O poeta chileno Pablo Neruda (1904-1973), já foi citado quatro vezes pelo Facetas e sempre será referenciado, quando necessário. Sua grandeza poética deve ser pesquisada e publicada aos nossos seguidores. Suas obras são extraordinárias. Sejam em prosa ou verso tocam os leitores. Seja um verso, um soneto ou uma crônica.
Neruda foi, sem dúvida, uma das maiores vozes da poesia mundial do nosso tempo. “A mesmo tempo, o poeta engajado nas causas da liberdade, o exílio, o resistente, é protagonista de uma das aventuras mais expressivas da lírica em língua castelhana. Seus poemas de amor – e estes Cem Sonetos de Amor (1959) são um dos seus legados mais perfeitos – emocionaram várias gerações” (1).
Nessa obra o autor evoca o amor e a nostalgia do ontem. Mas, seus poemas, seus versos têm a mesma fonte inspiradora: Matilde Urrutia (1912-1985). Com quem foi casado de 1966 até a sua morte em 1973. Boa parte do tempo o casal viveu em Isla Negra, no Pacífico. 
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É dele essa confissão: “Com muita humildade, fiz estes sonetos de madeira, dei-lhes o som desta opaca e pura substância (…)”, quando da conclusão do livro, em outubro de 1959, ele escreve:
“Senhora minha muito amada, grande padecimento tive ao escrever estes malchamados sonetos e bastante me doeram e custaram mas a alegria de oferecê-los a ti é maior que uma campina. Ao propô-lo bem sabia que ao costado de cada um, por afeição eletiva e elegância, os poetas de todo tempo alinharam rimas que soaram como prataria cristal ou canhonaço. Eu, com muita humildade, fiz estes sonetos de madeira, dei-lhes o som desta opaca e pura substância e assim devem alcançar teus ouvidos. Tu e eu caminhando por bosques e areais, por lagos perdidos, por cinzentas latitudes recolhemos fragmentos de pau puro, de lenhos submetidos ao vaivém da água e da intempérie. De tais suavíssimos vestígios construí com machado, faca, canivete estes madeirames de amor e edifiquei pequenas casas de quatorze tábuas para que nelas vivam teus olhos que adoro e canto. Assim estabelecidas minhas razões de amor te entrego esta esta centúria: sonetos de madeira que que só se levantaram porque lhes desde vida”.

Cem Sonetos de Amor, digamos assim, está dividido em quatro partes: MANHÃ, com 32 poemas; MEIO-DIA, com 21; TARDE, com 25; e NOITE, com 22, totalizando 100. Cada um mais belo que o outro. É impressionante! Tem mais: uma particularidade em cada soneto: todos são iniciados com um, dois ou três vocábulos em maiúsculo. Por exemplo: “MATILDE, nome de planta, ou pedra ou vinho”. “A IDADE nos cobre como garoa”. “NÃO TE AMO como se fosses rosa de sal, topázio”.
Neruda foi casado por três vezes. O primeiro casamento com Maria (Marika) Antonieta Hagenaar Vogelzang, holandesa, nascida em Java, de 1930 a 1942, com quem teve uma filha. O segundo com a argentina Delia del Carril, de 1943 a 1966 (sem filhos) e o terceiro com Matilde Urrutia Cerda, de 1966 até 1973, ano da morte do poeta (também sem filhos). Não se trata de fase literária, mas foi quando da convivência com cada uma delas, que Pablo reafirma as suas posições políticas onde quer que estivesse, como cônsul, embaixador ou figura intelectual. Fosse em Santiago, Buenos Aires, Madri, Birmânia (atual Myanmar), etc. 
Ao lado de Marika escreveu uma de suas principais obras, Residencia en la tierra (1933). “O tom do livro é de profundo pessimismo e em torno dos temas do tempo, da ruína, da desintegração e da morte, e exprime a visão de um mundo caótico” (2). Quando convivia com Delia, foi inspirado a publicar España en el corazón (1937), sobre a guerra civil espanhola. |Esse fato “determinou uma mudança profunda na atitude do poeta, que aderiu ao marxismo e decidiu consagrar sua obra e sua vida à defesa dos ideais políticos e sociais inspirados pelo comunismo” (2). Porém, foi quando da união com Matilde, morando em Ilha Negra (belo lugar exibido no filme O Carteiro e o Poeta), que a poesia de Neruda adquiriu “uma grande diversidade e, nas Odes elementales (1954) cantava a vida cotidiana, em Cien sonetos de amor (1959) e em Memorial de Isla Negra (1964) evoca o amor e a nostalgia do passado em imagens expressivas” (2).
Soneto, para quem não lembra mais, é um pequeno poema fixo, composto por quatro estrofes, sendo as duas primeiras formadas por quatro versos cada, e as duas últimas, de três versos cada. Mas, com número variável de silabas.
Em Cem sonetos de amor, por quase 40 vezes o autor cita a palavra AMOR, e por quase 20, a palavra FOGO. Entre os poemas estão versos superespetaculares, tais como: “AMOR, quantos caminhos até chegar a um beijo“; “Oh. Amor, agora esquecemos a estrela com pontas!“; “O amor soube antão que se chamava amor“, ou “Amado pelo fogo“; “O fogo do teu corpo noturno“; “As vidas do mar com as do fogo”, etc, etc, etc.
E quando, num mesmo poema ou verso, o grande poeta reúne os dois termos, tudo fica mais fantástico ainda como no soneto 23. Assim: “Foi luz o fogo e pão a lua rancorosa (…)/ Oh amor, como de repente, dos rasgos“. Isso nos faz lembrar outro gigante da poesia mundial,Camões, o seguinte verso camoniano: “Amor é fogo que arde sem se ver“.
Para que tudo não fique apenas nas expectativas. Vamos à leitura de uma estrofe de três sonetos. E um soneto por inteiro de cada “parte” do livro (sem critério de escolha; a beleza poética está em todos os 100):
MANHÃ – SONETO 25
ANTES de amar-te, amor, nada era meu:
vacilei pelas ruas e as coisas:
nada contava nem tinha nome:
o mundo era do ar que espera.
                                         MEIO-DIA – SONETO 45
  
                                         ERA VERDE o silêncio, molhada era a luz,
                                         tremia o mês de junho como uma borboleta
                                         e no astral domínio, desde o mar e as pedras, 
                                         Matilde atravessastes o meio-dia.
TARDE – SONETO 44
DE TANTO AMOR minha vida se tingiu de violeta 
e fui de rumo em rumo como as aves cegas
até chegar a tua janela, amiga minha:
tu sentiste um rumor de coração quebrado.
                                         NOITE – SONETO 79
    
                                         DE NOITE, amada, amarra teu coração ao meu
                                         e que eles no sonho derrotem as trevas
                                         como um duplo tambor combatendo no bosque
                                         contra o espesso muro das folhas melhoradas.
                                              Noturna travesse, brasa negra do sonho
                                              interceptando o fio das uvas terrestres
                                              com a pontualidade de um trem descabelado
                                              que sombra e pedras frias sem cessar arrastasse.
                                         Por isso, amor, amarra-me ao movimento puro,
                                         à tenacidade que em teu peito bate
                                         com as asas de um cisne submergido,
                                              para que às perguntas estreladas do céu
                                              responda nosso sonho com uma só chave,
                                              com uma só porta fechada pela sombra.
Aos nossos leitores, esperamos que estejam cheios de vontade de boas realizações como nós, neste início de mês, início de ano e início da terceira década deste século, para declararem o amor como fez Neruda à sua amada Matilde: mesmo que seja pequeno o edifício e simples seus madeirames de poucas tábuas, mas que possa abrigar os olhos e o coração da pessoa amada.
                       “Assim estabelecidas minhas razões (as dele, do poeta ou as nossas) de amor 
                           te entrego esta centúria: sonetos de madeira que só se levantaram porque 
                                lhes deste a vida”. 
Que os nossos amores também nos proporcionem vida. Muita vida!
Pesquisa e texto por: Francisco Gomes
Arte e formatação: Winnie Barros
Fontes
1. Pablo, Neruda, Cem Sonetos de Amor, tradução de Carlos Nejar: – Porto Alegre: LePM, 1998
2. Nova Barsa, RJ/SP, volume 10, 1999, pp. 93/94.
3. Imagem disponível no site La Nación