instrumento favorito dos bufões dos séculos XII e XIII, no Velho Continente. A “mandola”, porém, era palaciana. O povo inventou um instrumento menor, ao qual chamou (em italiano, naturalmente) de “mandolino.

Dois séculos depois, por meio dos camponeses, o “mandolino”, chegou na Espanha, França, e Portugal. Passando, é claro, por adaptações. Por exemplo, no século XVI, “o seu tempo já se mostrava abaulado (em forma de pera) e o braço havia sido encurtado”. Seu som por uma palheta, era mais penetrante e com variado número de cordas. “O “mandolino” milanês tinha 5 cordas dobradas. O napolitano valia-se de só quadro, também dobradas, mas afinadas como as do violino: sol, , , mi e com a escrita na clave de sol“. Esse modelo se popularizou por toda a Europa e, até hoje, representa bem a canção italiana. Em Portugal, passou por “uma transformação nominativa, passando a ser conhecido como bandolim. Na Espanha, mas já com outras características, ganhou o nome de “bandurra”.

Ao longo desse trajeto, “o bandolim iria deixar o simples ambiente de pescadores e camponeses, para instalar-se, por volta de 1750, nos teatros de concerto europeu. Seus aperfeiçoamentos e a magia de seu som penetrante fascinaram a imaginação de compositores como Hasse, Vivaldi e Beethoven, que lhe dedicaram obras de singular importância”. Assim, a partir do século XVIII, o bandolim chega aos recintos burgueses, “onde iria transformar-se num dos instrumentos prediletos e acompanhamento vocal”. Vindo a substituir outros instrumentos, de cantigas e árias domésticas.

Na corte portuguesa, no início do século XIX, o bandolim predomina no acompanhamento de modinhas, as quais eram compostas por operistas de renome como Souza Carvalho, Leal Moreira e Marcos Portugal. Dos irmãos lusitanos, o instrumento ingressa nos primeiro gêneros populares brasileiros, onde conquista lugar cativo até hoje.

E o cavaquinho, donde proveio? “Sua origem mais remota está no machete português, instrumento que por seu turno, parece originar-se de alaúdes árabes. O certo, porém, é que o machete (mais tarde também denominado cavaquinho, em Portugal) sempre teve as mesmas características externas e técnicas do cavaquinho. Servindo de 4 cordas, como o bandolim napolitano, mas afinado em quarta (, sol, si, ), esse instrumento iria penetrar na música popular brasileira através do lundu. Tocado por um plectro, como o bandolim, junto a este ele se poria, com o tempo, nos acompanhamentos em conjuntos regionais de grande porte”. (1).

Ainda, segundo a gravadora Chantecler: “As gravações contidas neste disco resultaram de paciente trabalho de recuperação sobre registro originais, em 78 rpm, de JACOB BITTENCOURT e WALDIR AZEVEDO. Pedimos excusas por eventuais defeitos ainda remanescentes, não obstante o cuidadoso trabalho de laboratório a que as matrizes foram submetidas. Buscou-se, sobretudo, conservar as características das gravações originais – algumas delas com mais de 25 anos (à época desse disco de 1974, relançado em 1982), de existência – para preservar o alto valor histórico” (1).

Não há “defeito” não, senhor diretor de produção fonográfica. O LP é uma obra-prima de “alto valor histórico” sim. A gente ouve os choros Flor Amorosa, de J. A. da Silva Calado, com Jacob, e fica extasiado.; ouve Brasileirinho, de Waldir, com o próprio, e completa o êxtase. Quem é adepto desse gênero, sabe bem do que estamos falando. O choro está aqui, ali, acolá, em qualquer lugar do Brasil. Cabe, portanto, cada pessoa interessada curti-lo.

Viva o gênero e subgêneros musicais: Chorinho, Choro e o Chorão!

Por Angeline e Francisco Gomes.

Fonte: 1. LP “Jacob do Bandolim & Waldir Azevedo”, RJ: Chantecler, 1974/1982.

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