“A incomparável MARIA CALLAS”

foto de Cecil Beaton – encarte dos CDs em análise

“Maria Callas é um dos grandes ícones culturais do século XX. Conhecida pelos seus admiradores como “A Divina”, já passaram mais de quarenta anos desde a sua última aparição em palco e, contudo, ainda hoje, trinta anos após a sua morte, o magnetismo do seu nome continua tão forte como sempre. Para o público em geral, ela foi uma estrela de ópera fascinante, cuja vida fora dos palcos foi tão plena de acontecimentos e tão dramática como muitas das personagens que representou. Para os amantes da música, ela é uma das maiores cantoras de todos os tempos, que só agora começa a ser plenamente apreciada.

O primeiro CD tem início com Callas interpretando óperas de Puccini e de outros compositores de finais do século XIX. Callas nunca cantou “Gianni Schicchi” nem “La Bohémie”, no teatro, mas as suas interpretações das heroínas Lauretta e Mimi são plenamente convincentes. Seguem-se poderosas interpretações de duas árias dramáticas que fizeram parte da banda sonora de filmes com “Diva” e “Filadélfia”. São elas Ebben? ne andrò lontana de “La Wally”, de Catalani, e La mama morta de “Andrea Chénier de Giordano, separadas por dois excertos de “Adriana Lecouvreur”, a ópera de Cilea sobre uma atriz parisiense. Segue-se a emocionante súplica Vissi d’arte, de “Tosca”, na qual ela pergunta a Deus porque é que a sua vida dedicada à música e à caridade foi recompensada com dor e sofrimento. “Tosca de Pucinni’ foi a ópera em que a jovem Callas saboreou pela primeira vez o estrelato, cantando com a companhia de Teatro Lírico de Atenas, em 1942 (aos 19 anos). E foi também com esta ópera que se despediu dos palcos na Rayol Opera House, no Covent Garden, em julho de 1965. Seguem-se outras interpretações de heroínas de Puccini, incluindo a tragédia geisha japonesa conhecida como Madame Butterfly, certa de que o seu irresponsável marido norte americano regressará um dia para ela, em Un bel di vedremo; Liú, a leal escrava que sacrifica a vida para salvar o seu amo, o príncipe Calaf, em Signore, ascolta e Tu, che di gel sei cinta; e finalmente, a fria princesa chinesa Turandot, que narra o horrível assassinato da sua antepassada, a princesa Lou-Ling e declara o seu ódio a todos os homens na ária In questa reggia.

Passamos à música de Verdi, um compositor cujas óperas tiveram um papel central na carreira teatral e óperatica de Callas. Em Caro nome, de “Rigoletto”, num ambiente de inocência juvenil, Gilda medita no seu amor pelo jovem que ela vê na igreja aos domingos, tomando-o por um estudante pobre. Segue-se uma breve amostra da comovente Violetta de Callas, em Ah, fors’è lui numa representação da “Traviatta” gravada ao vivo em Lisboa, em 1958. Depois, podemos ouvir, em D’amor sull’ali rosee de “Il Trovatore”, a nobre Leonora, pensando no seu amado Manrico à torre do castelo onde ele aguardava a sua execução. Na ária Mercè, dilette amiche, de ” I vesperi siciliani”, a duquesa austríaca Elena agradece às suas amigas as flores que recebeu de presente para o seu casamento. Ao terminar este primeiro CD, duas peças do repertório bel canto que demonstram o excepcional controle que Callas tinha sobre o seu registro vocal e o seu completo domínio da ornamentação floreada que caracteriza este tipo de música. Em Compagne, teneri amici da ópera “La Sonnambula”, de Bellini, ouvimos a camponesa Amina agradecendo as felicidades que seus amigos lhe desejaram. A finalizar, segue-se a ária Regnava nel silenzio… Quando rapito in estasi, a longa cena que apresenta a heroína trágica da obra prima de Donizetti “Lucia de Lammermoor”, outra ópera de que Callas se apoderou tanto no palco como em disco.

O segundo CD inicia-se com Casta Diva, uma prece à lua cantada pela sacerdotisa druida Norma na ópera homônima de Bellini. Este papel foi uma das peças fundamentais do repertório de Callas, que o cantou em palco cerca de noventa vezes. Depois, em Una voce poco fa, ouvimos Callas num dos únicos papéis cósmicos que interpretou na sua carreira, ambos de Rossini. Eis Rosina, em “Il Barbierie di Siviglia” descrevendo todos os truques a que recorrerá se fôr contrariada em assuntos do coração. Callas regressa a Verdi comum registro soberbo de Ernani, Ernani, involami de “Ernani”, e outra interpretação espetacular de Ritorna vincitor! de “Aida”. Esta viagem musical prossegue com algumas obras de compositores franceses. Callas nunca cantou em francês na ópera, mas causou sensação com as suas interpretações do repertório francês em estúdio e ao vivo nas salas de espetáculo, tendo inclusivamente cantado alguns papeís de mezzo-soprano. O que seu domínio de música de gluck é demonstrado em J’ai perdu mon Eurydice, o apaixonado lamento de Orfeu após a morte de sua amada Eurídice. Muitos directores de ópera de todo o mundo imploraram a Callas que cantasse a “Carmen” de Bizet, mas ela recusou-se sempre a fazê-lo embora tenha feito uma gravação em estúdio que nos dá uma ideia do que poderia ter sido a sua interpretação em palco.

De regresso ao repertório de soprano, com Je veux vivre, Callas é uma brilhante Julieta, entusiasmada por assistir ao seu primeiro baile. De seguida, podemos ouvir a famosa cena da carta de Charlotte da ópera “Werther” de Massenet.

A sedutora Dalila é outro papel que Callas poderia ter interpretado memoravelmente no palco, se alguma vez tivesse decidido interpretar o repertório de mezzo-soprano; assim, temos de nos contentar com as suas gravações em estúdio desta música sensual. Terminamos com três árias francesas para soprano. Primeiro, conhecemos a inconstante Manon, prestes a trocar o seu jovem e pobre amado pelos confortos de uma vida de luxo com um homem mais velho mas rico. Depois, Louise, uma operária parisiense, expressa a sua felicidade por viver com o seu amado, o poeta Julien, recordando a emoção do primeiro beijo. Por fim, Callas interpreta Marguerite, cantando a célebre Ária das Joias da ópera “Fausto”, de Gounod.

É apropriado que esta compilação das gravações de Calas termine com várias óperas parisienses, já que foi em Paris que Callas passou a última parte da sua vida, depois da mediática relação com o magnata e armador grego Aristóteles Onassis ter terminado quando este a deixou para casar com Jaqueline Kennedy. Viveu os últimos anos recolhida no seu apartamento parisiense e morreu de causas naturais, com a idade tragicamente prematura de 53 anos, no dia 16 de setembro de 1977. Callas, a mulher, já não está entre nós; Callas, a artista, viverá eternamente” (1). E como viverá. Não temos dúvida.

Este fantástico relato é de Tony Locantro, com tradução da própria gravadora, a gigante norte americana do mundo fonográfico EMI, datado de 2007, quando da passagem dos 30 anos da morte da artista. Os dois CDs sob o título “Maria Callas: única” são um clássico. Uma verdadeira obra-prima. Além deles, a discografia completa de Callas, é algo fascinante. Quem tiver interesse é só conferir, pelo menos, este incontestável trabalho. sobre o qual nos dispusemos analisar.

Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros

Fonte: 1. Box com 2 CDs “Maria Callas: única”, Rio de Janeiro, EMI Records, 2007.

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