Amanhã? Talvez.

Capa de Agustín Jordá Villacampa

“…No exterior do minúsculo território medieval do Vaticano, o mundo vive em plena crise. Sopram os ventos da mudança, e surgem os prenúncios de tempestade, ora num lugar, ora noutro. A corrida armamentista, entre os Estados Unidos e a Rússia, prossegue no ritmo de sempre. Todos os meses se noticiam novos lançamentos para os espaços extraterrestres. Há fome na Índia, lutas de guerrilhas nas penínsulas meridionais da Ásia. Há tormentas acumulando-se sobre a África, e as bandeiras esfarrapadas da Revolução flutuam sobre muitas capitais da América Latina. Há sangue nas areias da África do Norte, e na Europa a batalha pela sobrevivência econômica trava-se, incessantemente, por detrás das portas fechadas dos bancos e das reuniões das assembleias nas grandes empresas. Nos ares, sobre o Pacífico, voam aviões militares para analisar a poluição atmosférica provocada pelas poeiras radioativas. Na China, os novos amos lutam para encher a barriga de milhões de famintos, enquanto permanecem acorrentados à rigidez ortodoxa da filosofia marxista. Nos vales enevoados do Himalaia, onde pairam os guiões das plantações escalonadas, há ataques e incursões, unidos do Tibete e de Sinkiang. Nas fronteiras da Mongólia Exterior, a amizade periclitante entre a Rússia e a China atinge quase o ponto de ruptura. Barcos de patrulha vigiam os ilhéus e os pântanos da Nova Guiné, enquanto as tribos do planalto tentam projetar-se no século XX, saltando simplesmente da Idade da Pedra”.

Por toda parte, o homem adquire a consciência da sua transitoriedade e luta, desesperadamente, para conseguir o que de melhor o mundo lhe possa dar, no curto espaço de tempo em que nele tem de viver. Os nepaleses, perseguidos pelos seus demônios da montanha, o cule, correndo exausto, entre os varais de um jinriquixá, os israelitas, guerrilhando ao longo das suas fronteiras, todos eles, todos os homens se puseram, quase de repente, em busca de algo que os identificasse com vida; todos os homens seguirão e ouvirão aquele que lhes promete essa identificação.

…No Brasil, deparamo-nos com uma imensa expansão industrial e, ao mesmo tempo, com uma enorme população de camponeses a viver na mais degradante pobreza. Para quem se voltam eles, em busca de um paladino para a sua causa? Para os comunistas. Não pregamos nós a justiça? Não deveríamos estar prontos a morrer por ela, tal como por qualquer outro artigo de fé? Pergunto-vos de novo: em que falhamos?

…Os marxistas prometem uma união completa dos trabalhadores do mundo. Os nacionalistas dão-lhe uma bandeira e uma fronteira, uma ampliação local de si próprio. Os democratas oferecem-lhe a liberdade, através de uma urma eleitoral, mas avisam-no de que talvez tenha de morrer para salvaguardar essa liberdade.

Não obstante, para o homem e para os profetas que ele gera, o maior e derradeiro inimigo é o tempo, uma dimensão relativa, diretamente limitada pela capacidade dos homens no seu uso. As comunicações modernas, velozes como a luz, reduziram a quase zero o tempo entre as ações dos homens e as suas consequências. Um tiro disparado em Berlin pode fazer explodir o mundo em poucos minutos. Uma epidemia nas Filipinas pode infectar a Austrália num dia. Um equilibrista pode tombar do arame num circo de Moscou e a sua morte ser vista em Londres ou Nova York.

Assim, também, cada profeta e cada líder é assombrado pela passagem rápida do tempo e pelo conhecimento de que as falsas predições ou as promessas quebradas são, hoje em dia, mais rapidamente descobertas do que em qualquer outro período da história. Eis, precisamente, a verdadeira causa da crise. Aqui nascem os ventos e as ondas, aqui se forjam os relâmpagos, esses que a todo momento, a qualquer hora de qualquer mês, podem converter-se em nuvens, com a sinistra forma de cogumelos gigantescos.

... O perigo de todos os dirigentes é começar a pensar que a história é o resultado de grandes generalidades, em vez da soma de milhões de pequenos casos particulares, desde os esgotos imperfeitos até o mosquito anófele… Nenhum governante pode escapar ao veredito da história; mas um governante que mantém um diário arrisca-se a ser maltratado por aqueles a quem julga...” (1).

O leitor, há de questionar, é óbvio: 1. Quem é o autor dessas constatações históricas? 2. De quando são esses relatos? 3. Como vivia (ou ainda vive) o mundo? 4. Por que, da América Latina, apenas o Brasil é citado? Antes de responder às questões suscitadas, vamos entender melhor o que é fato histórico. Segundo o historiador Osvaldo Rodrigues de Sousa, “Nem todos os acontecimentos interessam à história. Constitui objeto de estudo apenas o fato histórico, que é singular, irreversível, de repercussão social, influindo de algum modo nos eventos posteriores, e é estudado através de vestígios e documentos. O assassinato de John Kennedy, por exemplo, é um fato histórico. Fosse ele um simples cidadão e não um chefe de Estado, seria apenas, um fato social. Todo fato histórico é social, mas nem todo fato social é histórico” (2).

Muito bem. As citações aqui reproduzidas são de autoria do mundialmente conhecido escritor australiano Morris West (1916-1999) e então no bojo do livro “As Sandálias do Pescador”, originalmente publicado em 1963 sob o título: “The Shoes of the Fisherman” (e no Brasil, na década de 1980), ou seja, há 58 anos, à época (anos 60), quando o mundo vivia econômica, política e ideologicamente a bipolarização, isto é, de um lado países liderados pelos EUA voltados para o capitalismo. Do outro, os países comandados pela URSS, defensora número um do socialismo. Assim, desde o pós-guerra dos anos 40, estava instalada a chamada Guerra Fria entre as duas potências mundiais. Não se descartava, portanto, uma guerra nuclear. Hoje, as contendas bélicas, os estremecimentos econômicos e comerciais são bem mais complexos do que há seis décadas. Outros países como Israel e China, são ameaças nucleares também, Há 60 anos, não.

Apenas o Brasil foi citado – entre mais de 30 países latino-americanos, por quê? Por vários fatores. O escritor faz menção à fé católica de um lado e do outro o comunismo. Porém, abertamente ele ilustra essas ambiguidades Brasileiras: ponto 1: a expansão industrial, o progresso; ponto 2: a desigualdade social por meio da qual a miséria grassa assustadoramente no campo, na zona rural. O próprio autor pergunta: “se pregamos a justiça, em que falhamos?”.

Finalmente voltemos às citações: o que Morris descreve em suas páginas na segunda metade do século XX, e nessas primeiras décadas do século XX1, eram e são realidades humanas. Por exemplos: as guerras comerciais, territoriais; a fome se alastrando mundo afora; refugiados por todos os continentes; as comunicações numa velocidade estonteante; “uma epidemia nas Filipinas pode infectar a Austrália em um dia”. Atualmente, a frase é lida assim: “uma pandemia exportada pela China (propositalmente?), detectada em dezembro de 2019, contaminou o mundo em pouco tempo, etc.

Recomendamos a todos uma detida leitura de “As Sandálias do Pescador”, cuja edição traz a impecável tradução de Fernando de Castro Ferro, e qualquer semelhança com a verdade sobre a ação homem, não é mera coincidência. Cabe, portanto, cada um de nós refletir sobre os “novos” temas postos na pauta do dia pelos líderes das grandes nações, na condução dos destinos da humanidade. Amanhã? Talvez. Ou seja, haverá Paz?

“A pátria do homem devia ocupar um lugar da Terra onde não houvesse sombra”. Graça Aranha, in “Canaã” (1909).

Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros

Fontes

  1. West, Morris. “As Sandálias do Pescador” – SP: Círculo do Livro, 1980 (?)
  2. Sousa, Osvaldo Rodrigues de, “História Geral“. 14. ed. SP, Ática, 1976.

Um comentário em “Amanhã? Talvez.

  1. Amigo vc é por demais Fantástico! Não conhecia as citações desse escritor, mas percebe-se no decorrer de sua explanação, á sua preocupação sobre a importância de observarmos a decadência generalizada em todo mundo. Parabéns por nos trazer esses conhecimentos.

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