7º Tour Cultural do Facetas

Olá, leitores. Hoje o nosso passeio tem três paradas cujas leituras são bem agradáveis. Sobre Elis, Manaus e Alceu Valença. Vamos, então, aos temas a seguir sugeridos.

1 – “Elis – Luz das Estrelas”

Nos anos 80, a tecnologia empregada na indústria fonográfica já era tão moderna que as gravadoras se instalavam em várias partes do mundo com as mesmas técnicas, a partir de duas grandes matrizes: a da Inglaterra e a dos EUA. No Brasil, esse processo não foi diferente. Tínhamos gigantes como RCA, CBS, EMI, entre outras. Assim como as nacionais, entre elas, a poderosa SOM LIVRE.

Por exemplo, em 1984 – dois anos após a morte da cantora Elis Regina -, a Som Livre lançou o LP “Elis – Luz das Estrelas”, contendo 10 músicas, como Pra Lennon e McCartney (Lô Borges-Fernando Brant), Velho Arvoredo (Paulo Cesar Pinheiro-Hélio Delmiro), Corsário (João Bosco-Aldir Blanc), Triste (Tom Jobim). Até aqui tudo bem. Qual é a novidade? Leiamos como surgiu esse magnífico disco, segundo a gravadora.

“A origem deste trabalho está numa fita gravada por Rogério Costa, durante a realização de um especial de Elis para televisão em 1976”. Irmão da cantora, ele sempre registrava os shows e especiais para seu arquivo pessoal. Não havia, portanto, preocupação com nível de voz, mixagem, etc.

Quando o simples material chegou a gravadora, Max Pierre quis “mostrar ao público, através de um novo trabalho de arranjos e acompanhamentos, uma Elis cantando com uma linguagem de técnicas novas”, cujo processo de “purificação” era muito complexo de gravação, ou seja, os técnicos tinham “a voz definitiva na fita e sobre ela é que iriam criar a base e o acompanhamento” (1).

Aí foi feito o translado do conteúdo dos originais de uma fita de 16 canais para uma de 24 canais. “Já nesta transcrição começou um processo de tratamento de voz, reajuste dos níveis para os padrões atuais (ou seja, de 1976 para 1984), a utilização de “dolbys” para diminuir os ruídos existentes”. Depois, foi a vez de edição e de clicagem, isto é, foram colocados alguns trechos de fita virgem em músicas para complementação de arranjos, inclusão de solos, etc”.

Para tal realização, foram gastas dezenas de horas em estúdios até “conseguir colocar na fita um sinal de guia, uma vez que o arranjo original seria completamente apagado”. Na música Corsário, para ficar claro, “há um trecho que no original era samba e depois transformou-se em bolero”, prova da genialidade de Elis. “Foi o momento mais difícil”, tecnicamente falando, diz a gravadora.

Na mixagem, “foi onde se deu praticamente todo o trabalho de laboratório de estúdio. Primeiro para colocar o timbre da voz com a qualidade do som de hoje, segundo para evitar que as pessoas ouvissem o vazamento de ruído de alguns instrumentos” (1), apesar de gravados em canais diferentes, ou melhor, individuais. Portanto, “o LP “Elis” é o resultado de um trabalho quase artesanal e sensibilidade, onde a preocupação maior foi manter total fidelidade ao que ela gostaria ter feito no disco que não chegou a ser gravado (Elis morreu em março de 1982).

Trata-se, no entanto, de um disco fascinante. Recomendamos aos nosso leitores, a audição do mesmo. Esse LP – foto da capa acima – pode ser encontrado no mercado livre por colecionadores.

Fonte 1: LP “Elis – Luz das Estrelas”, – SP: Som Livre, 1984.

2 “MANAUS em poesia”

“Nossa cidade sonhada traduz, de certa forma, nosso tempo e lugar perdidos, ambos reinventados pela memória e linguagem” (Milton Hatoum, 1ª ed. 2016).

Esta é a dedicatória: “Para Angeline, um pouco das histórias da nossa cidade cantadas em versos e imagens. Carinhosamente, Evany”. Fala-se do interessante livro MANAUS em poesia”, de autoria da historiadora, pesquisadora, poetisa e professora amazonense Evany Nascimento. Os poemas contidos na obra em questão têm significados, nu mínimo, duplo, ou seja, os versos em si, e trazem sonoridade e rimas de lugares históricos de Manaus, como o Encontro das Águas, o Teatro Amazonas, Paço Imperial, Palácio da Justiça, entre outros. Assim como nomes de grandes vultos da cultura estadual, sejam da prosa e poesia, da música, da História, ou da arquitetura. entre eles destacamos: Milton Hatoum, Elson Farias, Thiago de Mello, Aldísio Fingueiras, Mário Ypiranga, Nunes Filho, Zeca Torres, Otoni Mesquita, etc, etc.

Tem mais: os elementos do meio ambiente (logradouros, árvores e outros encantos naturais da nossa cidade, da nossa gente e visitantes), também aparecem em rimas e versos. A 2ª edição (setembro/2019) traz consistente apresentação de Allison Leão, na qual, oportunamente, ele conclama a todos ao conhecimento cultural, assim: “Por tudo exposto, convido o leitor e a leitora, especialmente aqueles que trabalham com a arte, a história e a literatura na Educação Básica, sobretudo em Manaus, extensivamente no Amazonas, a conhecer e fazer essa viagem no tempo e no espaço com seus estudantes. Boa leitura!” (2).

As duas primeiras estrofes do primeiro poema, Meu Nome, retratam bem a originalidade do eu lírico, do morador de Manaus, nestes termos: “Eu nasci de um grande encontro/De dois rios e suas tormentas/O Rio Negro de águas escuras/E o Solimões de águas barrentas. // Esse ponto era estratégico/E minha história começa aqui/Muitos nomes eu fui recebendo/Mas essa herança eu nunca perdi”.

Curiosamente (a poesia é desse jeito mesmo: surpreende sempre), o último poema #Sou Plural, atualiza os 3,5 séculos de vida da cidade, com estas palavras: “Eu sou hoje todas as misturas/Que vivi e que me trouxeram/Tenho um lado índia e um lado europeu/E de todos os povos que aqui vieram. // Se tenho nas ruas e na arquitetura/A parte europeia traduzida aqui/Tenho os hábitos indígenas/Na comida e na rede de dormir”.

Fantástico! Fantástico! O livro é excelente e o recomendamos aos nos leitores. O Facetas fez contato com a escritora a que foram formuladas algumas perguntas para melhor enriquecer o nosso conteúdo. Mas, acreditamos, que devido aos seus afazeres outros, não foi possível respondê-las até o fechamento deste artigo. Os interessas na aquisição de MANAUS em poesia, devem contata-la.

Fonte 2: Nascimento, Evany. Manaus em poesia. – 2. ed. – Manaus: Universidade do Estado do Amazonas (UEA), 2019.

3 Os “sons marítimos” de Alceu Valença

Em 2009, o “artista plural” e pernambucano Alceu Valença, lançou o álbum de timbres “Ciranda Mourisca”, com 12 músicas, sendo 11 de sua autoria e uma dele com Hebert Azul. Algumas como: Amor Que Vai, Sino de Ouro, Molhado de Suor, Loa de Lisboa, Ciranda da Rosa Vermelha.

Em entrevista a Cristiano Bastos, disse que foi buscar inspiração no litoral, em mar aberto. Onde estão os “sons marítimos” para um disco todo elaborado conscientemente, cujo repertório fica completo com canções que há muito tempo estavam esquecidas ou que ainda não haviam sido interpretadas por ele.

Disse que a ideia para esse trabalho nasceu de Ciranda da Rosa Vermelha, “que Elba Ramalho transformou em hit.” Agora, a canção “ganhou nova versão junto com outras, pinçadas de sua própria discografia (que não foram parar em rádios ou coletâneas)”, como Pétalas (1994) ou Dente de Oriente (1974), entre outras, que “haviam passado despercebidas”, assegura artista.

Não por acaso, foi junto ao mar que Alceu foi eternamente fisgado pela música, por um lado. Por outro, diz: “Em mim, ela já estava presente desde criança, quando ouvia Luiz Gonzaga”. Entretanto, “quando visitei Olinda pela primeira vez ouvi os cantos mediterrâneos e medievais dos mosteiros. Fiquei deslumbradíssimo ao ver o mar! Nesse momento tive um ‘debruçar poético sobre o mundo’ “.

Naquele mesmo ano (2009) o artista retorna ao cinema (em 1974, atuou em “Noite do Espantalho”, de Sérgio Ricardo). Agora estreia como diretor, em “Cordel Virtual ou o Mistério da Luneta do Tempo”, uma ópera popular. “Quando não estiver sendo cantado, o filme estará sendo narrado em versos”, define Alceu” (3).

Nós, do Facetas, recomendamos mais essa excelente obra desse notável cantor e compositor nordestino, o qual diz ter orgulho de ser pernambucano.

Fonte 3: “Mar aberto”, Revista Rolling Stone Brasil,. – SP: abril de 2009, p. 22.

Notinha útil – Hoje é o Dia Nacional do Choro, ou seja, do gênero musical Chorinho, em homenagem ao inesquecível Alfredo da Rocha Vianna Filho, o Pixinguinha, que nasceu no RJ, no 23 de abril de 1897,autor de clássicos como Carinhoso. Viva o choro! Viva Pixinguinha! Vivam os amantes da música!

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