Nas décadas de 70 e 80 era comum o lançamento de discos por atores, poetas, compositores e, até mesmo cantores, no formato recital, quando declamavam seu próprios poemas e/ou composições de outros autores. Portanto, reuni alguns desses como: Barros de Alencar, Carlos Drummond de Andrade, Rubens de Falco, Francisco Couco, Vinicius de Moraes, Odete Lara, Thiago de Mello e Paulo Gracindo. Só para lembrar, a cantora Maria Bethânia, sempre inseriu nos seus discos textos poeticamente divinos.
Vamos então a um deles: Paulo Gracindo. Seu nome oficial era Pelópidas Guimarães Brandão Gracindo (1911-1995). Em 1975 ele lançou o LP “DIZ”, com 12 faixas impecáveis. Para seu dizer o ator contou com orquestrações e regências do maestro Lindolfo Gomes Gaya, ou simplesmente maestro Gaya (99 anos). As canções-poemas são: Meiga Presença (Paulo Valdez-Otávio de Moraes), Chão de Estrelas (Silvio Caldas-Orestes Barbosa), Com Açúcar, Com Afeto (Chico Buarque de Hollanda), Pra Você (Sílvio César), Por Causa Desta Cabocla (Ary Barroso-Luiz Peixoto), O Mais Que Perfeito (Jards Macalé-Vinicius de Moraes), Viagem (João de Aquino-Paulo Cesar Pinheiro), Estrada Branca (Tom Jobim-Vinicius de Moraes), Valsinha (Vinicius de Moraes-Chico Buarque), Preciso Aprender a Ser Só (Marcos Valle-Paulo Sérgio Valle), Maria (Ary Barroso-Luiz Peixoto) e Suas Mãos (Antonio Maria-Pernambuco).
Tem mais: em 1974 Gracindo fez um  trabalho semelhante. Foi em Brasileiro, Profissão Esperança, gravado ao vivo juntamente com Clara Nunes, sobre texto de Paulo Pontes e direção de Bibi Ferreira. Esse LP tem um conteúdo tão rico (e impecavelmente produzido), que poderá suscitar tema para outro artigo do gênero, pelo Facetas.
Na contracapa de “DIZ”, há um comentário de Ricardo Cravo Albin – o qual, à época, já era apaixonado por música -, hoje, aos 79 anos, é um dos mais respeitados musicólogos e historiador do país (por assim dizer, o seu site – dicionariompb.com.br) é um dos mais confiáveis catálogos virtuais da música brasileira, no qual ele relata o seguinte sobre o ora comentado aqui trabalho de Paulo Gracindo:
“Coisa sempre espantosa é o fenômeno que representa a força criadora da palavra, quando falada por Paulo Gracindo. E este disco de Paulo Gracindo pode abrir um caminho inédito para a música popular brasileira: o sentido da percepção e da recuperação global da LETRA da canção popular.
Eu penso isso porque a verdade mesmo é que quando uma canção qualquer ganha a boca do povo ela acaba por incorporar-se aos mecanismos de automatização do inconsciente de cada um de nós, e de tal ordem e com tal força, que música e letra se tornam um bloco só, monolítico e coeso. E nisso, nesta integração “música + letra”, ou nessa indissociabilidade de ambas, a LETRA da música acaba perdendo aos poucos sua força e, em alguns casos, até anula-se por completo. Quantas vezes a gente se surpreende cantarolando ou ouvindo uma canção conhecida sem sequer reparar no que ela transmite ou no que quer dizer?
E este disco prova exatamente isso; ele representa não apenas a valorização da estrutura literária contida não canção popular, senão também uma quase descoberta de alguém de seus valores poéticos até então não percebidos pela grande maioria dos ouvintes.
E ninguém melhor para recuperar todos esses valores tantas vezes perdidos que existem dentro de letras conhecidas da canção popular que esse mago da arte de dizer que é Paulo Gracindo. 
Paulo Gracindo, a par de ser um dos melhores e mais rigorosamente completos atores do Brasil, é dono de uma voz privilegiada e famosíssima; não é atoa que desde as inesquecíveis novelas (ou dos auditórios) da Rádio Nacional nos anos 50, a voz de Paulo Gracindo já se incorporou ao patrimônio cultural deste país. 
Neste disco, contudo, Paulo atinge a um momento definitivo na arte de sacralizar a palavra que emite; o artista celebra a palavra, dizendo-a com tal emoção, que cada uma por si só já tem quase sua força própria. E todas elas juntas em frases, em versos, em estrofes, quando ditas por Paulo, atingem a níveis inesperados de beleza e em liberação de cargas emocionais diversas. 
Paulo Gracindo diz aqui as letras de doze peças importantes da música popular brasileira. Só que não diz apenas; ele, na verdade, quase que canta esses doze poemas, porque as músicas também estão no disco e são lindamente executadas através dos arranjos do excelente maestro Gaya (arranjos impecáveis, já se vê, em bom gosto, sobriedade e qualidade musical). E é sobre esses arranjos de Gaya que Paulo diz ou quase canta as letras, dividindo-as tal qual um cantor faria, isto é, acompanhando com precisão profissional o andamento e as divisões que o desenvolvimento melódico da música requer; tão bem ele acompanha a estrutura da música dentro do arranjo de Gaya que a qualquer momento a gente pensa que Paulo canta mesmo (aliás, nos versos de “Maria”, de Luiz Peixoto, ele não resiste e explode em música, cantarolando, um dos acordes da partitura de Ary Barroso).
Quanto a seleção das músicas, ou melhor das LETRAS, é de muito boa qualidade: tem três Vinicius, dois Chico, um Paulo Cesar Pinheiro, dois Luiz Peixoto, um Orestes Barbosa, um Antonio Maria, um Otávio de Moraes, um Sílvio César e um Paulo Sérgio Valle. Nas doze letras há um ponto em comum: todas elas tratam das dores poliformes  do amor e da tristeza vária decorrente delas. E com que elasticidade de interpretação, com que opulência de recursos teóricos, com que sentimento de contemporaneidade despojada de preciosismos rococós, esse “grão-sacerdote” da arte do dizer degusta e sorve com volúpia cada uma das palavras que proclamam o amor. 
Eu acredito muito neste disco de Paulo Gracindo: e porque acredito reclamo desde logo outros, nos quais se incluam não só por certo todos os letristas que aqui já estão, mais ainda poetas da canção popular do nível de Noel Rosa, Jorge Faraj, Caymmi, Zé Dantas, Dolores, Cartola, Nelson Cavaquinho, Candeia, Paulinho da Viola, Caetano, para citar pouco mais de meia dúzia dos pelo menos 50 grandes poetas que iluminaram e iluminam a palavra que o povo canta neste País” (!). .
No dizer do mestre Albin, este disco é o resultado de um trabalho artístico completo, o qual reúne letristas reconhecidamente talentosos. Cada canção melhor que a outra. Cada verso mais belo que o próximo da mesma estrofe. O que dizer destes versos seguintes, ou seja, dos 12 poemas, por exemplo? “Amor amigo, fica ao meu lado sempre“; “Palhaço das perdidas ilusões“; “Quando a noite enfim lhe cansa/Você vem feito criança“; “Pra você eu guardei/um amor infinito“; “Ah, quem me dera/Ir-me contigo agora“; “Hoje a poesia/Veio ao meu encontro“; “Se em vez de noite fosse dia/e o sol brilhasse e a poesia…“; “Que o mundo compreendeu/E o dia amanheceu em paz“; “Ah, o amor/Quando é demais ao findar leva a paz“; “Maria/De olhos de olhos claros da cor do dia“; ” e “As suas mãos, onde estão//Onde está o teu carinho/Onde está você“. Não diga nada. Gracindo nos “DIZ“, ou melhor, nos DECLAMA, para elevar o nosso amor, a nossa emoção.
Vamos a letra de Valsinha, pois, em menos três minutos – 2,35 -, o ouvinte tem a nítida convicção que o amor é realmente um sentimento transformador na vida das pessoas, para melhor (só é válido se for para melhor), é óbvio.
Um dia ela chegou tão diferente
Do jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente
Do que sempre costuma olhar
E não maldisse a vida tanto 
Quanto era seu jeito de sempre falar 
E nem deixou-a só num canto 
Pra seu grande espanto
Convidou-a pra rodar
Então ela se fez bonita
Como há muito tempo
Não queria ousar
O seu vestido decotado 
Cheirando a guardado
De tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços
Como há muito tempo
Não se usava dar
E cheios de ternura e graça 
Foram para a praça 
E começaram a se abraçar
E aí dançaram tanta dança
Que a vizinhança toda despertou
Que toda a cidade 
Se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos
Como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu 
E o dia amanheceu em paz (2). 
Portanto, vamos de música, vamos de poesia, vamos de Paulo Gracindo. Só assim a alegria poderá se sobrepor a tantos desânimos que nos rondam todos os dias. Vamos ao viver; vamos ao amor.
Pesquisa e texto por Francisco Gomes
Arte por Winnie Barros
Perguntinha útil – Como é mesmo o nome do Sr. Ministro brasileiro da Educação?
Fontes
1. LP “DIZ“,  de Paulo Gracindo. Gravadora Odeon, SP, 1975
2. Coleção Literatura Comentada, volume Chico Buarque, Abril Educação, SP, 1980.