Entre “Palavras e Versos”- parte final

Em 19 de fevereiro deste ano, publicamos a primeira parte do tema acima, sobre as ricas biografia e bibliografia do poeta e professor amazonense Elias Souza. Agora, vamos à segunda e última parte desse fascinante estudo. Mas, voltado, especificamente, para a análise de versos de memoráveis poemas contidos em algumas de suas obras.

O próprio assegura: “Amo a poesia porque ela é vida, é sentimento, é riqueza de espírito, é esperança, é renascimento, é sorriso e é ternura”. Essa manifestação leva o leitor a constatar uma verdade, não apenas por rimas e versos; não apenas por poemas e métricas, mas, acima de tudo, pelo engajamento político-social (não confundir como política partidária) do autor no que tange a realidade dos fatos, dos acontecimentos que ocorrem nos tecidos da sociedade. Seja no Amazonas, seja no Brasil ou no resto do planeta, como um todo. Afinal, como já foi dito, “os poetas são as antenas do mundo”.

Do seu primeiro trabalho, publicado na década de 1990, quando autor era um jovem que ainda iria completar 20 anos de idade, até ao que deve ser publicado ainda em 2021, seu amadurecimento é visível. Não estamos falando de amadurecimento etário, de experiência de vida, e sim, das percepções poéticas, literárias; da união (e sofisticação) das ideias expressas em cada livro, em cada estrofe, em cada poema, em cada palavra, etc.

Por exemplo, em Retalhos de Mim (1994), consta: “De cada momento meu, tiro um momento para a vida de alguém. Em tudo o que faço, faço algo pela vida de alguém. Onde quer que eu vá, tem alguém esperando por mim”. Isto quer dizer que Elias Souza tem consciência do quanto é importante seu papel – pois lida com palavras, com pensamentos – de construtor dos novos edifícios. Edifícios do saber. Esse “seu eu” é, obviamente, o “eu lírico”, cuja “oração” é utilizada para dizer aos que querem se desgarrar das amarras das incultas e velhas ideias do passado, isto: ‘estou chegando’ e, ‘juntos vamos nos reconstruir pelas letras’.

Outro encantamento contido em seu trabalho, são as APRESENÇÕES. Todas assinadas por professores, pesquisadores, escritores, entre outros. E, demonstrado está que todos conhecem bem, tanto o autor quanto a sua produção artística. Eis aqui um exemplo: “Há um jovem autor das poesias desta coletânea uma vibralidade tropical tão vívida e tão vivaz, como é vivaz e vívida a verde exuberância da terra amazônica (Ir. João Batista Camilotto, in Retalhos de Mim)”. Fantástico! Fantástico! Esses verdes anos que jamais deixarão de ser verdes a cada manhã, como o verde amazônico que ressurge ao amanhecer, como bem o disse o irmão marista.

Em 2005, fui convidado pelo poeta para fazer a Apresentação do seu mais novo trabalho: “Educação e Aprendizagem: Frases que Educam e Frases que Ensinam” (lançado em 2007). Ali, ao analisar o conteúdo que iria para o prelo, confirmei o que já pensava a respeito: “Não é fácil escrever!” e logo citei Clarice Lispector: “Não é fácil escrever. É duro quebrar rochas. Mas voam faíscas e lascas como aços espalhados”.

A mensagem é direta: ‘educar para aprender’. Aprender para viver melhor – melhor em todos os aspectos. Recorri então, a Aldous Huxley, que disse: ‘Vivemos num mundo cheio de miséria e ignorância. O dever evidente de cada um de nós é tentar tornar o pequeno canto em que vive um pouco menos miserável e menos atrasado do que antes de sua chegada”. Assim, chegou ao público Educação e Aprendizagem…, cuja finalidade já está diretamente explicita no próprio título. O seu conteúdo é mais altivo que seu título.

Em janeiro e fevereiro de 2021, o Facetas entrevistou o poeta, pelo WhatsApp, e o mesmo foi solícito ao responder questões sobre seu ofício literário – algumas já inseridas na primeira parte publicada anteriormente. Por exemplo, o surgimento do seu interesse pelas letras poéticas, surgiu na juventude, quando lia Manuel Bandeira, Júlio Verne, entre outros. Num segundo momento, passou a ler Castro Alves, Gonçalves Dias, Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana (de quem se tornou amigo e dele obteve vários livros autografados), Thiago de Mello, Cora Coralina, etc. Por sinal, “Meu Vintém Perdido”, de Cora é um dos dois poemas de sua preferência. O outro é “Miséria da Nossa Incompetência”, de sua autoria. Como poeta, a sua admiração está diretamente voltada para Coralina, como já foi dito; para o educador Paulo Freire e para o professor que foi seu pai, Francisco Bezerra de Souza.

E a inspiração para criar, para versar, como vem? Nos respondeu que quando inquieta-se “com algum sentimento de qualquer natureza; sempre que o homem (lhe) desafia com a sua (in) sensibilidade”, passa a investigar suas origens cultural e vivência, por meio da poesia. E, agindo assim, além de não se aprisionar, não será injusto, nem consigo e nem com as demais pessoas. Enfim, nem com o mundo.

Aos novos poetas, qual seu recado? A sua resposta de encorajamento foi esta: “Não faz mal sonhar, mas é perigoso reprimir os sonhos; não faz mal sentir, mas é perigoso reprimir sentimentos. A poesia é uma válvula de escapa para aliviar nossas tensões. Escreva, mesmo que só você ame sua poesia e ainda que apenas uma folha de papel ou uma tela de computador ou de celular sejam seus únicos confidentes. Seja (você) o primeiro a acreditar na sua obra para que outros tenham a oportunidade de acreditar”, também.

No final da entrevista, o Facetas quis saber as suas considerações de “poeta pelo poeta?”. E prontamente nos assegurou ser um eterno aprendiz, ou seja, “um homem em construção, disposto a aprender até o último suspiro”. Haja vista ter discernimento de que não se constrói muito sozinho. Mas também, não se pode – em hipótese alguma – permitir ser construído pelos outros. Ele, o poeta, “É um guri da selva”. Porém, “um homem novo a cada fração de segundos da vida”, seja no seu mundo interior, seja no seu mundo exterior, seja com os seus semelhantes, seja “com a Natureza e com o Criador”.

“Palavras e Versos” é um livro inspirador à reflexão, á boa ação. Nele está a prece “Oração do Homem Sensato”, da qual foi extraída este trecho: “Por tudo te sou grato, Senhor, porque me fizeste sensível ao amor, herdeiro da tua sabedoria e compreensivo aos atos insanos dos homens maus, sem nunca esquecer-me de que Tu és o maior, o único justo, e não deixarás impunes os infratores da tua Lei”. Nessa mesma obra (“orelhas”), há um poema de versos fortes pelos quais não se deve, de forma alguma, aceitar as desigualdades sociais entre nós, os humanos: “Somos muitos em relação aos que agem em nosso nome. Mas por não nos unirmos, somos escravos , e bancamos todas as mordomias, enquanto suportamos a miséria, as injustiças, a fome, a violência e o desrespeito…// Somos todos responsáveis pelo bem de todos. Se agirmos acertadamente, triunfaremos; caso contrário, sucumbiremos”.

Amigos leitores, aqui, mais uma vez, a poesia. As palavras sensatas (e sábias) de mais um poeta. Esperamos que todos gostem das nossas duas sínteses sobre a vida e as obras de Elias Souza.

Por Angeline e Francisco Gomes.

Fontes

  1. Souza, Elias. Retalhos de Mim. – SP: Scortecci, 1994
  2. Souza, Elias. Palavras & Versos. – SP: Scortecci, 1998.

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