“Cult Alf”- Estágios da alma

Eis aqui o nosso artigo ESPECIAL deste mês. Veja o quanto é genial o texto entre aspas. No rodapé, uma nota sobre o Festival de Parintins de 2022.

“Nasci em 1929. Minha mãe era doméstica de uma família que atuou na minha criação. Todos eram músicos amadores. Nesse ambiente eu estudei piano clássico dos 10 aos 14 anos, cheguei a toca um pouco Chopin e Tchaikovsky. Desde criança já fazia minhas musiquinhas na cabeça e guardava pra mim. Ouvia George Gershwin, Nat King Cole e Sarah Vaughan. E a Rádio Nacional, com Emilinha Borba e as outras. Tive o privilégio de acompanhar lançamentos de Ary Barroso e outros grandes compositores. Sem falar na influência dos filmes americanos. Eu assisti o Branca de Neves do Disney por semanas a fio. Essa é a essência do meu trabalho.

Nunca me preocupei em classificar a música que eu faço, se é samba-jazz, jazz, samba ou bossa-nova. Sempre nas entrevistas alguém reclama: isso tem nome. Música não tem nome, meu bem. Eu sempre saio por essa… Eu mesmo não sei classificar. Mas uma coisa eu faço questão de dizer: eu gosto de jazz e na minha música o lado jazzístico é muito forte. Principalmente no que diz respeito à participação dos músicos. Eu dou a eles a hora de mostrar o que sabem fazer com o instrumento. Isso dá uma ebulição muito grande na minha música.

Não tenho regras para compor. às vezes pinta a letra primeiro, às vezes a música. É um negócio espiritual. Posso estar aqui de repente e vir uma inspiração na minha cabeça, eu guardo, em casa passo para a partitura. Uma vez eu estava dormindo, acordei de repente e consegui passar para a pauta o que eu tinha ouvido em sonho. São os famosos estágios d’alma. Como moro sozinho e me dedico bastante ao meu trabalho, tenho a facilidade de passar esses momentos para o papel. Minha dedução é que os arautos da Arte são intermediários de mensagens vinda do Cosmos. Handel e Stravinsky tiveram visões antes de comporem a Aleluia e a Sagração da Primavera. Sem me colocar na altura deles, afirmo que o instante da inspiração me mergulha num completo desligamento do que se passa na minha volta. Mas cada música que eu canto, lembro como e quando estava quando compus. São autobiográficas” (1).

As palavras acima são do genial Alfredo José da Silva, ou seja, o cantor e compositor carioca Johnny Alf (1929-2010), extraídas de um dos mais belos discos do cancioneiro brasileiro, lançado em 1999, para comemorar os “40 anos de bossa novas”, CULT ALF, gravado ao vivo, e produzido pelo diretor artístico João Carlos Rodrigues. Aliás, são dele as seguintes considerações a respeito desse CD, assim:

“Quase 50 anos depois da sua estreia profissional, JOHNNY ALF continua sendo o mais misterioso e menos conhecido dos grandes compositores da MPB.

Anunciado ao público por Ronaldo Bôscoli no famoso show de bossa nova na Faculdade de Arquitetura em 1959 como “alguém que faz bossa nova desde que nasceu”; e exaltado pelo escritor e compositor Jorge Mautner no seu livro Kaos (1964) como o supra suma da vanguarda (“conheci um gênio”). ALF nunca abandonou os palcos das casas noturnas do Rio e de São Paulo, mas tem uma carreira fonográfica bissexto. Três (discos) 78 rotações raríssimos nos anos 50, hoje peças de colecionadores. Alguns compactos e faixas isoladas em coletâneas e songbooks. E apenas oito discos solo: três nos anos 60, dois nos 70, apenas um na sinistra década de 80, e dois nos atuais anos 90.

CULT ALF é seu nono disco, e tem características que o distinguem de todos os outros. É o primeiro ao vivo, o que possibilita ao ouvinte apreciá-lo sem as limitações de arranjo, repertório e minutagem de um disco de estúdio. Aqui temos JOHNNY ALF e seus companheiros em plena bossa-session, como nos velhos tempos do Beco das Garrafas. Para melhor recriar o clima, mas sem saudosismos, preferimos usar contrabaixo acústico e não elétrico, e bateria tradicional em lugar de percussão. Tivemos o cuidado de selecionar o repertório que fugisse da obviedade. Escolhemos músicas inéditas ou menos conhecidas, ao lado de canções de outros compositores” (1).

Só complementando – apenas dois itens -, que o produtor não os citou sobre a realização desse memorável trabalho: Alfa ao piano se faz acompanhar pelos músicos Idriss Boudrioua (Sax), Marcos Souza (Baixo) e Carlos Ramón (Bateria), e as 12 músicas que compõem essa obra-prima nacional, que são: Luz Eterna, Céu e Mar e Redenção, de Johnny Alf; Esquece, de Gilberto Milfont; Wave, de Tom Jobim; Desafinado, de Tom Jobim e Newton Mendonça; Melodia Sentimental, de Villa Lobos e Dora Vasconcelos; Bachiana nº 5 (Cantilena), de Villa Lobos, entre outras. Tem mais: Johnny diz à plateia como surgiram essa ou àquela canção. São gravações históricas da nossa música.

Trata-se de um CD imperdível! Adquira ou seu ou acesse a internet.

Fonte 1: CD “CULT ALF”, gravado ao vivo. RJ: Natasha Records, 1999.

Foto acervo Facetas

Notinha útil – Teve início ontem e termina amanhã, o 55º Festival de Parintins (AM), com as apresentações de Garantido e Caprichoso e vice versa. É tudo deslumbrante; muito cultural, muito original. Para quem não pode ir até a Ilha, deve assistir tintim por tintim pelas transmissões da TV ACRÌTICA.

Por Angeline, Francisco e Winnie.

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